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Germania Anno ZeroSinopse:

Na Berlim destruída, imediatamente após a capitulação alemã na II Guerra Mundial, vive-se o desespero da falta de alimentos e condições. Com um pai doente, e um irmão escondido com medo de represálias, Edmund, é uma criança que luta pela sobrevivência da família, tentando encontrar, como pode, meios de trazer mais comida para casa. Dividindo um apartamento com mais quatro famílias, mal nutridos, e em constante pressão, a famíla de Edmund sente-se cada vez mais aflita, o que provocará em Edmund uma reacção que ninguém poderia esperar.

Análise:

Com “Germania, Anno Zero” Roberto Rossellini completava aquela que é hoje chamada a sua trilogia de guerra. Tal como nos anteriores dois filmes “Roma, Cidade Aberta” e “Libertação”, Rossellini procura mostrar os efeitos da guerra num povo, especialmente no período imediatamente após o final (ou, no caso de “Libertação”, nos últimos momentos) do conflito armado.

Ao contrário do que acontecera noss dois filmes anteriores, em “Germania, Anno Zero” a acção decorre na Alemanha, e não na Itália. Mais concretamente, é Berlim o pano de fundo que nos pretende dizer que, independentemente da ideologia, política ou razão, o sofrimento humano é algo universal, resultando numa perda de valores que levará inevitavelmente a mais tragédia. Tal é a história de Edmund, como nos é imediatamente explicado no texto introdutório, onde se deseja que resulte na necessidade de se fazer algo pelas crianças alemãs.

Retrato visível desta ideia, antes que quaisquer palavras sejam proferidas pelos personagens, é o esqueleto de cidade em que Berlim foi deixada após os bombardeamentos aliados. Como uma espécie de ruína colectiva, a cidade fantasma do que fora uma grande capital apresenta-se-nos triste, inerte, poeirenta, a definhar.

Como habitualmente, a busca do realismo de Rossellini levou-o a tomar a corajosa atitude de filmar em Berlim. Conseguiu-o com dinheiro de companhias italianas, francesas e alemãs numa altura em que o seu prestígio já atravessava fronteiras. Rossellini filmou nas ruínas da cidade, mas o facto de filmar muitas cenas em cenários construídos, contra o fundo da cidade lançou sobre si a crítica daqueles que diziam que estava a trair o Neo-realismo.

Com Rossellini voltavam os actores não profissionais e a perspectiva infantil. O elenco é integralmente constituído por alemães, muitas vezes encontrados nas ruas. Para o papel principal, Rossellini teve um simples objectivo, encontrar um actor (Edmund Moeschke) que lhe lembrasse o seu recentemente falecido filho Marco Romano, a quem o filme é dedicado. A fotografia era novamente uma arma, que apontava no sentido da desolação, e de uma desertificação entranhada em cada plano e personagem.

“Germania, Anno Zero” espanta sobretudo pelo modo como Berlim é retratada. Em cada ângulo e a cada segundo somos expostos a uma cidade que é um esqueleto inerte, atolado em escombros sem fim. Tal é a permanente presença deste cenário pós-apocalíptico, que os personagens se movem nela com naturalidade, como se Berlim nunca tivesse sido diferente, ou houvesse algum ensejo de a reconstruir.

Voltam também os temas habituais do cenário de privação pós-guerra. A falta de comida, o desemprego, o papel infantil no “desenrascar” de soluções, a mesquinhez entre vizinhos, e a queda das mulheres para uma possível prostituição.

Acrescenta-se ainda o papel ideológico, com o orgulho ferido de uns, como o Professor de Edmund (Erich Gühne) que são saudosistas dos tempos áureos de esperança (“antes éramos Nacional Socialistas, agora somos só Nazis”), a raiva daqueles como o pai de Edmund (Ernst Pittschau) que têm raiva e vergonha do regime que provocou esta derrocada, e o medo daqueles como o Karl-Heinz (Franz-Otto Krüger), que pelo seu papel no nazismo tem agora medo de se mostrar às autoridades.

O filme consegue por isso, trazer-nos diversos amargos de boca, com diferentes ângulos que não pretendem ser juízos de valor, mas apenas um olhar sincero sobre as diferentes formas de sobreviver numa Berlim que vivia um longo Ano Zero.

É neste mundo de ambiguidades e paradoxos que um equívoco se torna uma dessperada necessidade de agir, levando Edmund a tomar uma decisão drástica, inesperada, quase inexplicável. Com ela sentimos o auge do desespero e da acção impensada, quase como um eco daquilo que durante anos levou a Alemanha a lançar-se na destruição impensável da Europa. A mesma ausência de valores que provocou um genocídio vai, ao nível individual definir uma acção infantil, equívoca e trágica. Tal como aconteceu à Alemanha do seu tempo, que levaria muitos anos a perdoar-se a si própria, também Edmund carrega uma cruz da qual só tragicamente se livrará.

Com o seu olhar corajoso, Rossellini mais uma vez choca os seus espectadores, obrigando-os a ver o mundo tal como não o esperam, numa história trágica e comovente de uma criança que leva longe de mais os ideias de heroísmo. Chamado por muitos de irrealista, “Germania, Anno Zero” foi mal recebido na Alemanha, onde se considerou que dava uma visão pessimista dos alemães. O filme venceu o primeiro prémio do Festival Internacional de Locarno.

Produção:

Título original: Il Bandito; Produção: Tevere Film / Produzione Salvo D’Angelo / Union Générale Cinématographique; Produtor Executivo: Alfredo Guarini; País: Itália / França / Alemanha; Ano: 1948; Duração: 71 minutos; Distribuição: G.D.B. Film (Itália), Superfilm Distributing Corporation (EUA); Estreia: 1 de Dezembro de 1948 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Roberto Rossellini; Produção: Roberto Rossellini; Produtor Associado: Salvo D’Angelo; Argumento: Roberto Rossellini, Max Colpet; Diálogos: Roberto Rossellini, Carlo Lizzani, Max Colpet; Versão Italiana: Sergio Amidei; Fotografia: Robert Julliard (preto e branco); Direcção Artística: Piero Filippone; Montagem: Eraldo Da Roma; Assistentes de Realização: Max Colpet, Carlo Lizzani; Directores de Produção: Marcello Bollero, Alberto Manni; Música: Renzo Rossellini; Direcção de Orquestra: Edoardo Micucci.

Elenco:

Edmund Moeschke (Edmund), Ernst Pittschau (O Pai), Ingetraud Hinze (Eva), Franz-Otto Krüger (Karl-Heinz), Erich Gühne (O Professor).

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