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The LodgerDepois do filme perdido, de que hoje pouco se sabe, “The Mountain Eagle”, Alfred Hitchcock realizou “O Hóspede”. Trata-se, segundo o próprio, do primeiro “Hitchcock Picture”, onde o realizador consegue já trabalhar uma história de suspense e mistério, inspirada no medo de Jack o Estripador. Era a continuação do seu trabalho para a Gainsborough Pictures de Michael Balcon, que lhe garantiria o seu primeiro sucesso comercial. Esse sucesso originaria quatro remakes da mesma história, a primeira das quais com o mesmo protagonista, a então estrela Ivor Novello.

Sinopse:

Na Londres dos anos 20 no XX, um assassino vai matando, a cada terça-feira, uma rapariga loura, deixando um papel com um símbolo triangular desenhado, e o nome “Avenger” (vingador). Nessa altura, um estranho (Ivor Novello) hospeda-se na casa onde mora Daisy (June), uma bonita loura, cortejada por um detective da polícia (Malcolm Keen). Quando, durante as noites das terças-feiras, o hóspede sai às escondidas, voltando muito tarde, a senhoria (Marie Ault) começa a temer ser ele o perigoso Avenger, temendo pela sua filha Daisy. Aos poucos as suspeitas aumentam, e nem o amor de Daisy pelo estranho parece convencer a polícia de que ele não seja o assassino.

Análise:

Continuando a ter o apoio de Michael Balcon na Gainsborough Pictures, Alfred Hitchcock realizou em 1926 aquele que seria o primeiro filme de que o realizador se orgulharia durante a sua carreira. Ainda no território do cinema mudo, Hitchcock filmou uma história baseada numa peça de teatro adaptada de um livro de Marie Belloc Lowndes, que apontava para um tema que se tornaria recorrente na carreira do mestre inglês: o falso culpado.

Em “O Hóspede”, Hitchcock filma a Londres nocturna, de cabarets e da loucura dos anos 20. É também a Londres fria e húmida de nevoeiro e crimes, e do medo do fantasma de Jack o Estripador, que lançava ainda o terror, décadas depois do seu desaparecimento. É por isso o primeiro filme de mistério e suspense de Hitchcock, os géneros que para sempre o caracterizaram.

A história fala-nos de um assassino em série que tem a particularidade de só assassinar raparigas louras, e sempre às terças-feiras. Mas o que desde logo faz destacar o filme de Hitchcock, é que nele nunca se procura desvendar o crime (no final nem vemos o criminoso), ao invés, é-nos dada a ver a presença de um homem (Ivor Novello), que pode ou não ser esse assassino.

As suspeitas são lançadas em vários pequenos detalhes, a sua chegada de rosto coberto, a sua repulsa por fotos de mulheres louras, as escapadelas nocturnas, o seu modo pouco sociável, o seu fascínio pela loura Daisy (June), etc. Vemo-lo então pelos olhos da senhoria (Marie Ault), e acompanhamos as suspeitas desta. Como que guiados pelos pensamentos da mãe de Daisy, tudo o que seria banal se torna suspeito aos nossos olhos.

E assim, quase sem que aconteça nada do início ao fim (já que sabemos dos acontecimentos por leituras de jornais, e informações vindas de fora), vamos sentindo o crescer da suspeita, e do clima de tensão, numa história que parece ter de terminar em tragédia. Tememos por Daisy, que ao enamorar-se do hóspede se potencia como sua vítima. Em simultâneo queremos que esse amor o redima, e com ela queremos acreditar que ele não é criminoso. E por fim assistimos ao apertar do cerco por parte do polícia (Malcolm Keen), que parece mais interessado em remover um obstáculo às sua pretensões amorosas, que em resolver um crime.

São muitos os elos entre este filme e a filmografia de Hitchcock. Regressam as descidas em espiral (de notar a escada da casade Daisy, filmada de cima) como em “The Pleasure Garden” (o tal motivo de “Vertigo”). Temos o sempre perverso tema da loura como fonte e fim de qualquer história (de notar a piada da rapariga que usa madeixas negras para enganar o assassino). Temos mais uma vez leves toques de preversão, no espiar do corpo feminino, e nas intimidades de bastidores. E temos simbolismos velados como a captura do hóspede, colhido das grades como Cristo crucificado, em algemas (que Hitchcock confessava terem para si algo de fetichismo sexual).

