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Sinopse:

Umberto Domenico Ferrari (Carlo Battisti) é um reformado, em protesto contra as míseras reformas dos funcionários públicos, pois a senhoria (Lina Gennari) quer pô-lo fora do seu exíguo quarto, por rendas em atraso. Sem conseguir fazer a reforma esticar o suficiente para comer e pagar o alojamento, com a companhia do seu pequeno cão Flike , e a amizade da jovem e ingénua criada Maria (Maria Pia Casilio), Umberto procura, em vão, formas alternativas de pagar o devido. O desespero e a a falta de fé no mundo que o redeia, levam-no a contemplar soluções drásticas, como a sua própria morte.

Análise:

“Humberto D” é muitas vezes considerado como a última grande obra do Neo-realismo italiano clássico. A partir de um argumento do seu habitual colaborador Cesare Zavattini, Vittorio De Sica filmou uma história de solidão e desespero de um homem perdido numa cidade (e sociedade) na qual não encontra mais nenhum papel nem conforto.

Um pouco à imagem do que acontecera com o seu muito aclamado “Ladrões de Bicicletas”, “Humberto D” é a viagem de um homem por uma cidade. Cidade que é aqui um lugar inóspito e inhumano, que dilacera e não se compadece dos problemas dos cidadãos mais desprivilegiados.

Sem uma referência tão próxima ao pós-guerra, a história de “Humberto D” é por isso mais universal, mostrando-nos um idoso, reformado depois de uma vida de trabalho de funcionalismo público, sem uma reforma que lhe permita viver condignamente. Nesse sentido, a história do idoso Humberto (Carlo Battisti) passa-se na Roma dos anos 50, como se poderia passar em qualquer época a partir daí, em qualquer país desenvolvido. De comum teríamos a mesma pequenez do indivíduo perante um sistema impessoal, e a mesma desvalorização do idoso na frieza da selva urbana, personalizada na fria senhoria Antonia (Lina Gennari).

Nada nos é dito sobre Humberto. Não sabemos se tem ou teve família, nem as escolhas que o levaram até ao ponto em que o filme começa. Sabemos apenas que as suas dívidas crescem, ninguém se compadece dele, e o seu orgulho impede-o de pedir esmola (a cena em que o tenta fazer é das mais comoventes da história do cinema). Conhecemos Humberto pelo modo como se relaciona com os outros. Pelo seu amor ao pequeno Flike, pelo olhar paternal pela criada Maria (Maria Pia Casilio).

Acima de tudo acompanhamos a luta de Humberto nos pequenos acontecimentos que descrevem os seus dias: o protesto frente ao ministério; o recurso à sopa dos pobres; a venda de objectos pessoais para reunir algum dinheiro; a ida para o hospital para poupar alguns dias de refeições; o modo discreto como tenta obter empréstimos de alguns conhecidos; a busca do cão, quando é levado pelos serviços municipais, e a humildade e delicadeza com que trata o próximo.

Numa sucessão de episódios, onde parece que nada acontece, Humberto transporta-nos a um mundo triste, sem ilusão, sem esperança, feito de portas que se fecham, como a idade que passa, a reforma que não aumenta, e a iminência de um despejo. É um mundo cruel, sem valores, no qual Humberto não encontra qualquer conforto, como é evidente na desilusão que são as suas conversas com Maria.

Por essas razões não resta a Humberto senão a resignação final de morrer, algo que vai adiando apenas por pena do seu pequeno cão, cuja morte no canil público lhe parece a única coisa mais cruel que a vida que ambos levam. Com algum sentido poético, De Sica evita essa morte, fazendo com que Flike salve Humberto como antes este salvara o cão. Afinal, numa cidade absurda, sem qualquer calor humano, é apenas a amizade de homem e animal que destoam.

Essa ligação entre o homem e o seu cão (conjuntamente com o despertar final trazido pelo cão), evocam mais uma vez “Ladrões de Bicicletas” (a bofetada do pai no filho é o momento de despertar e reencontro). Não espanta por isso que ambos os filmes terminem de modo aberto, com o caminhar do par para longe de nós, evocando ambos os finais de Chaplin, afinal, pelo olhar social e histórias comoventes, o grande inspirador de ambos os filmes.

Embora De Sica tenha, para alguns, traído um pouco o espírito do Neo-realismo, ao filmar algumas das cenas de exteriores em estúdio (na Cinecittà), mantém, regra geral, o uso de cenários naturais, um olhar distanciado do drama, e o uso de actores não profissionais, como o próprio Carlo Battisti, que ajuda a dar ao filme uma atmosfera liberta de dramatismos encenados. De facto, numa história deveras triste, ao invés de filmar emoções, De Sica, sugere-as como o estado interno de Humberto, cuja rotina acompanhamos de modo quase documental e aparentemente discreto.

Dedicado ao pai do realizador, “Humberto D” foi por isso um dos filmes mais pessoais de Vittorio De Sica, e o seu preferido, bem como de realizadores como Ingmar Bergman. O filme foi nomeado para o Oscar de Melhor Argumento, e ao Grande Prémio do Juri de Cannes. Foi, no entanto, mal recebido em Itália, critacado por apresentar uma imagem negativa do país.

Produção:

Título original: Umberto D.; Produção: Rizzoli Film / Produzione Films Vittorio De Sica / Amato Film; País: Itália; Ano: 1952; Duração: 89 minutos; Distribuição: Dear Film (Itália), Janus Films (EUA); Estreia: 10 de Janeiro de 1952 (Festival de Punta del Este, Uruguai), 20 de Janeiro de 1952 (Itália), 18 de Março de 1953 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Vittorio De Sica; Produção: Giuseppe Amato, Vittorio De Sica, Angelo Rizzoli; História e Argumento: Cezare Zavatini; Música: Alessandro Cicognini; Montagem: Eraldo Da Roma; Fotografia: G. R. Aldo (preto e branco); Design de Produção: Virgilio Marchi; Directores de Produção: Nino Misiano, Roberto Moretti; Assistentes de Realização: Luisa Alessandri, Franco Montemurro.

Elenco:

Carlo Battisti (Umberto Domenico Ferrari), Maria Pia Casilio (Maria, a empregada), Lina Gennari (Antonia Belloni, a senhoria), Ileana Simova (Mulher no quarto de Umberto), Elena Rea (Freira no Hospital), Memmo Carotenuto (O internado no Hospital).

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