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DownhillContinuando na Gainsborough Pictures de Michael Balton, Alfred Hitchcock realizava a sua quarta longa-metragem, uma história dramática de lealdades e decadência. Novamente com Ivor Novello (uma estrela do cinema inglês de então) no principal papel, o argumento era do seu habitual colaborador, Eliot Stannard, segundo uma peça do próprio Ivor Novello que teve uma vida curta no West End.

Sinopse:

Num colégio interno da alta sociedade, dois amigos universitários, Roddy Berwick (Ivor Novello) e Tim Wakely (Robin Irvine), cortejam a mesma rapariga, fazendo votos para que nada destrua a sua amizade. Mas quando esta vem à escola para acusar Roddy de a ter engravidado, este é expulso do colégio perante a impassividade do amigo. Roddy está inocente, mas decide proteger o amigo Tim, que vem de uma família mais pobre que a sua. Em casa o pai de Roddy expulsa-o, e Roddy acaba a trabalhar no teatro, onde após receber uma herança, casa com a actriz principal, Julia (Isabel Jeans). Mas esta apenas lhe quer gastar o dinheiro, e abandona-o depois disso, deixando-o afundar-se mais numa vida que Roddy já não controla.

Análise:

Após o sucesso de “O Hóspede”, o filme seguinte de Hitchcock falhou em corresponder às expectativas criadas. A partir de uma peça medíocre de Constance Collier e Ivor Novello, sendo este último novamente protagonista no filme, Hitchcock procurou trazer ao ecrã, um drama de culpa, deslealdade e decadência humana.

Na verdade, embora o filme parta de uma premissa desde logo divulgada como a história de uma lealdade entre dois amigos, traída por um, mantida pelo outro, cedo o filme parece esquecer esse ponto de partida.

Após um acto inicial passado num colégio, onde se filma a alegria da juventude, e que tem como finalidade mostrar-nos porque Roddy Berwick (Ivor Novello) caiu em desgraça, o filme torna-se simplesmente na história de um homem e das suas desventuras. Como quadros muito separados, vemos o protagonista, primeiro a trabalhar num teatro, a receber uma herança e a casar com a diva que amava em segredo, para ver-se traído por ela, e por fim indo para França onde, como gigolo, dança com senhoras ricas por dinheiro, para, após um estado febril de depressão, regressar a casa onde aqueles que o exulsaram o recebem de braços abertos. A história é assim pouco fluida, rumando quase sem objectivo, terminando de modo não anunciado e demasiado simplista, como quem precisa de encontrar um ponto final a todo o custo.

Ainda com alguns toques visuais evocativos do Expressionismo Alemão (principalmente nas cenas de interiores, na fase mais introspectiva da decadência de Roddy), o filme tem já um brilho em muitas cenas que mostra um Hitchcock a dominar a técnica americana de filmar. Nota-se também um cuidado em evitar os intertítulos, que são neste filme por vezes muito escassos. Voltam ainda as passagens simbólicas (como as várias descidas de Roddy, na escada rolante, e o elevador), o procurar dos grandes planos. Por fim destaque-se a tentativa de filmar sonhos e alucinações, com sobreposição de imagens de objectos giratórios como discos ou relógios. Mas no geral o filme é bastante linear e decepcionante.

O próprio Hitchcock diria mais tarde não considerar que o filme tivesse algo de positivo, achando-o demasiado disjunto, e baseado numa peça francamente má. Destaque-se, no entanto, novamente, a coragem de Hitchcock em lidar com temas como a gravidez não programada, a prostituição masculina, e a camaradagem dos jogadores de rugby nos balneários, que levam algumas pessoas a ver indícios de homossexualidade no filme.

Produção:

Título original: Downhill [nos EUA: When Boys Leave Home]; Produção: Gainsborough Pictures; País: Reino Unido; Ano: 1926; Duração: 82 minutos; Distribuição: Woolf & Freedman Film Service (Reino Unido); Estreia: Setembro de 1926 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: C.M. Wolf, Michael Balcon; Argumento: Eliot Stannard [a partir de uma peça de Constance Collier e Ivor Novello]; Fotografia: Claude L. McDonnell (preto e branco); Direcção Artística: Bertram Evans; Assistente de Realização: Frank Mills; Montagem: Lionel Rich.

Elenco:

Ivor Novello (Roddy Berwick), Ben Webster (Dr. Dowson), Norman McKinnel (Sir Thomas Berwick), Robin Irvine (Tim Wakely), Jerrold Robertshaw (Reverendo Henry Wakeley), Sybil Rhoda (Sybil Wakeley), Annette Benson (Mabel), Lilian Braithwaite (Lady Berwick), Isabel Jeans (Julia Fotheringale), Ian Hunter (Archie), Hannah Jones (A Costureira), Barbara Gott (Madame Michet), Violet Farebrother (a Poetiza), Alf Goddard (O Marinheiro).