Etiquetas

, , , , , , , , , ,

Number SeventeenEm 1932 John Maxwell sugeriu que Alfred Hitchcock filmasse “Número Dezassete”, uma história de mistério adaptada da peça de teatro de Joseph Jefferson Farjeon, que o realizador não queria, por considerar cheia de lugares comuns. Essa falta de autonomia que Hitchcock vinha a lamentar levou a que este fosse o seu último filme para a British International Pictures (participaria ainda num outro, mas como produtor). Com argumento do próprio, de Alma Reville, e Rodney Ackland, a peça passou a ser um mistério de tons cómicos. Os papéis principais estiveram a cargo de Leon M. Lion, Anne Grey, Ann Casson e John Stuart.

Sinopse:

Um desconhecido que se diz chamar Forsythe (John Stuart) é atraído ao Número 17 da rua em que passa. Lá dentro descobre um corpo, e o vagabundo Ben (Leon M. Lion), que procurava abrigo para a noite. Antes que possam perceber o que sucedeu, ouvem ruídos, e começam a chegar mais pessoas, primeiro uma rapariga (Ann Casson) que procura o pai para o qual tem um telegrama que fala de uma joia roubada. Depois outros homens, todos eles interessados nessa joia. Não se sabendo exactamente quem é quem, todos desconfiam que entre eles possa estar um detective infiltrado.

Análise:

Como sua última realização para a British International Pictures, Alfred Hitchcock adaptou novamente uma peça de teatro, desta vez um mistério da autoria de Joseph Jefferson Farjeon. Hitchcock achava a peça cheia de lugares comuns, sem nada que lhe despertasse o interesse, e estaria interessado noutros projectos. Essa colisão com o produtor John Maxwell foi a última gota que o levou a deixar a produtora para a qual trabalhava desde “O Ringue de Boxe” (The Ring, 1927). Depois deste filme Hitchock trabalharia apenas num outro, e como produtor.

Habituado a filmar argumentos construídos a partir de peças de teatro, Hitchcock deu especial importância ao espaço em que a acção decorre. Esta é, se exceptuarmos os segundos iniciais e a sequência final, toda ela passada no interior de um edifício, mais concretamente nos vários patamares das escadarias interiores (escadas em caracol, como Hitchcock tanto gostava de filmar). É nesse espaço que os personagens se vão juntando, interagindo, e revelando os seus antagonismos e alianças.

Tudo começa quando acompanhamos os passos de Forsythe (John Stuart), por uma rua, numa longa sequência muda, em que, vendo-lhe apenas as costas (outro recurso hitchcockiano para nos colocar na pele de um personagem, sem que a sua identidade seja relevante), o vemos interessar-se pelo Número 17, entrar, e encontrar o primeiro mistério: um corpo inerte.

Segue-se o segundo intruso (e todos são intrusos no Número 17), Ben (Leon M. Lion) um sem abrigo que é, em simultâneo, o lado cómico do filme. Chega depois Rose Ackroyd (Ann Casson), caída do telhado, trazendo a informação de um roubo, e voltando a mostrar-nos a queda como um recurso dramático caro a Hitchcock. Chegam então outros personagens, porventura cúmplices, mas todos procurando um tal Sheldrake, e temendo um certo detective Barton. Ninguém parece saber quem é quem, o que cria ainda mais incertezas sempre que alguém se apresenta.

A partir de então a história torna-se confusa, nem sempre se percebendo as motivações de cada um. Com um enquadramento que parece perfeito para um adensar de mistério e suspense, o ritmo descoordenado com que tudo vai acontecendo trai os propósitos da obra.

Destaca-se no entanto o modo como Hitchocock filma os espaços interiores, feitos de portas, de escadas, de sombras, de linhas rectas e angulares, tudo o que remete para o expressionismo alemão, que o realizador já tinha usado noutros dos seus filmes. Neles assistimos a momentos verdadeiramente hitchcockianos, como o momento em que Forsythe e Rose ficam suspensos, para uma queda que parece inevitável, suspensão essa que tantas vezes o realizador usou na sua obra.

Destaca-se também a longa sequência final, em que Hitchcock filma uma desenfreada viagem de comboio, perseguido por um autocarro, com um final catastrófico num ferry-boat. A sequência foi filmada fazendo uso de efeitos especiais e miniaturas, contribuindo para a fama dos finais climáticos de Hitchcock.

O filme foi mal recebido pela crítica e pelo público, e descrito pelo próprio autor com uma simples palavra: um desastre.

Produção:

Título original: Number Seventeen; Produção: British International Pictures (BIP); País: Reino Unido; Ano: 1932; Duração: 65 minutos; Distribuição: Wardour Films (Reino Unido), Powers Pictures Inc. (EUA); Estreia: 18 de Julho de 1932 (Reino Unido), 3 de Março de 1982 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Leon M. Lion, John Maxwell [não creditado]; Argumento: Alfred Hitchcock, Alma Reville, Rodney Ackland [a partir do livro e peça de teatro de Joseph Jefferson Farjeon]; Fotografia: Jack E. Cox, Bryan Langley [preto e branco]; Assistente de Realização: Frank Mills; Direcção Artística: C. Wilfred Arnold; Montagem: A. C. Hammond; Música: Adolph Hallis.

Elenco:

Leon M. Lion (Ben), Anne Grey (Nora), John Stuart (Forsythe), Donald Calthrop (Brant, Acompanhante de Nora), Barry Jones (Henry Doyle), Ann Casson (Rose Ackroyd), Henry Caine (Mr. Ackroyd), Garry Marsh (Sheldrake).

Anúncios