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The Skin Game“Jogo Fraudulento” foi novamente um filme adaptado de uma peça de teatro famosa na altura (da autoria de John Galsworthy), imposto pela British International Pictures a Hitchcock contra a vontade do próprio. O filme teria mais uma vez argumento de Hitchcock e da sua esposa Alma Reville, e juntou-o com o actor Edmund Gwenn, à altura um actor de teatro importante, e que também seguiria mais tarde para os Estados Unidos, onde se voltaria a reunir com Hitchcock.

Sinopse:

A família Hillcrist vê com preocupação a chegada dos Hornblower à região rural onde habita. Enquanto os Hillcrist se orgulham de ter ali vivido durante muitas gerações, o industrial Hornblower (Edmund Gwenn) traz consigo a mudança, que transfigurá por completo a paisagem, e causará o desalojamento de pobres camponeses. Tal provoca a ira da senhora Hillcrist (Helen Haye), que lidera a família em todos os métodos possíveis para defraudar os propósitos dos Hornblower, mersmo usar o passado secreto de Chloe Hornblower (Phyllis Konstam) para chantagear a sua família.

Análise:

“Jogo Fraudulento” é mais um filme de Alfred Hitchcock adaptado a partir de uma peça de teatro (era já a oitava peça em doze filmes). Tal como acontecera com outros filmes da altura, foi imposto pela British International Pictures a Hitchcock que nunca o reconheceu como verdadeiramente seu.

Com Edmund Gwenn no principal papel (ele que voltaria a trabalhar com Hitchcock), a história trata de uma rivalidade entre duas famílias, que é ao mesmo tempo um braço de ferro entre a tradição e o progresso, entre a aristocracia tradicional e o dinheiro da burguesia industrial. De um lado estão os Hillcrist, o casal (C.V. France e Helen Haye) e a sua filha Jill (Jill Esmond), ajudados pelo sempre fiel Dawker (Edward Chapman), representantes da ancestralidade e modos de vida aristocráticos. Do outro lado estão os Hornblower, compostos por um chefe de família de pretensões industriais (Edmund Gwenn), pelos seus filhos Rolf (Frank Lawton) e Charlie (John Longden), e pela esposa deste, Chloe (Phyllis Konstam), que representam o progresso desumano, com consequências sociais e de transformação da paisagem natural.

Uma cena inicial de possível romance entre Jill e Rolf, traz-nos para um cenário de Romeu e Julieta, sendo os jovens os representantes inocentes de duas famílias desavindas, cenário esse pouco aproveitado no resto da história (excepto no final onde vemos as suas mãos tocarem-se e tornarem a separar-se). Daí passa-se da guerra natural entre os Hillcrist e os Hornblower, que de simples confronto surdo e preconceito social, passa a um braço de ferro que findará numa chantagem de consequências trágicas. A arrogância de ambas as partes torna-as ambas vilãs e pouco dignas da nossa simpatia, no que parece ser uma crítica directa às classes mais altas da sociedade inglesa, caídas nesse jogo sujo (skin game), que por mais nobres motivos que tenha não impede que a destruição (de valores, da sociedade, da paisagem) continue. Símbolo disso é a última imagem, o abatimento de uma árvore ancestral.

É na escalada do conflito entre as famílias que reside a principal força do argumento, pontuada por momentos interessantes. Entre estes figura o longo leilão em que as duas famílias se confrontam subrepticiamente (note-se como é filmado a partir do púlpito, procurando os rostos dos interessados), a descoberta do passado de Chloe, e os diálogos acutilantes entre a senhora Hillcrist e o senhor Hornblower.

Mas o ponto mais alto é a cena em que Chloe descobre os propósitos dos Hillcrist, escondida atrás dum cortinado, e de lá ouve o seu marido confrontá-los. Embora ouçamos toda a conversa, a imagem não nos mostra os interlocutores, mas sim o rosto da visada, de quem assim nos tornamos cúmplices, quase até ao momento do seu fim fatídico.

Tal como “Easy Virtue” (1927) ou até “Downhill” (1926) é novamente a reputação, a vergonha e peso social desse passado a motivar os sentimentos e acções, que irão desbloquear a guerra fria entre as duas famílias.

Um pouco como acontecera em “Juno e Paycock” (Juno and the Paycock, 1929), “Jogo Fraudulento” baseia-se muito em cenas filmadas de modo estático, em cenários rígidos a fazer lembrar palcos de teatro, sem que haja a habitual dinâmica narrativa característica de Hitchcock. Neste caso essas cenas são intercaladas com outras filmadas em cenários naturais, mas o filme não parece fluir como os melhores filmes da época de Hichcock. Destaca-se sobretudo a interpretação de Edmund Gwenn, num elenco que está longe de ser memorável.

A mesma peça de John Galsworthy originara já um filme anterior, em 1921, realizado por B.E. Doxat-Pratt, e com Edmund Gwenn no mesmo papel.

Produção:

Título original: The Skin Game; Produção: British International Pictures (BIP); País: Reino Unido; Ano: 1931; Duração: 78 minutos; Distribuição: Wardour Films (Reino Unido), British International Pictures (America) (EUA); Estreia: 26 de Fevereiro de 1931 (Reino Unido), 20 de Junho de 1932 (EUA), 2 de Março de 1982 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: John Maxwell [não creditado]; Argumento: Alfred Hitchcock, Alma Reville [adaptado da peça de John Galsworthy]; Fotografia: Jack E. Cox [preto e branco]; Assistente de Realização: Frank Mills; Direcção Artística: J.B. Maxwell; Montagem: A.R. Gobbett, Rene Marrisson.

Elenco:

C.V. France (Sr. Hillcrist), Helen Haye (Sra. Hillcrist), Jill Esmond (Jill Hillcrist), Edmund Gwenn (Sr. Hornblower), John Longden (Charles Hornblower), Phyllis Konstam (Chloe Hornblower), Frank Lawton (Rolf Hornblower), Herbert Ross (Sr. Jackman), Dora Gregory (Sra. Jackman), Edward Chapman (Dawker), R.E. Jeffrey (Primeiro Estranho), George Bancroft (Segundo Estranho), Ronald Frankau (Leiloeiro).

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