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The KidSinopse:

Uma mulher (Edna Purviance) dá à luz um bebé que não pode manter, por ter sido abandonada pelo homem que não aceitou uma gravidez indesejada. Em desespero abandona o bebé dentro de um carro, para ser cuidado por pessoas ricas. Mas o carro é roubado, e o bebé acaba largado num beco onde é encontrado pelo vagabundo Charlot (Charles Chaplin), que se comove com ele.

Cinco anos depois Charlot e o garoto (Jackie Coogan) vivem como pai e filho, dando pequenos golpes, e sobrevivendo à custa do seu amor e imaginação. Quando a criança adoece, o médico chama as autoridades que decidem levar o miúdo para uma instituição oficial. Charlot luta e consegue levar o garoto, fugindo os dois. Mas com o alerta das autoridades, a notícia chega aos ouvidos de uma actriz que fazia caridade no bairro, e não é mais que a mãe do garoto, agora bem na vida.

Análise:

Charles Chaplin, um dos maiores ícones da história do cinema, tem o seu nome associado às primeiras décadas do cinema mudo de Hollywood, onde marcou para sempre a forma de fazer comédia, e influenciou todos os comediantes até hoje. Muito já se escreveu sobre o seu principal personagem, o recorrente vagabundo, versão maltrapilha de um lorde inglês, de chapéu de coco e bengala, cuja irreverência e imaginação serviam de mote a uma rebeldia saudável contra as convenções de uma sociedade estereotipada e tantas vezes hipócrita.

Em 1921 Chaplin era já uma figura estabelecida em Hollywood, um dos mais bem pagos actores de sempre, até então, um autor e produtor respeitado pelos seus pares, ainda que por vezes vítima da desconfiança do público, que encontrava na sua rebeldia algo de incómodo.

Tendo começado no cinema de Hollywood em 1914, pelas mãos de Mack Sennett, Chaplin cedo passou de mais um actor burlesco nas inúmeras comédias da Keystone, para uma figura de nome próprio, que após duas dezenas de curtas-metragens para Sennett, já escrevia e dirigia todos os seus filmes. A busca por um total controlo da sua obra levou-o a trabalhar primeiro para a Essanay, depois para a Mutual, onde assinou, entre 1915 e 1916, aquelas que são talvez as suas mais famosas curtas-metragens. Seguiu-se um período mais sereno na sua carreira, em que, no seu próprio estúdio, Chaplin era distribuído pela First National, atrevendo-se finalmente no campo das longas-metragens.

A primeira destas foi “O Garoto de Charlot” o filme com que Chaplin marcaria o tom da fase seguinte da sua carreira. Como escrito no primeiro intertítulo é “um filme com um sorriso e talvez uma lágrima”, que os biógrafos de Chaplin consideram inspirado na morte do seu primeiro filho com poucos dias de vida, em 1919.

Se principalmente associado ao humor burlesco do início da sua carreira, Chaplin aproveita o tempo alargado de “O Garoto de Charlot” para desenvolver uma história comovente. É a história de uma relação de paternidade inesperada, feita de amor entre dois rejeitados da sociedade: o vagabundo (Charlot, como ficou conhecido em Portugal) e um bebé abandonado pela própria mãe. Sem que nada o pudesse fazer prever, entre os dois nasce uma relação bonita de cumplicidade e confiança, como nos é mostrada nos mais pequenos gestos (desde o modo como trabalham – criminalmente – juntos, até aos pequenos rituais caseiros).

Sem perder o humor próprio de Chaplin, que o coloca sempre em situações despreviligiadas (fuga à polícia, luta com o hooligan do bairro, etc.), com tanto de físico, como de inteligentemente subtil, “O Garoto de Charlot” é uma história que comove pela química estabelecida entre adulto e criança, que nos levam desde logo a desejar que “pai” e “filho” fiquem sempre juntos.

A criança (Jackie Coogan, que décadas depois voltaria à ribalta no papel de Tio Fester, na famosa série televisiva Addams Family) é, aliás, exemplar na forma como contracena com Chaplin, sendo porventura o actor que melhor divide cenas com Chaplin em toda a carreira do realizador-actor. Para além dele destaca-se ainda a presença da habitual diva de Chaplin, Edna Purviance, no papel da mãe que abandona o seu filho num momento de desespero de que logo se arrepende.

Com um início tão cruel, nas mão de Chaplin a mulher é vista, não como criminosa, mas como uma vítima, que a partir daí não tem paz até reencontrar o filho (note-se o plano que a mostra como santa). Por isso, após se tornar uma cantora de ópera consagrada, dedica o seu tempo livre em gestos de caridade para com as crianças pobres.

Com um final feliz, que é quase exigido a uma história tão humana e comovente, Chaplin consegue em pleno respeitar a premissa inicial, no seu misto de realismo social e romantismo lírico, num filme que tem sempre um sorriso e uma lágrima. Pelo meio ficam algumas das cenas mais inspiradas da sua carreira, de onde se destacam o esquema dos vidros partidos, as peripécias da noite no abrigo, a fuga pelos telhados, ou o célebre sonho surreal, onde Chaplin vestido de anjo esvoaça sobre os problemas mundanos.

Como curiosidade, Lita Gray, o anjo sedutor da sequência do sonho, tornar-se-ia a segunda esposa de Chaplin, então a braços com um divórcio litigioso, que o fez fugir de Hollywood com os negativos do filme. Do elenco constam ainda vários dos actores habituais de Chaplin, como Albert Austin e Henry Bergman.

“O Garoto de Charlot” seria reeditado em 1971 pelo próprio Chaplin, passando então a ter uma banda sonora da sua autoria.

Produção:

Título original: The Kid; Produção: Charles Chaplin Productions; País: EUA; Ano: 1921; Duração: 67 minutos; Distribuição: First National Pictures; Estreia: 21 de Janeiro de 1921 (EUA), 28 de Maio de 1923 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Charles Chaplin; Produção: Charles Chaplin; Argumento: Charles Chaplin; Fotografia: Roland Totheroh [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Charles Chaplin [não creditado]; Direcção Artística: Charles D. Hall [não creditado].

Elenco:

Charles Chaplin (Um Vagabundo), Edna Purviance (A Mulher), Jackie Coogan (O Garoto), Carl Miller (O Homem), Tom Wilson (O Polícia) [não creditado], Jack Coogan, Sr. (Carteirista / Convidado / Diabo) [não creditado], Henry Bergman (Professor Guido / Gerente do Abrigo Nocturno) [não creditado], Lita Grey (Anjo Sedutor) [não creditada], Silas Hathaway (O Garoto enquanto bebé) [não creditado], Albert Austin (Homem no Abrigo) [não creditado], Frank Campeau (Oficial da Segurança Social) [não creditado], Jules Hanft (Médico) [não creditado], Charles Reisner (Hooligan) [não creditado].