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The Manxman“Pobre Pete!” seria o último filme inteiramente mudo de Alfred Hitchcock. Produzido pela British International Pictures, e filmado em cenários naturais, trata-se de um emocionalmente intrincado triângulo amoroso, em que Hitchcock explora a culpa e o dever. Com argumento escrito a partir de um livro de Hal Caine, o filme contou com as interpretações de Carl Brisson, Malcolm Keen e Anny Ondra, a qual alguns autores vêem como a primeira importante loura protagonista de Hitchcock.

Sinopse:

Numa vila de pescadores da Ilha de Man, Pete (Carl Brisson) e Philip (Malcolm Keen), crescem como amigos inseparáveis, apesar da diferença social que os distingue. Pete é um pobre pescador, enquanto Philip, descende de boas famílias e estuda para se tornar um magistrado local. Só que os dois se vão apaixonar pela mesmo mulher, Kate (Anny Ondra), a qual está prometida a Pete. Quando Pete embarca para fazer fortuna no estrangeiro, é Philip quem fica junto a Kate, e quando ambos recebem a notícia da morte de Pete, decidem ficar juntos. Só que a notícia era falsa, e Pete chega, com dinheiro para casar com Kate. A partir de então é impossível a Kate e Philip negar o que sentem um pelo outro, ao mesmo tempo que tentam não trair o amigo que ambos amam.

Análise:

“Pobre Pete!” foi o último filme inteiramente mudo de Alfred Hitchcock, antes do filme de transição que seria “Blackmail” do mesmo ano. O filme foi baseado no romance “The Manxman” de Hall Caine, o qual tinha já sido adaptado ao cinema em 1917. Foi rodado quase inteiramente numa pequena aldeia piscatória da Cornualha, que assim passa pela pequena aldeia da ilha de Man, que dá nome ao protagonista do filme (no original “O homem de Man”). É por isso uma história rural, onde a lealdade e laços familiares, o peso da hierarquia provincial e boas maneiras tradicionais desempenham um pano de fundo importante para o desenrolar da história.

E esta é a história de três amigos, que as circunstâncias empurram para situações de impossível compromisso. É antes de mais uma história de lealdades, bem expressa desde o primeiro momento em que Philip Christian (Malcolm Keen) o amigo rico e socialmente elevado, se dedica a ajudar nas causas dos pescadores liderados pelo amigo pobre, Pete Quilliam (Carl Brisson). E se aparentemente não há diferenças sociais, culturais ou de riqueza que possam separar Pete e Philip, será uma mulher, Kate Cregeen (Anny Ondra) que conseguirá essa separação.

Até aqui o triângulo amoroso, em que uma mulher separa dois amigos, parece o mais banal de sempre, mas é exactamente aí que Hitchcock consegue estabelecer a diferença. Quando notícias imprevisíveis (uma falsa morte) empurram Philip e Kate para uma relação que julgam legítima, estão a ser vítimas de uma circunstância que não controlam. E é por amor a Pete que ambos se resignam a negar as suas vontades. Estabelece-se assim um dos triângulos mais poderosos do cinema. Onde cada um dos lados ama os outros dois inquestionavelmente, e teme acima de tudo trazer-lhes dor. Tal gera um equilíbrio falso, mas funcional, até ao ponto de não retorno que é a fuga de Kate.

E se até então o equilíbrio se fazia de mentiras pensadas para proteger o outro, e de indecisões com vista a manter a paz, a partir da fuga de Kate o triângulo quebra-se de vez. Os protagonistas passam então a pensar apenas em si. Pete, está disposto a receber Kate, ainda que esta não o ame, para manter as aparências, e dar uma mãe à sua filha. Kate, está disposta a viver como amante ilícita de Philip, escondida se tiver de ser. Quanto a Pete, vê pela primeira vez a sua carreira à frente de tudo o resto, e recusa-se a assumir a relação com aquela que socialmente lhe é inferior.

Esse novo desiquilíbrio provocará a derrocada final, quase anunciada em jeito de tragédia grega. Esta inicia-se numa tentativa de suicídio, e termina na exposição pública de Philip, agora feito juiz, mas aos nossos olhos réu.

Com todos estes condimentos, a história é uma guerra psicológica tão densa e tortuosa quanto a alma humana, que Hitchcock filma com dramatismo (o uso dos grandes planos é por vezes sufocante). “Pobre Pete!” é um filme de culpas, e da incapacidade de fazer face ao peso da sociedade, fazendo do homem um ser pequeno, quando comparado com o meio em que se insere.

Destaque para a interpretação da actriz alemã Anny Ondra, brilhante na composição de Kate, e de toda a sua dualidade, desde uma jovem, e inocentemente provocadora, até à transportadora de uma culpa, dor e desejo que são maiores que ela. Já em 1929 Hitchcok conseguia a sua loura ambivalente, que procuraria reencontrar em quase todos os seus filmes seguintes.

Produção:

Título original: The Manxman; Produção: British International Pictures (BIP); País: Reino Unido; Ano: 1929; Duração: 77 minutos; Distribuição: Wardour Films (Reino Unido), Sono Art-World Wide Pictures (EUA); Estreia: 21 de Janeiro de 1929 (Reino Unido), 5 de Agosto de 1929 (Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: John Maxwell [não creditado]; Argumento: Eliot Stannard, [adaptado do livro de Hal Caine]; Fotografia: Jack E. Cox [preto e branco]; Direcção Artística: C. Wilfred Arnold; Assistente de Realização: Frank Mills; Montagem: Emile de Ruelle.

Elenco:

Carl Brisson (Pete Quilliam), Malcolm Keen (Philip Christian), Anny Ondra (Kate Cregeen), Randle Ayrton (Caesar Cregeen), Clare Greet (Mrs. Cregeen).

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