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The FallNum hospital de Los Angeles no início do século XX, Alexandria (Catinca Untaru), uma criança que recupera de uma fractura num ombro, e Roy (Lee Pace), um duplo de cinema a recuperar de uma queda que lhe ia custando a vida, encontram-se fortuitamente. Roy, em negação com a sua vida e desilusão amorosa, pede a Alexandria que lhe traga morfina, e para ter a sua atenção vai-lhe contando histórias fantásticas. A imaginação de ambos acaba por se encontrar nas histórias, as quais passam a ter cada vez mais pontos de contacto com as realidades das quais ambos procuram fugir.

Análise:

“Um Sonho Encantado”, baseado no argumento de Valeri Petrov para o filme búlgaro de Zako Heskija, “Yo Ho Ho” ( 1981), foi o muito aguardado segundo filme de Tarsem Singh (ou apenas Tarsem, como aqui é creditado), depois da sensação que criou com “A Cela” (The Cell, 2000). Tal como o seu predecessor, “Um Sonho Encantado” é um filme que alia fantasia e realidade, procurando dar imagem a processos psicológicos e paisagens interiores de pessoas a viver períodos conturbados das suas vidas.

Aquilo que mais marca em “Um Sonho Encantado” é o festim visual que é já a assinatura de Tarsem. Filmado em cenários naturais um pouco por todo o mundo (28 países incluíndo Índia, China, Bali, Ilhas Fiji, República Checa, Espanha, Brasil, Argentina, Namíbia, França e África do Sul), o filme transporta-nos, de plano em plano, a autênticos banhos de luz e cor, que nos fazem sentir numa montanha russa, que extasia pela riqueza cénica que é quase uma visita guiada por alguns dos locais mais espantosos do planeta.

Este festim visual coaduna-se perfeitamente com a premissa da história, que é uma visita ao imaginário interior de duas pessoas, que buscam na fantasia uma forma de esquecer os seus problemas. Os dois personagens são Roy (Lee Pace), um duplo de cinema cuja queda de uma ponte o deixa paraplégico, e Alexandria (a romena Catinca Untaru), uma menina de cinco anos, com um braço partido, por ter caído de uma árvore, quando apanhava laranjas com a família de imigrantes numa plantação da Califórnia.

Roy chora a perda da mobilidade e da namorada, que o trocou pelo herói do filme, e contempla o fim da sua vida, com pensamentos suicidas, procurando afogar a sua autocomiseração em morfina. Já Alexandria, goza as maravilhas daquele lugar para ela encantador e mágico, longe do sofrimento da família, do trabalho infantil a que era obrigada e das memórias traumáticas da morte do seu pai.

Unidos pelas suas quedas (literais e simbólicas), Roy e Alexandria tornam-se um par improvável, cada um buscando algo no outro. Roy tenta que a sua pequena amiga lhe traga drogas, tornando-a aos poucos a confessora das suas mágoas, que deseja transformar numa história de vingança que o reabilite. Quanto a Alexandria, vê em Roy a capacidade de, através das histórias que conta, tornar a realidade um lugar mágico e épico. Sem querer, um e outro vão incluíndo na história muitos dos seus medos e traumas, tornando-a uma tragédia sem capacidade de redenção, como se contá-la se tornasse um exorcismo.

Desse modo, os cenários imaginados e os eventos narrados são plenos de simbolismo surreal, como que caricaturas ou alegorias, em que cada gesto ou imagem são retirados de algum lugar profundo da mente dos seus narradores.

Se o filme é guiado sobretudo pela relação criada entre Roy e Alexandria, o que se torna inesquecível é a química estabelecida entre as interpretações de Lee Pace e da pequena estreante, Catinca Untaru. Conta-se que, na primeira metade das filmagens Lee Pace surgiu sempre a Untaru acamado, fazendo-a acreditar que estava mesmo doente, para tornar a sua interpretação mais natural. Tarsem Singh preferiu que Catinca Untaru não tivesse um guião, sendo as suas falas e comportamentos espontâneos, o que aliás se nota, e dá à sua interpretação uma naturalidade incrível. Tal ajuda a tornar a relação entre Pace e Untaru mais real, e emocionalmente mais intensa.

