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Easy VirtueEm 1927 Alfred Hitchcock realizava a sua quinta e última longa-metragem para para a Gainsborough Pictures de Michael Balcon. A fonte era novamente o teatro, desta vez através de uma peça de Noël Coward. Hitchcock reforçava assim a sua propensão para ir à literatura ou teatro buscar inspiração para os argumentos dos seus filmes, algo que perduraria durante toda a sua carreira. Consigo mantinha-se o argumentista Eliot Stannard, presente desde o seu primeiro filme. O tema era agora o da reputação feminina sob o peso das convenções sociais, algo a que Hitchcock voltaria mais vezes, aqui interpretado por Isabel Jeans.

Sinopse:

Numa sala de tribunal assistimos ao julgamento do caso que opõe o casal Filton. Larita (Isabel Jeans) é acusada pelo marido (Franklin Dyall) de conduta incorrecta, com eventos que testemunhamos em forma de flashbacks. O tribunal decide dar o divórcio pedido pelo Sr. Filton, e Larita sai com a reputação estragada. Recuperando na França, Larita conhece John (Robin Irvine), que se apaixona por ela sem querer conhecer o seu passado. Mas uma vez casados e regressados a Inglaterra, o casal vai conhecer o peso da sociedade, quando se descobre quem Larita é, e os escândalos que traz consigo.

Análise:

“Easy Virtue” é mais um filme da fase inicial de Alfred Hitchcock que este consideraria como desinteressante. A crítica em geral tende a classificá-lo como um filme menor, embora nele estejam já algumas das marcas características do mestre inglês.

A partir de uma peça do célebre dramaturgo Noël Coward, Alfred Hitchcock e Eliot Stannard compuseram uma história em que a reputação de uma mulher é o fulcro das motivações e acontecimentos. Tal pode parecer hoje um pouco datado, dada a ingenuidade dos factos que nos são mostrados, mas se nos lembrarmos que o filme é de 1927, lidando com uma sociedade conservadora e fechada sobre si mesma, compreendemos melhor o porquê da importância de uma tal reputação.

Larita Filton (Isabel Jeans) é o centro da história, a pessoa cujas acções motivam a tal reputação, e aquela cuja vida seguimos. É nesse sentido uma personagem trágica e impotente perante o seu destino, em jeito de melodrama, como raras vezes Hitchcock filmaria. Com um marido bêbedo que a maltratava (Franklin Dyall), Larita vai procurar o conforto de um amante (Eric Bransby Williams), provocando um confronto entre os dois, que leva ao ferimento de Filton e ao suicídio do amante, que ainda deixa a sua herança a Larita.

O filme destaca-se por uma série de artifícios com que Hitchcock então procurava inovar na forma de contar histórias por imagens. São exemplos o início e final, ambos com um grande plano da peruca do juiz; o olhar desfocado do juiz, mostrando o seu desinteresse, apenas focado quando olhava pelo monóculo; o monóculo oscilante, marcando o seu aborrecimento, e comparado ao pêndulo de um relógio; e muitas outros que se lhe seguem. Interessante é ainda o modo como a história do casal Filton nos é mostrada através de uma série flashbacks que se intercalam com os depoimentos no tribunal, dos quais poucas palavras nos são transmitidas.

Um pouco como o fizera em Downhill, Hitchcock alterna exteriores luminosos, sinónimos de alegria e optmimismo, com interiores tétricos e opressivos (o tribunal, o estúdio e a casa dos Whittaker), onde toda a estética e jogo de luz e sombra é evocativo do Expressionismo alemão. Veja-se por exemplo as várias portas e arcos em ogiva que lembram “A Morte Cansada” (Der Müde Tod, 1921) de Fritz Lang, então o filme preferido de Hitchcock.

A própria temática é curiosamente premonitória da carreira do realizador inglês. Em primeiro lugar temos a própria ideia da reputação feminina, gerando olhares de desconfiança que a impedem de viver a sua vida. Tal será sem dúvida o tema principal do seu filme “Difamação” (Notorious, 1946). Em torno deste tema, o mais geral tema da culpa, e do preconceito social associado a ela, manietando a protagonista, lembrando-nos o quanto somos vítimas de uma sociedade que nos julga (o filme começa e termina num tribunal, que é mais que tudo um julgamento social). Por fim, temos a dominadora figura da mãe (Violet Farebrother), perante um filho fraco (Robin Irvine) que ela manipula de modo rígido e implacável, outro tema bem hitchcockiano.

Embora com interessantes soluções narrativas, e um curioso olhar sobre alguns temas que marcariam a carreira de Hitchcock, o filme não deixa de parecer demasiado longo, forçado, e por vezes inconsequente, por isso mesmo longe do melhor que Hitchcock teria para nos oferecer.

A mesma história de Noël Coward seria filmada mais tarde por Stephan Elliott como “Virtude Fácil” (Easy Virtue, 2008) com Jessica Biel no principal papel, tendo de melodrama passado a comédia romântica.

Produção:

Título original: Easy Virtue; Produção: Gainsborough Pictures; País: Reino Unido; Ano: 1927; Duração: 85 minutos; Distribuição: Woolf & Freedman Film Service; Estreia: Agosto de 1927 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Michael Balcon, C.M. Wolf; Argumento: Eliot Stannard [adaptado da peça de Noël Coward]; Fotografia: Claude L. McDonnell [preto e branco]; Direcção Artística: Clifford Pember; Assistente de Realização: Frank Mills; Montagem: Ivor Montagu [não creditado].

Elenco:

Isabel Jeans (Larita Filton), Franklin Dyall (Marido de Larita), Eric Bransby Williams (O Cúmplice), Ian Hunter (O Advogado de Acusação), Robin Irvine (John Whittaker), Violet Farebrother (Mãe de John), Frank Elliott (Pai de John), Dacia Deane (Irmã mais velha de John), Dorothy Boyd (Irmã mais nova de John), Enid Stamp-Taylor (Sarah).