E como dito, temos principalmente o tema do falso culpado, tema caro a Hitchcock, que dedicou muitos dos seus filmes a filmar histórias em que alguém tinha de lutar para não ser acusado de algo que não fizera. Dê-se como simples exemplo os filmes: “Confesso” (I Confess, 1953), “Chamada Para a Morte” (Dial M for Murder, 1954), “O Falso Culpado” (The Wrong Man, 1956) e “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959). Hitchcock assumira sempre ter mais medo dos polícias que dos ladrões. E este filme é disso prova.

Ainda a definir o seu estilo, deve-se notar a sua forma de contar histórias sem palavras. Exemplo notável é a sequência de abertura, em que vemos uma mulher que grita, pessoas que a encontram morta, a marca do assassino, o repórter que telefona, a redacção que recebe a história por telex, as máquinas que a imprimem, os ardinas que distribuem o jornal, até chegarmos à casa dos protagonistas que lêem e discutem os acontecimentos. Note-se ainda a riqueza da acção dentro da casa, quando várias coisas se passam em simultâneo em diferentes compartimentos, onde, sem sons que nos guiem, detectamos movimentos pelo oscilar de candeeiros.

Destaque-se ainda a forte influência expressionista deste filme, com os ângulos de filmagem pouco convencionais a dar-nos perspectivas angulares da casa, as várias sombras atiradas sobre as paredes por corrimãos de escadas, e claro, toda a sequência em que a senhoria espia os movimentos do hóspede, num quarto que parece retirado de “O Gabinete do Dr. Caligari” (Das Kabinett des Doktor Caligari, 1920) de Robert Wiene. Tudo num filme que, pela escuridão que nos traz, parece ser filmado de dentro dos recantos mais tortuosos da alma humana à boa maneira expressionista.

Ainda com alguma ingenuidade, Hitchcock definia já algumas das regras que o guiariam, e destacava-se no modo inteligente de gerir a tensão do espectador, mesmo quando não havia nada para acontecer. O filme, embora ainda com estreia atrasada, e problemas na montagem devido às intrigas de Graham Cutts, veio a ser um sucesso, dando margem de manobra a Hitchcock para os seus filmes seguintes.

Note-se por fim a curiosidade do uso dos neons, a marcar os momentos, chamando-nos atenção para o perigo e para o papel da protagonista. Talvez um dos primeiros usos de neons em cinema, eles que se tornariam parte da linguagem visual do Film Noir cerca de 20 anos depois.

O filme teve vários remakes, a começar por “The Lodge” (1932) de Maurice Elvey, com o mesmo Ivor Novello. Seguiram-se “Jack, o Estripador” (The Lodger, 1944) de John Brahm; “Jack, o Estripador” (Man in the Attic, 1953) de Hugo Fregonese; e “O Hóspede Suspeito” (The Lodger, 2009) de David Ondaatje.

Produção:

Título original: The Lodger: A Story of the London Fog; Produção: Gainsborough Pictures / Piccadilly Pictures Ltd. (Carlyle Blackwell Productions); País: Reino Unido; Ano: 1926; Duração: 70 minutos; Distribuição: Woolf & Freedman Film Service (Reino Unido), AmerAnglo (EUA), Artlee Pictures (EUA); Estreia: Setembro de 1926 (Inglaterra).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Michael Balcon, Carlyle Blackwell; Argumento: Eliot Stannard [a partir da peça “Who Is He?” adaptada do livro de Marie Belloc Lowndes]; Fotografia: Gaetano di Ventimiglia, Hal Young [não creditado] (preto e branco); Assistente de Realização: Alma Reville; Direcção Artística: C. Wilfred Arnold, Bertram Evans; Montagem: Ivor Montagu.

Elenco:

Ivor Novello (O Hóspede), Marie Ault (A Senhoria), Arthur Chesney (O Marido), June (Daisy, A Filha), Malcolm Keen (Joe, um Detective da Polícia).

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