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Tous les Matins du MondeJá com avançada idade, o compositor Marin Marais (Gérard Depardieu) é um respeitado mestre de música na corte francesa. Mas rodeado de músicos inferiores que ele sente não poderem apreciar em toda a sua plenitude amúsica que ali se toca, Marais recorda a sua adolescência, com seu mestre Sainte Colombe (Jean-Pierre Marielle), e as filhas deste, em particular a sua amada Madeleine (Anne Brochet) . Com Sainte Colombe, um homem austero, que acreditava que a música era algo pessoal e não para ser ostentado em palácios, o jovem Marais (Guillaume Depardieu) esforça-se para o compreender, merecer a sua atenção, e por fim ser digno do seu orgulho.

Análise:

A partir do livro do mesmo nome, de Pascal Quignard, Alain Corneau realizou, com argumento do próprio Quignard, o filme “Todas as Manhãs do Mundo”, dedicado às vidas e relação entre os dois compositores franceses do final do século XVII, Monsieur de Sainte-Colombe e Marin Marais.

Monsieur de Sainte-Colombe é ainda hoje um compositor envolto nalgum mistério, não se conhecendo exactamente as suas origens. Sabe-se que vivia uma vida de reclusão, tendo ficado célebre pela suposta adição de uma sétima corda à sua viola de gamba (um antecessor do moderno violoncelo), que lhe dava um som mais intenso, e por ter sido o tutor do célebre compositor e intérprete, Marin Marais. O filme explora principalmente a interacção entre estes dois homens, tentando lançar um pouco de luz sobre o que seria a relação de Monsieur de Sainte-Colombe com a sua música.

Na obra de Corneau e Quignard, Sainte-Colombe (Jean-Pierre Marielle) é um homem amargurado pela morte prematura da mulher, que decide a partir de então viver no campo, apenas para as suas filhas Madeleine e Toinette, com os gansos e galinhas como único público da sua música. Sainte-Colombe compõe e toca para expressar o inexpressável, e para se dirigir àqueles a quem não se pode dirigir por palavras. Fecha-se na sua cabana e toca para a defunta esposa, para a sua dor, para aquilo que já não terá, e para tudo o não consegue viver. A sua frase “Todas as manhãs do mundo são sem regresso” exemplifica essa relação pessoal com o tempo, a memória e a dor humana que Sainte Colombe carrega.

Sainte-Colombe educa as filhas nessa vida austera, como meros recipientes do pouco afecto que consegue transmitir, e parceiras musicais da sua arte quase secreta. Mas tal equilíbrio é rompido pelo jovem Marin Marais (Guillaume Depardieu), que à custa de muita teimosia, sacrifício, e guiado pelos ensinamentos de Madeleine (Anne Brochet), que dele se enamora, consegue ser aceite como pupilo do velho músico. Marais quer deixar a vida simples da sua família e triunfar. Quer aprender os segredos da música, e com isso chega à corte francesa. Mas para Sainte-Colombe, que vê nessa cedência aos ricos palcos uma traição à essência da música, Marin Marais nunca é um digno sucessor.

A história é-nos contada do ponto de vista de um idoso Marais (Gérard Depardieu), reputado músico e compositor da corte, mas que está cansado da adoração daqueles que considera inferiores, e incapazes de entender a verdadeira arte da música. Aos seus olhos ainda busca o reconhecimento daquele que sempre venerou, Sainte Colombe, e por isso recorda dolorosamente o tempo que passou com ele.

A história de Marais com Sainte Colombe é um história de luta pela integridade de um músico, pelo compreender do que de mais sagrado existe nesta arte. É a história de uma adoração nem sempre entendida, e até de uma traição (personificada no abandono e consequente morte de Madeleine). É por fim a história de que algo mais universal que um compositor, um público, uma moda, ou um instrumento, perdurará a ponto de nos tocar séculos mais tarde.

Com uma banda sonora da responsabilidade do célebre virtuoso Jordi Savall (interpretada pelo próprio e pelos solistas do ensemble Le Concert des Nations), o filme revisita a obra de Sainte Colombe e Marais. Filmado com um grande respeito pela reconstituição histórica, “Todas as Manhãs do Mundo” traz-nos belos cenários naturais, que nos aproximam dessa essência quase sobre-humana da música. Nele os diálogos apenas pontuam os silêncios, e a narração em off serve de interlúdio. É a música, quase como uma meditação, que no seu carácter pungentemente melancólico, expressa os sentimentos, situa a narrativa, e cria uma obra belíssima.

Destaque para o facto de o jovem Marais ser interpretado pelo filho do próprio Depardieu. O filme recebeu o César de Melhor filme pela Academia Francesa (onde Alain Cornreu foi nomeado o melhor realizador do ano), e o Urso de Ouro do Festival de Berlim.

Produção:

Título original: Tous les Matins du Monde; Produção: Film Par Film, DD Productions , Divali Films, Societé d’Exploitation et de Distribution de Films (SEDIF), FR3 Films Production, Centre National de la Cinématographie (CNC), Paravision International S.A.; Produtor Executivo: Bernard Marescot; País: França; Ano: 1991; Duração: 114 minutos; Distribuição: BAC Films; Estreia: 18 de Dezembro de 1991 (França), 30 de Abril de 1993 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alain Corneau; Produção: Jean-Louis Livi; Co-Produção: Raphaël Berdugo; Argumento: Alain Corneau, Pascal Quignard [adaptado do romance de Pascal Quignard]; Música: Jordi Savall; Fotografia: Yves Angelo; Design de Produção: Bernard Vézat; Figurinos: Corinne Jorry; Cenários: Françoise Doré; Montagem: Marie-Josèphe Yo; Caracterização: Jean-Pierre Eychenne.

Elenco:

Jean-Pierre Marielle (Monsieur de Sainte Colombe), Gérard Depardieu (Marin Marais), Anne Brochet (Madeleine), Guillaume Depardieu (Jovem Marin Marais), Carole Richert (Toinette), Michel Bouquet (Baugin), Jean-Claude Dreyfus (Abbe Mathieu), Yves Gasc (Caignet), Yves Lambrecht (Charbonnières), Jean-Marie Poirier (Monsieur de Bures), Myriam Boyer (Guignotte), Violaine Lacroix (Jovem Madeleine), Nadège Teron (Jovem Toinette), Caroline Sihol (Mme. de Sainte Colombe), Philippe Duclos (Brunet – voz).

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