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Due Soldi di SperanzaSinopse:

Após cumprir o serviço militar, Antonio (Vincenzo Musolino) regressa a sua casa, em Cusano, uma aldeia campestre nos arredores de Nápoles. Ao chegar apercebe-se de que conseguir um emprego não é fácil, compreendendo o porquê da sua mãe usar métodos menos lícitos para ter comida para as filhas. A situação familiar piora quando uma das irmãs tem um caso com um homem mais velho. Tudo isto faz com que Antonio seja mal visto por Pasquale Artu (Luigi Astarita), o pai de Carmela (Maria Fiore), a rapariga de quem Antonio se enamora.

Seja pelo modo arisco como Antonio e Carmela se dão, ou pelo carácter intempestivo da rapariga, que várias vezes deita a perder os planos de Antonio, a relação parece condenada ao fracasso, até Antonio perceber que é das fraquezas que tem de fazer forças.

Análise:

Renatto Castellani, realizador prolífico entre as décadas de 40 e 60, é principalmente conhecido por aquilo que ficou chamado o Neo-realismo Rosa do cinema italiano. Por outras palavras, os seus filmes, embora assentes na descrição das condições sociais difíceis do seu tempo, e filmados de modo realista, usando actores não profissionais e cenários naturais, apresentam em simultâneo histórias dramatizadas, muitas vezes de teor romântico. São exemplos desta conjugação, a sua trilogia “jovens apaixonados”, composta por “Sob o Céu de Roma” (Sotto il sole di Roma, 1948), “Primavera” (È Primavera…, 1950) e este “Dez Réis de Esperança” (Due Soldi di Speranza, 1952).

Embora marcado pela atmosfera de pobreza e dificuldades características da época em que foi filmado, o filme tem um tom ligeiro, repleto de humor, que desdramatiza a situação, deixando-nos sempre presos às peripécias do par de protagonistas, que se vão sucedendo de modo jocoso e ritmo acelerado.

Assim, temos a situação social, em que vemos os jovens desempregados, a quem são oferecidos apenas trabalhos temporários que não pagam o que eles recebem de subsídios. Temos o drama da mãe de Antonio (Filomena Russo), com várias filhas para criar, não hesitando em roubar uma lebre ou uma galinha, ou em comprar fiado para nunca pagar. Temos a situação, quase de sangue, em que Giulia (Carmela Cirillo) se deixa envolver, sendo forçada a casar com um homem muito mais velho (depois de um confronto familiar pela sua honra, que em vez de sangrento é perfeitamente cómico). E temos essencialmente as tentativas de Antonio (Vincenzo Musolino) de procurar um emprego que lhe permita sonhar com um casamento com a intempestiva Carmela (Maria Fiore).

A luta de Antonio ocupa o maior parte da narrativa, mostrando-nos como, de fracasso em fracasso, o jovem luta para ser aceite como um homem válido aos olhos da sua sociedade. Ajuda os comerciantes locais, para ver a mãe esbanjar o dinheiro nas compras; tenta iniciar uma carreira rodoviária entre Cusano e a estação, para ver os velhos cocheiros deitar tudo a perder; tenta ser ajudante de sacristão, o que perde quando Carmela anuncia que ele é comunista; tenta um emprego na cidade, numa cadeia de cinemas, para ser despedido quando a patroa percebe que ele tem namorada. De uma forma ou de outra, geralmente com resultados cómicos, Antonio acaba sempre sem emprego, e muitas dessas vezes com culpas para Carmela.

A relação entre Antonio e Carmela é, na verdade, aquilo que o filme mais tem de original. Dando-se como cão e gato, raramente assumindo que se querem, os dois vão-se encontrando entre desencontros, quase porque sim. Talvez seja a forma de Castellani dizer que o verdadeiro amor acontece assim, naturalmente, sem necessidade de racionalização ou romantismos poéticos. Antonio e Carmela amam-se porque se sentem atraídos um pelo outro, sem saber porquê. E essa atracção guia os acontecimentos do filme.

Com uma aldeia que tudo julga, no seu conservadorismo e tradição, o único drama do filme é de facto a necessidade de Antonio ascender, para poder merecer Carmela (uma brilhante e inesquecível interpretação de Maria Fiore) aos olhos do pai desta. Embora de facto nada mude na situação de Antonio, mudam as suas convicções e atitudes quando assume que não é de dinheiro que precisa, mas de coragem para enfrentar a vida com aquilo que tem.

Com um elenco de actores não profissionais, e podendo-se-lhe apontar a tentação de precipitar um final feliz onde ele não era previsto, Castellani consegue ainda assim um filme colorido, com interpretações vivas dos dois protagonistas, e um contínuo enredar da história que, meio a brincar, nos dá um retrato muito fiel da vida das sociedades aldeãs da Itália do pós-Guerra.

Embora mal visto por alguns sectores da crítica, “Dez Réis de Esperança” teve um bom acolhimento da parte do público. O filme venceu o Festival de Cannes, em parceria com “Othello” de Orson Welles. Quanto a Renato Castellani, venceu o Nastro d’Argento para melhor realizador.

Produção:

Título original: Due Soldi di Speranza; Produção: Universalcine; País: Itália; Ano: 1952; Duração: 93 minutos; Distribuição: Ente Nazionale Industrie Cinematografiche (ENIC) (Itália), Times Film Corporation (EUA); Estreia: 10 de Abril de 1952 (Itália), 23 de Fevereiro de 1953 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Renato Castellani; Produção: Sandro Ghenzi; História: Renato Castellani, Ettore Maria Margadonna; Argumento: Renato Castellani, Titina De Filippo; Produtor Associado: Antonio Roi; Director de Produção: Giorgio Adriani; Música: Alessandro Cicognini; Fotografia: Arturo Gallea (preto e branco); Montagem: Jolanda Benvenuti; Assistentes de Realização: Giuliano Betti, Gabriele Palmieri, Marie Claire Solle.

Elenco:

Maria Fiore (Carmela Artu), Vincenzo Musolino (Antonio Catalano), Filomena Russo (Mãe de Antonio), Luigi Astarita (Pasquale Artu), Felicità Lettieri [como Felicia Lettieri] (Senhora Artu), Carmela Cirillo (Giulia Catalano), Gina Mascetti (Flora Angelini), Luigi Barone (O Padre), Tommaso Balzamo (Luigi Bellomo), Pasqualina Izza, Anna Raiola (Senhora Bellomo), Alfonso Del Sorbo (Sacristão), Luigi Cutino, Antonio Balzamo, Gioacchino Morrone.