Servido por imagens inesquecíveis, “Um Sonho Encantado” consegue marcar pela originalidade da ideia, espectacularidade da sua cinematografia, e pela força da química entre os dois protagonistas. É, por isso, ao mesmo tempo grandioso e delicadamente intimista. Muita dessa delicadeza é devida à frescura da pequena Catinca Untaru, cujo deambular e sonhar acordada pelo hospital dão ao filme de Tarsem Singh um carácter de inocência, sonho e conto de fadas de coração bem exposto. De destacar é ainda a belíssma banda sonora de Krishna Levy.

O filme é ainda uma verdadeira homenagem ao poder mágico de contar histórias, e um sentido tributo aos duplos do cinema. Tal é não só perceptível nas cenas de acção da história de Roy, como na colagem final de quedas, saltos e actos perigosos dos primeiros anos do cinema. Esta montagem está para os duplos, assim como a sequência final de “Cinema Paraíso” (Nuovo Cinema Paradiso, 1988) está para os beijos do cinema.

“Um Sonho Encantado”, estreou no Festival de Toronto, contando com apresentação de David Fincher e Spike Jonze. Apesar disso, o filme só estrearia comercialmente nos EUA em 2008, passando despercebido do grande público. Destaque final para o seu poster de apresentação, baseado no quadro “Sofá de los Labios de Mae West” de Salvador Dalí.

Produção:

Título original: The Fall; Produção: Googly Films / Absolute Entertainment / Deep Films Networxx – Film Management / Radical Media / Tree Top Films Inc.; Produtores Executivos: Ajit Singh, Tommy Turtle; País: EUA/Índia; Ano: 2006; Duração: 117 minutos; Distribuição: Roadside Attractions; Estreia: 9 de Setembro de 2006 (Toronto International Film Festival, Canadá), 9 de Maio de 2008 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Tarsem Singh; Produção: Tarsem Singh; Argumento: Dan Gilroy, Nico Soultanakis, Tarsem Singh [baseado no argumento de Valery Petrov para o filme de 1981 “Yo Ho Ho”]; Produtores Associados: Ray Leakey, Josh Robertson; Fotografia: Colin Watkinson; Figurinos: Eiko Ishioka; Montagem: Robert Duffy; Design de Produção: Ged Clarke; Música: Krishna Levy; Co-Produção: Niko Soultanakis, Lionel Kopp; Efeitos Especiais: Séverine De Wever (Duboi); Animação: Christoph Launstein, Wolfgang Launstein; Caracterização: Leon von Solms.

Elenco:

Catinca Untaru (Alexandria), Justine Waddell (Enfermeira Evelyn / Irmã Evelyn), Lee Pace (Roy Walker / Bandido Vermelho), Kim Uylenbroek (Médico / Alexandre, o Grande), Aiden Lithgow (Mensageiro de Alexander), Sean Gilder (Walt Purdy), Ronald France (Otto), Andrew Roussouw (Sr. Sabatini), Michael Huff (Dr. Whitaker), Grant Swanby (Padre Augustine), Emil Hostina (Pai de Alexandria / Bandido Azul), Robin Smith (Luigi / Actor só com uma Perna), Jeetu Verma (Indiano / Apanhador de Laranjas), Leo Bill (Darwin / Enfermeiro), Marcus Wesley (Otta Benga / Homem que trazia o Gelo), Ayesha Verman (Noiva do Indiano), Julian Bleach (Místico / Apanhador de Laranjas), Ketut Rina (Chefe dos Místicos), Camilla Waldman (Mulher a Chorar), Elvira Deatcu (Mãe de Alexandria), Emma Johnstone (Irmã de Alexandria), Daniel Caltagirone (Sinclair / Governador Odious), Nico Soultanakis (Horace), Jon Kamen (Morty), Karen Haacke (Alice), Emma Maria Landberg (Mulher do Filme), Miguel Hernández (Cowboy 1), Oscar Moreno (Cowboy 2), David Parra (Cowboy 3).