Etiquetas

, , , , , , , , ,

The Oblong BoxSinopse:

Depois de acontecimentos terríveis vividos nas suas propriedades em África, o aristocrata Julian Markham (Vincent Price) mantém o seu desfigurado irmão Edward (Alister Williamson) em cativeiro, devido à loucura que faz dele um perigo. Mas com a cumplicidade de alguns amigos, Sir Edward consegue simular a própria morte, enganando o irmão, e sendo levado para o cemítério num enorme caixão, de onde os amigos e deverão retirar. Só que nem tudo se passa como o desejado e Sir Edward é traído, vindo a acordar em casa do médico Dr. Newhartt (Christopher Lee), que rouba corpos para experiências médicas. Em casa de Newhartt, e com o rosto coberto por um capuz vermelho, Sir Edward prepara a vingança sobre todos os que o trairam.

Análise:

Depois do relativo sucesso alcançado com o filme “Witchfinder General” a AIP via um segundo fôlego nos filmes de terror interpretados por Vincent Price, ligados a histórias de Edgar Allan Poe (se bem que nem sempre baseados nelas). Este segundo fôlego ganhava forma na Inglaterra, e originava o filme “The Oblong Box”, de novo com Price e com a actriz Hilary Dwyer. Foi também o primeiro filme a integrar em simultâneo Vincent Price e Christopher Lee, embora os dois contracenassem apenas por breves segundos numa única cena.

Desta vez a realização passava a Gordon Hessler, numa produção em que a AIP contava apenas consigo, sem parceria inglesa, e depois de Michael Reeves ter estado envolvido na pré-produção. Hessler, nascido na Inglaterra, mas com carreira nos Estados Unidos, era essencialmente conhecido como realizador de televisão, por exemplo na popular série “The Alfred Hitchcock Hour”. Sendo contratado como um homem capaz de cumprir o programa delineado pela produtora, Hessler continuaria a sua carreira no terror. “The Oblong Box” revelou-se como o primeiro de três filmes ingleses de terror de Hessler para a AIP, protagonizados por Vincent Price.

Um pouco no seguimento do que a Hammer já experimentara com alguns dos seus filmes, “The Oblong Box” lida com as consequências do colonialismo inglês, de uma forma bastante alegórica. Neste caso trata-se do uso da feitiçaria como vingança sobre os abusos dos colonialistas brancos na África negra. O resultado é a tortura, que leva ao desfiguramento, e loucura de um dos irmãos Markham, Edward (Alister Williamson), fazendo o outro, Julian (Vincent Price) abandonar África, mantendo Edward em cativeiro, na mansão familiar, para sempre assombrada pelas memórias do passado.

Filmado tanto em cenários naturais como em estúdio, o filme conta com a típica paisagem inglesa e as mansões aristocráticas do século XIX como pano de fundo para o gótico então em voga no cinema de terror britânico. Embora o título seja retirado de um conto de Edgar Allan Poe, filme e conto pouco mais têm em comum que o caixão que lhes dá o nome. Enquanto o conto se debruça sobre a dedicação de um homem a uma caixa que transporta num navio, para no final descobrirmos o seu macabro conteúdo, no filme o caixão é engenho usado numa curta passagem de uma história bem diferente.

De facto, a história do filme de Gordon Hessler desenvolve-se em torno da sinistra tortura desferida sobre Edward, um dos irmãos Markham, que fazem dele um louco desfigurado, que tem que permanecer fechado e algemado aos cuidados do irmão Julian. Tal é apenas pretexto para que Edward vá tornar-se um assassino, espalhando o pânico, encapuçado de vermelho, e cujo rosto desfigurado, é sempre escondido do espectador.

Para conseguir essa oclusão, parte do filme é visto dos olhos de Edward. Assim sempre que alguém lhe fala (ou grita de medo ao vê-lo), é pelos olhos de Edward que observamos. Esse uso da câmara subjectiva, evocativo do filme “O Prisioneiro do Passado” (Dark Passage, 1947), de David Goodis, e com Humphrey Bogart, é aqui um artifício que tem por objectivo, não só criar tensão, mas também levar-nos a temer estarmos na presença de um ser de aparência monstruosa. Na verdade, embora com um bom trabalho de maquilhagem, pouco há na figura de Alister Williamson que crie horror no espectador.

