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Murder!Depois de uma breve colaboração num excerto do musical “Elstree Calling”, Alfred Hitchcock realizou em 1930 a sua terceira longa-metragem sonora, e o seu primeiro filme detectivesco, ao jeito de Agatha Christie. A partir de uma peça teatral, com co-adaptação do próprio e da esposa Alma Reville, Hitchcock cometeu ainda o feito de o filmar em duplicado, com actores ingleses e alemães alternadamente nos mesmos cenários, para assim criar uma versão alemã. A versão inglesa foi a sua primeira colaboração com Herbert Marshall, num filme que integrava ainda Norah Baring, Edward Chapman e Esme Percy.

Sinopse:

Quando Gordon Druce (Miles Mander) procura barulhentamente a esposa Edna na casa onde está hospedada Diana Baring (Norah Baring), sua colega de teatro, a algazarra atrai a polícia, que dentro da casa encontra a senhora Druce barbaramente assassinada, enquanto Diana Baring está calmamente sentada ao seu lado dizendo não saber o que se passou. Diana Baring é presa como suspeita, e o seu julgamento condena-a à morte. Mas entre os jurados, está Sir John Menier (Herbert Marshall), antigo mentor de Diana, e que embora tenha concordado com o veredicto, começa a suspeitar que a verdade possa ser outra, encetando uma investigação por conta própria.

Análise:

Embora confessando não ser o seu género preferido, Alfred Hitchcock realizou em 1930 o seu primeiro filme detectivesco, aquilo a que os anglófonos chamam “whodunit” (quem é que o fez – quem cometeu o crime). Baseado numa peça de teatro de de Clemence Dane e Helen Simpson, Hitchcock compôs um filme que se centrava numa investigação criminal, que tinha por fim provar a inocência daquela que é imediatamente considerada culpada (Norah Baring).

Logo desde a argumentação da defesa que se adivinha um dos temas queridos do realizador, o do falso culpado, caído sem apelo nas mãos de uma justiça cega. Hitchcock divide por isso o filme em várias partes distintas, a primeira mostrando a descoberta do corpo e consequente formação de culpa, uma segunda dedicada ao processo judicial, e finalmente a terceira, e mais longa, em que um dos jurados, Sir John Menier (Herbert Marshall), decide iniciar uma investigação por conta própria para perceber o que de facto aconteceu, culminando na elaorada confissão forçada do criminoso.

Após um breve prelúdio em que o crime nos é apresentado, é curioso notar que para Hitchcock não é tanto acusação que lhe interessa (como por exemplo em “Easy Virtue” de 1928). É sim, na sala do juri, que a câmara toma o seu tempo, para que testemunhemos o modo de pensar e a formação da opinião daqueles que ditarão o veredicto. Neste sentido o filme pode ser visto como um percursor de “Doze Homens em Fúria” (12 Angry Men, 1957) de Sydney Lumet, que faz uso magistral dessa ideia.

Mas é na investigação criminal que o filme se centra particularmente. E esta, como diria o próprio Hitchcock, é um jogo cerebral, sem emoção nem suspense, que não o entusiasmava grandemente. Ainda assim, e ao contrário do seu filme anterior, “Juno e Paycock” (Juno and the Paycock, 1929), em “Assassínio” Hitchcock não se confina a uma sala, nem ao referencial teatral (o teatro é aqui apenas um recurso do argumento, não ditando a concepção dos espaços), fazendo pleno uso dos seus expedientes narrativos de origem puramente gráfica.

São inúmeras as cenas em que Hitchcock nos conta os acontecimentos por imagens, por vezes no leve mover de câmara que nos vai deixando olhar pista a pista até termos um quadro geral de cada momento. Há também todo um negrume e um cuidado com o dècor, que fazem de cada plano um quadro, muitas vezes estilizado, quase à boa maneira expressionista, onde o tema das paredes angulares, das portas, e da acção fora de campo nos causam alguma inquietude. Muito celebrada é ainda a sequência em que o personagem de Herbert Marshall toma consciência do caminho a seguir enquanto se barbeia ao som de Tristão e Isolda, de Wagner (de facto a orquestra tocava do outro lado da parede por ser difícil adicionar som posteriormente).

Mas se a história é relativamente banal, interessa sobretudo ver como Hitchcock a explora, o que faz com as referências teatrais (Shakespeare está omnipresente durante o filme), pela presença de Herbert Marshall, um actor seguro, que continuaria a trabalhar com Hitchcock; e até pelos temas subliminares, como a homossexualidade de Handel Fane (Esme Percy), o namorado escondido de Diana Baring, habitualmente transvestido quer no teatro ou no circo onde trabalha. As suspeitas que vão ditar o motivo do crime, são aparentemente ligadas a racismo, mas muito do que se lê nas entrelinhas aponta noutro sentido. Tal acontecera já com a gravidez, evidente, mas nunca nomeada explicitamente, em “Juno e Paycock”.

Hitchcock consegue assim, um filme dinâmico, filmado com imaginação, onde o seu humor negro e gosto pelo macabro se misturam com uma novela ao estilo de Aghata Christie.

O filme teve uma versão alemã, intitulada “Mary” que foi filmada simultaneamente, nos mesmos cenários, com conjuntos de actores diferentes, e Alfred Abel no papel principal. Tal ocorreu por razões económicas levando a que os filmes fossem iguais plano a plano, e quase frase a frase, o que Hitchcock confessaria ter sido um erro, pois a tradução directa para alemão diminuía em muito os diálogos.

Produção:

Título original: Murder!; Produção: British International Pictures (BIP); País: Reino Unido; Ano: 1930; Duração: 92 minutos; Distribuição: Wardour Films (Reino Unido), British International Pictures (EUA); Estreia: 31 de Julho de 1930 (Reino Unido), 24 de Novembro de 1930 (EUA), 1 de Março de 1982 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: John Maxwell [não creditado]; Argumento: Alfred Hitchcock, Walter C. Mycroft, Alma Reville [adaptado da peça de “Enter Sir John” de Clemence Dane e Helen Simpson]; Fotografia: Jack E. Cox [preto e branco]; Direcção Musical: John Reynders; Assistente de Realização: Frank Mills; Direcção Artística: John Mead; Montagem: Emile de Ruelle, Rene Marrisson.

Elenco:

Herbert Marshall (Sir John Menier), Norah Baring (Diana Baring), Phyllis Konstam (Doucie Markham), Edward Chapman (Ted Markham), Miles Mander (Gordon Druce), Esme Percy (Handel Fane), Donald Calthrop (Ion Stewart), Esme V. Chaplin (Advogado de Acusação), Amy Brandon Thomas (Advogada de Defesa), Joynson Powell (Juiz), S.J. Warmington (Bennett), Marie Wright (Miss Mitcham), Hannah Jones (Mrs. Didsome), Una O’Connor (Mrs. Grogram), R.E. Jeffrey (Porta-voz do Juri).

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