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The Pleasure Garden“The Pleasure Garden” foi o primeiro filme de Hitchcock a chegar até nós, depois deste ter iniciado o projecto inacabado (e entretanto perdido) “Number 13”. Surgido de uma oportunidade concedida pelo produtor da Gainsborough Pictures, e então figura proeminente do panorama cinematográfico britânico, Michael Balton, o filme foi rodado na Alemanha, nos estúdos da UFA. Hitchcock, então argumentista, director artístico e assistente de realização, contou já com a colaboração da sua futura esposa Alma Reville, e com um elenco internacional, onde pontificavam estrelas americanas, algo então em voga no cinema europeu.

Sinopse:

Jill (Carmelita Geraghty) vem para a cidade com o sonho de dançar no teatro musical The Pleasure Garden, onde trabalha a sua amiga Patsy (Virginia Valli). É contratada e cedo se torna atracção, e objecto de desejo de muitos homens, incluíndo o playboy Príncipe Ivan (Karl Falkenberg). Embora noiva de Hugh (John Stuart), que trabalha em plantações além-mar, Jill deixa-se seduzir pela riqueza de Ivan.

Em simultâneo Patsy, que tenta lembrar Jill das suas promessas a Hugh, apaixona-se pelo amigo deste, Levett (Miles Mander). Após um casamento lua de mel repentinos, Levett viaja para as suas plantações, onde Patsy mais tarde o vai encontrar a viver com uma nativa. Na luta que se segue, Hugh salva Patsy, e descobre que fora traído por Jill. Patsy e Hugh percebem então que não merecem as pessoas a quem se dedicaram, mas sim um ao outro.

Análise:

“The Pleasure Garden” é a primeira longa-metragem de Alfred Hitchcock, que chegou até nós, tendo-se perdido o seu anterior filme inacabado “Number 13”. Num momento em que Hitchcock trabalhava para a Gainsborough Pictures como argumentista, director artístico e assistente de realização de Graham Cutts, o produtor Michael Balcon decidiu dar-lhe a oportunidade de dirigir um filme.

Tudo se passou após o mais recente filme de Graham Cutts “The Blackguard” (Die Prinzessin und der Geiger, 1925), o qual fora rodado na Alemanha. Balcon, associado ao célebre produtor alemão Erich Pommer, que dirigia a UFA, mantiveram Hitchcock na Alemanha, onde decorreriam as filmagens. Não é de surpreender que haja alguma influência do Expressionismo Alemão neste filme, o qual conta com um elenco misto de actores alemães e ingleses, estrelas americanas (Virginia Valli e Carmelita Geraghty), e exteriores filmados na Itália.

Este Jardim dos Prazeres, é por um lado uma espécie de jardim do paraíso da felicidade amorosa a que os protagonistas almejam, ao mesmo tempo que o nome do teatro musical onde as duas protagonistas trabalham. As diversas cenas musicais eram então uma constante no cinema britânico, em que o próprio Hitchcock marcaria presença com alguns dos seus trabalhos, e dela saem as duas protagonistas, cuja cumplicidade inicial surgia como uma primeira provocação de Hitchcock.

Ainda longe dos temas mais habituais de Hitchcock, o filme é um olhar um tanto ou quanto inocente sobre relações amorosas. Nele temos a história paralela de dois casais, com algo em comum. Em cada um dos casais uma das partes mostra-se não merecedora da outra. É por um lado Jill (Carmelita Geraghty), que se deixa seduzir pela atenção advinda da sua ascensão profissional, traindo o seu inocente noivo Hugh (John Stuart). É pelo outro lado o melífluo Levett (Miles Mander), que depois de seduzir a pura Patsy (Virginia Valli), e convencê-la a casar consigo, a abandona pela vida mais fácil que tem nas colónias, com as suas concubinas.

Hugh e Patsy, os noivos traídos (cujo primeiro encontro é um literal tropeção), serão, num golpe misericordioso do destino, não só a salvação um do outro, mas também o reencontro do amor, uma vez livres daqueles que não os mereceram. Essa ingenuidade e ode à pureza é personificada na atitude do pequeno cão de Patsy, que nunca gostara de Levett e sempre gostara de Hugh.

É aliás, em pequenas provocações, como o citado tropeção, e nalguns simbolismos, como esse do cão, que o filme oferece alguma originalidade. Nele há já uma óbvia tentativa de Hitchcock em procurar guiar o olhar espectador através dos seus planos estudados, talvez a única imagem de marca do mestre, que se começava já a adivinhar (alguns críticos vêem na abertura numa escada de caracol uma premonição para “Vertigo”).

“The Pleasure Garden” teve um percurso sinuoso, com invejas dentro da Gainsborough Pictures a adiar estreia inglesa. Embora protegido por Michael Balcon, Hitch encontrou a animosidade de Graham Cutts, e o filme, embora estreando na Alemanha em 1925, só em 1926 teve a sua primeira apresentação em Inglaterra. A sua entrada no circuito comercial deu-se em 1927, apenas após o sucesso do seu filme “O Hóspede” (The Lodger: A Story of the London Fog, 1927).

De salientar é ainda o facto de Hitchcock ter como assistente de realização a sua então noiva, Alma Reville, que conhecera na Gainsborough Pictures, e com a qual se casaria no ano seguinte.

Como habitual em filmes do início do século XX, “The Pleasure Garden” passou já por vários restauros resultando em diferentes montagens e durações. A mais notável será porventura a de 2003, que acrescentou ao filme 20 minutos de imagens até então, em parte, desconhecidas.

Produção:

Título original: The Pleasure Garden; Produção: Bavaria Film / Gainsborough Pictures / Münchner Lichtspielkunst AG (Emelka); País: Reino Unido / Alemanha; Ano: 1925; Duração: 58 minutos; Distribuição: Wardour Films (Reino Unido), Aymon Independent (EUA); Estreia: 3 de Novembro de 1925 (Alemanha), 1 de Março de 1026 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Michael Balcon, Erich Pommer; Argumento: Eliot Stannard [a partir de um livro de Oliver Sandys]; Assistente de Realização: Alma Reville; Música Original: Lee Erwin; Fotografia: Gaetano di Ventimiglia (preto e branco); Direcção Artística: Ludwig Reiber.

Elenco:

Virginia Valli (Patsy Brand), Carmelita Geraghty (Jill Cheyne), Miles Mander (Levett), John Stuart (Hugh Fielding), Georg H. Schnell [como George Snell] (Mr. Hamilton), Karl Falkenberg [como C. Falkenberg] C. (Prince Ivan), Ferdinand Martini (Mr. Sidey), Florence Helminger (Mrs. Sidey), Nita Naldi (Nativa).

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