Vincent Price lidera, mais uma vez, o elenco, aqui voltando ao seu registo de homem torturado por um passado que teima em não o deixar ser feliz. Neste caso o passado é o próprio irmão, cuja existência e condição são um testemunho de pecados passados, de prepotência e malvadez exercidos sobre os nativos africanos. O passado volta não só na forma da libertação e vingança de Edward, como na presença de um feiticeiro africano.

O enredo tem visíveis falhas, sobretudo pelo subaproveitamento dos temas, e confusão de ideias, que o levam a misturar o estado de culpa de Julian com um monstruoso assassino, e um mistério de troca de identidades com vinganças que roçam o voodoo. Também subaproveitada é a presença de Christopher Lee. Sendo então uma figura de referência no terror inglês, um filme que ostentasse o seu nome ao lado do de Vincent Price parecia ser sinónimo de duelos carismáticos, mas Lee tem um papel menor, sem carisma, e (à excepção de uma breve frase) sem interacção com Price. De sobra são os cadáveres, e o uso exagerado de um sangue mais vermelho que nunca.

Inicialmente Vincent Price iria desempenhar os papéis dos dois irmãos. O uso da câmara subjectiva, negando-nos a visão do rosto de Edward até ao final, e o mistério da troca de identidades estaria assim talvez mais justificado. Por fim optou-se por trazer Alister Williamson para a produção, embora a sua voz tivesse sido dobrada, e apenas lhe vejamos o rosto, brevemente, no final.

Produção:

Título original: The Oblong Box [The Conqueror Worm, nos EUA]; Produção: American International Productions; Produtor Executivo: Louis M. Heyward; País: Reino Unido; Ano: 1969; Duração: 96 minutos; Distribuição: American International Pictures (AIP) (EUA); Estreia: 11 de Junho de 1969 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Gordon Hessler; Produção: Gordon Hessler; Argumento: Lawrence Huntington [a partir do conto homónimo de Edgar Allan Poe]; Diálogos Adicionais: Christopher Wicking; Fotografia: John Coquillon [filmado em Eastmancolor]; Montagem: Max Benedict; Música: Harry Robertson; Direcção de Orquestra: Philip Martell; Direcção Artística: George Provis; Produtor Associado: Pat Green; Director de Produção: Bryan Coates; Figurinos: Kay Gilbert; Caracterização: Jimmy Evans; Cenários: Terence Morgan.

Elenco:

Vincent Price (Julian Markham), Christopher Lee (Dr. Newhartt), Rupert Davies (Kemp), Uta Levka (Heidi), Sally Geeson (Sally), Peter Arne (Trench), Alister Williamson (Edward Markham), Hilary Heath [como Hilary Dwyer] (Elizabeth), Maxwell Shaw (Hackett), Carl Rigg (Norton), Harry Baird (N’Galo), Godfrey James (Weller), James Mellor (Holt), Ivor Dean (Hawthorne), Danny Daniels (Feiticeiro), John Barrie (Franklin), Michael Balfour (Ruddock), Hira Talfrey (Martha), John Wentworth (Parson), Betty Woolfe (Mrs. Hopkins), Martin Terry (Marinheiro), Anne Clune (Prostituta), Jackie Noble (Prostituta), Ann Barrass (Prostituta), Jan Rossini (Prostituta), Zeph Gladstone (Rapariga de Trench), Tara Fernando (Bailarina Cigana), Tony Thawnton (Homem na Taverna), Anthony Bailey (Talbot), Richard Cornish (Groom), Colin Jeavons (Doctor), Andreas Malandrinos (Barão), Hedgar Wallace (Major), Martin Wyldeck (Polícia), Oh! Ogunde Dancers (Africanos).