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The RingAinda em 1927, após a estreia de “Easy Virtue”, Alfred Hitchcock deixava a Gainsborough Pictures de Michael Balton, a empresa que o lançara no cinema, e os Isllington Studios. O contrato com a British International Pictures, situada nos Elstree Studios, era mais apelativo, e garantia a Hitchcock melhores condições técnicas. O primeiro filme para o seu novo empregador foi “O Ringue de Boxe”, por sinal o único em que Hitchcock assinou o argumento. Como actores tinha a seu lado Carl Brisson, Lillian Hall-Davis e Ian Hunter, para um triângulo amoroso filmado à sua maneira peculiar.

Sinopse:

Por entre as barracas de uma feira, um ringue de boxe faz o chamamento de voluntários que queiram lutar com One Round Jack (Carl Brisson), um lutador que não deixa ninguém passar do primeiro round. Quando este é derrotado por Bob Corby (Ian Hunter) um pugilista profissional, Jack é convidado pelo agente de Bob a entrar no circuito profissional, para ganhar mais dinheiro. Jack vê nisso uma oportunidade para casar com a mulher que ama (Lillian Hall-Davis), a qual acede, embora se sinta dividida com os avanços de Bob Corby. Jack vai aos poucos aperceber-se dessa rivalidade nascente, e para ele a luta do ringue passa a ser mais que um desporto, um desafio a superar para provar de que merece a mulher que ama.

Análise:

Como seu primeiro filme para a British International Pictures (BPI), Alfred Hitchcock escolheu uma história de que foi ele próprio o argumentista, fugindo a adaptações de peças de teatro que resultaram em “Downhill” e “Easy Virtue”, dois filmes de que o realizador não gostou. O tema era um triângulo amoroso (tema a que Hitchcock voltaria muitas vezes), visto do lado da lealdade, e do orgulho próprio de um homem, o pugilista Jack Sander, conhecido como ‘One-Round’ Jack (Carl Brisson).

Embora não seja uma história criminal nem de suspense, Hitchcock considerou este o segundo verdadeiro Hitchcock Picture (após “O Hóspede”). Nele Hitchcock pôde experimentar com novas técnicas narrativas, sempre no intuito de usar o mínimo de inter-títulos. Cite-se como exemplos o mostrar dos números de round para percebermos que Jack estava num combate mais difícil que o habitual; a evolução dos cartazes promocionais como informação da carreira de Jack; e as alucinações de Jack quanto ao que via a sua mulher fazer, para nos mostrar a extensão do seu ciúme.

A par do lado visual, Hitchcock continuava a explorar os temas que lhe eram caros, como a percepção subjectiva, a lealdade e as situações que colocam um homem como centro de atenções para a sociedade (repare-se o número de vezes que é dada importância ao olhar dos personagens secundários).

Se a história pode ser descrita como um simples triângulo amoroso, vai de facto além disso. Não é tanto a lealdade da rapariga (Lillian Hall-Davis) que está em causa, mas sim o modo como ela é percebida. Jack entende aos poucos que tem um rival, o galante e campeão Bob Corby (Ian Hunter), e a partir de então há um perfeito paralelismo entre o boxe e o amor pela sua esposa. Para Jack, enquanto não vencer Bob no ringue, não é merecedor da mulher que ama. E mesmo que esta nunca lhe seja infiel, na cabeça de Jack, ele só a sente sua depois de ser também um campeão.

A esta ideia, Hitchcock junta outra, de paralelos bíblicos, em que o pecado original é encenado, com a feira como jardim do paraíso, e Bob como a tentadora serpente que arrasta Jack e a noiva para o mundo exterior. Por isso a prenda de Bob à rapariga é uma bracelete em forma de serpente, a qual lhe cai do braço, quando na presença de Jack, que a usa para simular uma aliança ao propor casamento à rapariga. Afinal em inglês “Ring” tanto significa o “ringue de boxe”, como “aliança”. O paralelismo prolonga-se na forma com a rapariga tenta esconder a bracelete de Jack, como ao deitá-la fora após o triunfo final (ele próprio obtido sob inspiração desse mesmo amor).

Hitchcock, satisfeito com as suas soluções narrativas, revelou ter tido o prazer de ver os espectadores aplaudir o filme na estreia, algo que nunca lhe tinha acontecido. Este seria o seu terceiro filme com o sul-africano Ian Hunter (um actor que mais tarde teria uma longa carreira em Hollywood), e o primeiro de dois com dinamarquês Carl Brisson.

Produção:

Título original: The Ring; Produção: British International Pictures (BIP); País: Reino Unido; Ano: 1927; Duração: 90 minutos; Distribuição: Wardour Films (Reino Unido); Estreia: 1 de Outubro de 1927 (Reino Unido), 26 de Fevereiro de 1982 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: John Maxwell [não creditado]; Argumento: Alfred Hitchcock, Alma Reville [não creditada], Eliot Stannard [não creditado]; Fotografia: Jack E. Cox [preto e branco]; Assistente de Realização: Frank Mills; Direcção Artística: C.W. Arnold.

Elenco:

Carl Brisson (‘One-Round’ Jack Sander), Lillian Hall-Davis (A Rapariga), Ian Hunter (Bob Corby), Forrester Harvey (O Promotor), Harry Terry (O Apresentador), Gordon Harker (Treinador de Jack).

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