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Il Cammino della SperanzaSinopse:

Em Capodarso, uma aldeia siciliana, os mineiros permanecem teimosamente dento da mina de enxofre há três dias, com risco das próprias vidas, em protesto contra o anúncio do seu encerramento. Só a ideia das famílias que os perderão, os leva a desistir, e subir à superfície. Entretanto, o desconhecido Ciccio (Saro Urzì) chega com uma proposta para levar estes novos desempregados para França, onde o trabalho abunda. Apesar de pedir 20 mil liras por cabeça, Ciccio consegue encher a camioneta com os pobres camponeses que vendem todos os seus pertences. Entre eles vão Saro (Raf Vallone) e os seus três filhos; Barbara (Elena Varzi), desprezada pela família por se ter tornado amante de Vanni (Franco Navarra); o casal Luca (Giuseppe Priolo) e Rosa (Liliana Lattanzi), que casam à pressa na madrugada da partida; entre outros.

Só que à chegada a Roma, Ciccio, que já expedira o dinheiro para lugar a salvo, abandona o grupo aos seus destinos. A partir de então, num país que não conhecem, e olhados com desconfiança por todos, os sicilianos, liderados por Saro, têm de fazer das fraquezas forças, para completar o caminho e manter o sonho de encontrar trabalho em França.

Análise:

Pietro Germi foi um antigo actor, que tornou conhecido internacionalmente como realizador, após alguns filmes aclamados nos anos 1960, como “Divórcio à Italiana” (Divorzio all’Italiana, 1961) e “Senhoras e Cavalheiros” (Signore & Signori, 1966). Iniciando a sua carreira atrás das câmaras em 1945, os seus primeiros filmes são fortemente marcados pela estética neo-realista. É exemplo disso este “O Caminho da Esperança”, que trata das condições sociais de trabalhadores sicilianos, o que seria, aliás, um tema recorrente na obra de Germi.

Nascido na Sicília, Germi usava frequentemente as suas origens como inspiração para as histórias que filmava, o que é mais uma vez o caso. Escrito a partir do romance “Cuori negli Abissi” de Nino Di Maria, Germi, em colaboração com Federico Fellini e Tullio Pinelli, compôs um filme que retrata o desespero de um gupo de pessoas, sem emprego nem meios de subsistência, que vêem na emigração a única possibilidade de sobreviver.

Este tema, bem caro à Itália do pós-guerra é a história de boa parte da Sicília, e de outras regiões desprivilegiadas, geralmente do sul (os “terroni”, à letra, campónios abrutalhados), como são ainda hoje tratados no norte.

A história é por isso um desenrolar de peripécias que se revelam como obstáculos para um grupo de pessoas unidas pelo infortúnio, e que não tem outros meios de luta que não sejam a sua vontade de sobreviver. Esta é-nos mostrada nas diferentes histórias individuais: a necessidade de Saro (Raf Vallone) de dar um futuro melhor aos seus filhos; o casamento recente de Luca (Giuseppe Priolo) e Rosa (Liliana Lattanzi), que passam a noite de núpcias no comboio; a fuga às autoridades do sinistro Vanni (Franco Navarra), arrastando a amante Barbara (Elena Varzi), desprezada pela própria família, etc. Uns mais jovens, outros mais velhos, todos seguem a crença de poder encontrar um futuro melhor.

As situações trágicas surgem devido à inépcia do grupo em movimentar-se num mundo que não seja a sua aldeia. Exemplos são a forma como se deixam enganar às mãos de predadores como Ciccio (Saro Urzì), ou vêem o grupo separar-se em Roma, levando a que, perdidos na grande cidade, o casal Lorenza (Mirella Ciotti) e Antonio (Angelo Grasso) se desencontre, talvez para sempre.

Por tudo isto “O Caminho da Esperança” é um retrato de desespero, de uma luta para sobreviver, renegando origens, e tentando um recomeçar do zero, sem garantias nem salvaguardas. Se no campo colectivo são vários os exemplos, no campo pessoal tal reflecte-se na história de Saro e Barbara cujas circunstâncias os impelem um para o outro, sem romantismos, e quase sem palavras, apenas porque estão presentes, e precisam de contar um com o outro.

Sob a direcção de Germi, o filme segue as fórmulas mais austeras do Neo-realismo, usando cenários naturais, uma iluminação que chega a ser ofuscante, e contando com um elenco maioritariamente não profissional, onde não é de desprezar o contributo das crianças. Germi filma com frieza, não se coibindo de deixar os rostos contar a história (note-se a sequência inicial da espera das mulheres, como estátuas à entrada da mina; ou o confronto final entre Saro e Vanni, visto pelos olhos de Barbara). Sente-se desde o início que este é um povo que não se expressa por palavras, de modo romântico ou poético. Vendo essas palavras como um luxo artificial, são as suas decisões que nos comunicam o seu modo de sentir.

Esse modo rígido é no entanto permeável à esperança, que surge a espaços, como nas canções que servem de incentivo ao grupo, ou nas pequenas vitórias, sempre que uma etapa é alcançada.

Retrato de um momento difícil da história italiana, pleno de desespero e incerteza, “O Caminho da Esperança” é uma história marcante, que despertou o interesse para a obra de Pietro Germi. O filme teve no entanto problemas para obter a sua licença de distribuição, devido à imagem negativa que dava da Itália. Apesar disso, foi premiado com o Urso de Prata no primeiro Festival Internacional de Berlim, tendo ainda sido nomeado para a Palma de Ouro de Cannes.

Produção:

Título original: Il Cammino della Speranza; Produção: Lux Film; País: Itália; Ano: 1950; Duração: 97 minutos; Distribuição: Lux Film (Itália), Lux Film Distributing Corporation (EUA); Estreia: 22 de Novembro de 1950 (Itália), 28 de Abril de 1953 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Pietro Germi; Produção: Luigi Rovere; História: Federico Fellini, Pietro Germi, Tullio Pinelli [a partir do livro “Cuori negli Abissi” de Nino Di Maria]; Argumento: Federico Fellini, Tullio Pinelli; Fotografia: Leonida Barboni (preto e branco); Música: Carlo Rustichelli; Direcção de Orquestra: Fernando Previtali; Design de Produção: Luigi Ricci; Montagem: Rolando Benedetti; Assistente de Realização: Argi Rovelli; Director de Produção: Antonio Musu; Caracterização: Attilio Camarda.

Elenco:

Raf Vallone (Saro Cammarata), Elena Varzi (Barbara Spadaro), Saro Urzì (Ciccio), Franco Navarra (Vanni), Liliana Lattanzi (Rosa), Mirella Ciotti (Lorenza), Saro Arcidiacono (Carmelo, Contabilista), Francesco Tomalillo (Misciu), Paolo Reale (Brasi), Giuseppe Priolo (Luca), Renato Terra (Mommino), Carmela Trovato (Cirmena), Angelo Grasso (Antonio), Assunta Radico (Beatificata), Francesca Russella (Avó), Giuseppe Cibardo (Turi), Nicoló Gibilaro (Avô), Chicco Coluzzi (Buda), Luciana Coluzzi (Luciana), Angelina Scaldaferri (Diodata).

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