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Rich and Strange“Rico e Estranho” foi o penúltimo filme de Alfred Hitchcock para a British International Pictures e um regresso à comédia de costumes, de contornos morais, como já antes havia feito com “Champagne” de 1928. Novamente num argumento escrito a meias com a esposa Alma Reville, Hitchcock adaptou uma obra de Dale Collins, retratando os pecados da alta sociedade, em contronto com a inocência dos protagonistas, com Henry Kendall e Joan Barry nos principais papéis.

Sinopse:

Um casal de classe-média, Fred (Henry Kendall) e Emily Hill (Joan Barry), recebe a notícia de que vão receber um adiantamento de uma herança, para começarem a experimentar os prazeres da fortuna. Decidem então embarcar num cruzeiro pelo mundo, para sentir em primeira mão como vive a classe alta. Só que a partir de então as tentações vão separá-los e ambos vão ceder à sedução de outros parceiros, quase destruindo o seu casamento.

Análise:

Com argumento do próprio conjuntamente com a esposa, Alma Reville, e Val Valentine, a partir do livro de Dale Collins, Alfred Hitchcock filmou a comédia “Rico e Estranho”. Tratou-se de um filme que, um pouco à luz de “Champagne” (1928), retratava o ócio da classe alta, os seus vícios e idiossincrasias, num tom que pretendia ficar a meio caminho entre drama e comédia.

“Rico e Estranho” é ainda uma história de inocência, a do casal Fred (Henry Kendall) e Emily Hill (Joan Barry), que um dia descobre ter recebido uma herança que os poderá retirar da vida monótona que viviam até ali. Decidem embarcar num cruzeiro à volta do mundo, depois de viajarem por França e conhecerem as delícias da vida nocturna parisiense.

Essa inocência faz deles presas perfeitas de um mundo de predadores pronto a devorar quem não mostra experiência necessária para lhe evitar as ciladas. Devido a uns dias de enjoo marítimo, Fred vai deixar que a esposa seja cortejada pelo experiente e atencioso Comandante Gordon (Percy Marmont). Logo de seguida, recuperando das maleitas, ao invés de procurar recuperar a atenção da esposa, Fred vai cair nas graças da sedutora Princesa (Betty Amann). Quanto mais um dos cônjuges se deixa deslumbrar por esta atenção inesperada, mais o outro se sente autorizado a prosseguir na descoberta da nova relação extra-conjugal.

Por entre festas, bebida e jogos de sedução, Fred e Joan divergem um do outro até ao ponto em que deixam quase de ser as pessoas que antes foram. Só que a descoberta dos planos da Princesa (uma aventureira caçadora de fortunas) vem lançar luz sobre tudo o que vem acontecendo, mostrando ao casal o quanto a ilusão do dinheiro os alterara. O abatimento trazido por esta realidade logo é suplantado por outra mais cruel, a luta pela sobrevivência quando o navio em que regressam, afunda. É esse infortúnio que volta a lançá-los nos braços um do outro, fazendo com que ambos desejem o regresso à vida simples que tinham quando não eram ricos.

Com “Rico e Estranho”, Hitchcock dirige uma história que está longe de ser interessante, ainda que o próprio achasse ser um filme incompreendido pela crítica, que o arrasou na estreia. Notam-se alguns dos toques do mestre, como a longa sequência inicial em que, sem palavras, vemos o dia a dia de Fred, desde o pormenor de uma página de contabilidade, ao alargar do plano para imagens de movimento desde o seu emprego, até casa. Com esta, e como acontecera em “O Hóspede” (The Lodger: A Story of the London Fog, 1926) e em “Chantagem” (Blackmail, 1929), Hitchcock começava a construir sequências iniciais memoráveis, que se tornariam uma das suas imagens de marca.

Destaca-se ainda os inúmeros toques de humor, com as situações criadas no navio, a importuna velha solteirona (Elsie Randolph), e a cena da refeição no barco chinês. Finalmente, digno de nota é ainda o facto de Hitchcock voltar a técnicas do cinema mudo, como os intertítulos (o filme tem poucos diálogos), e interpretações com ênfase em expressões faciais, e rostos demasiado maquilhados. Talvez por tudo isto, o filme revelou-se um fracasso comercial.

Produção:

Título original: Rich and Strange; Produção: British International Pictures (BIP); País: Reino Unido; Ano: 1931; Duração: 82 minutos; Distribuição: Wardour Films (Reino Unido), Powers Pictures Inc. (EUA); Estreia: 10 de Dezembro de 1931 (Reino Unido), 3 de Março de 1982 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: John Maxwell; Argumento: Alfred Hitchcock, Alma Reville, Val Valentine [a partir do livro de Dale Collins]; Fotografia: Jack E. Cox, Charles Martin [preto e branco]; Direcção Musical: John Reynders; Assistente de Realização: Frank Mills; Música: Adolph Hallis [como Hal Dolphe]; Direcção Artística: C. Wilfred Arnold; Montagem: Rene Marrisson, Winifred Cooper.

Elenco:

Henry Kendall (Fred Hill), Joan Barry (Emily Hill), Percy Marmont (Comandante Gordon), Betty Amann (A Princesa), Elsie Randolph (A Velha Solteirona).

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