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Ladri di BicicletteSinopse:

Antonio (Lamberto Maggiorani) é chamado para um emprego municipal, na Roma do pós-guerra, onde o desemprego e a fome grassam. Para o cumprir Antonio precisa da sua bicicleta, então no prego, o que leva a esposa a vender os próprios lençóis para a resgatar. Só que logo nos primeiros dias do novo emprego, António vê a bicicleta ser-lhe roubada, e com ela a chance de continuar empregado. Antonio inicia então, na companhia do pequeno filho Bruno (Enzo Staiola), uma viagem ao interior de Roma em busca da bicicleta perdida.

Análise:

Com a acção a decorrer na Roma do pós-guerra, tendo como pano de fundo as fracas condições sociais em que vivia a maioria da população italiana, Vittorio De Sica filmou “Ladrões de Bicicletas”, um dos mais líricos filmes do Neo-realismo italiano. Com a ajuda do seu amigo e grande vulto do neo-realismo italiano, Cesare Zavattini, De Sica adaptou a obra de Luigi Bartolini para criar um dos filmes mais amados do cinema do seu país.

Conhecido como actor de papéis cómicos e românticos, De Sica é aqui o realizador de uma obra inserida no movimento neo-realista, onde seguindo os preceitos do movimento, filma uma história naturalista, contada do ponto de vista de um povo de baixa condição social, sem floreados ou soluções românticas, em exteriores naturais e com actores não profissionais. De Sica compõe uma narrativa simples, com um fio condutor único (a busca de uma bicicleta roubada), que é ao mesmo tempo uma viagem crua, sem finais felize,s ao cerne de uma cidade dilacerada pela pobreza e desemprego.

Roma não é aqui, apenas um lugar físico, uma capital, ou um símbolo histórico. É sim um centro populacional onde se acumulam camadas e camadas de um povo em dificuldades. O filme é por isso quase que um documentário sobre as ruas, os empregos, os bairros, onde não falta o desespero, o roubo, os centros de caridade, ou o trabalho infantil. Filmada por Carlo Montuori, Roma é árida, quase unidimensional, com a sua conhecida monumentalidade a ser substituída pel pobreza dos bairros periféricos.

Como dito atrás, “Ladrões de Bicicletas” é a história simples de um homem, também ele simples, que ao perder a sua bicicleta perde a última oportunidade para conseguir um emprego que o ajude a manter a família. A bicicleta é por isso o seu maior tesouro, a porta de entrada do sonho simples de um emprego honrado. O emprego é, para Antonio (interpretado por Lamberto Maggiorani, que para não profissional espanta pela riqueza da sua expressão facial) o símbolo da sua masculinidade, no sentido em que é o dinheiro ganho que lhe confere o orgulhoso papel de chefe de família. Por isso a venda dos lençóis de Maria (Lianella Carell), sua esposa, e a visita desta à vidente, são golpes no seu papel de chefe de família, por serem soluções que ele não controla. Esse papel é de novo perdido no momento em que a bicicleta é roubada, e Antonio deixa de ser um chefe de família para ser quase que um mendigo, vagueando em vão pela cidade.

Esta é uma viagem às entranhas de Roma. Uma Roma demasiado grande para se preocupar com um simples cidadão, e onde Antonio é tão pequeno, como o seu filho Bruno (o brilhante e incrivelmente expressivo Enzo Staiola) o é em relação a ele. Nessa Roma impessoal e insensível, Antonio vê todas as portas fechar-se, desde a polícia que zomba da sua queixa, às pessoas que não o ajudam, passando pela vidente que lhe recusa uma palavra reconfortante. Aos poucos a viagem torna-se uma queda (note-se o papel das condições atmosféricas, da poeira inicial à tempestade opresora). Nessa queda Antonio passa a ser olhado com suspeição, maltratado no bairro do ladrão, e por fim, tornando-se ele próprio o ladrão que perseguira, sinal triste de como o desespero pode fazer cair qualquer um naquilo que antes combatera.

Com Antonio, nesta viagem, segue o seu filho Bruno. Este com a boa disposição habitual das crianças, vê no seu pai um herói, e em tudo uma nova oportunidade de aventura. Vive depois o desgosto do pai, até sofrer mais que ele as agruras da viagem. É na queda do pai que Bruno chora, não a queda que não entende, mas a humilhação do seu herói. É nos olhos de Bruno que Antonio vê o quão baixo desceu, e é por Bruno que o captor de Antonio se compadece, soltando-o. É por fim o reencontro de pai e filho nos seus papéis (o dar de mãos e caminhar juntos na comovente cena final), que dão o final possível a uma história inacabada e sem final feliz.

De um só fôlego De Sica (com dinheiro próprio, depois do fracasso comercial de Sciuscià) mostra-nos uma Roma triste e cabisbaixa, e um povo em desespero, numa história humana, numa relação entre pai e filho, filmada como um realismo documental, mas que nunca deixa de nos comover pela força dos seus personagens principais.

Com uma tal riqueza social e emocional, “Ladrões de Bicicletas” tornou-se um dos mais conceituados e premiados filmes da cinematografia italiana, recorrentemente citado como influência de tantos autores posteriores. O filme ganhou um Oscar especial para filmes estrangeiros, anos antes de a categoria ter sido criada.

Produção:

Título original: Ladri di Biciclette; Produção: Produzioni De Sica – SA (PDS); País: Itália; Ano: 1948; Duração: 85 minutos; Distribuição: Ente Nazionale Industrie Cinematografiche (ENIC) (Itália), Arthur Mayer & Joseph Burstyn (EUA); Estreia: 24 de Novembro de 1948 (Itália), 20 de Novembro de 1950 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Vittorio De Sica; Produção: Giuseppe Amato; Vittorio De Sica [não creditado]; Argumento: Cesare Zavattini, Oreste Biancoli, Suso Cecchi D’Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri [a partir do livro homónimo de Luigi Bartolini]; Música: Alessandro Cicognini; Direcção de Orquestra: Willy Ferrero; Design de Produção: Antonio Traverso; Montagem: Eraldo Da Roma; Fotografia: Carlo Montuori (preto e branco); Directores de Produção: Umberto Scarpelli, Nino Misiano.

Elenco:

Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci), Enzo Staiola (Bruno Ricci), Lianella Carell (Maria Ricci), Elena Altieri (A Dama de Caridade), Gino Saltamerenda (Baiocco), Giulio Chiari (Pedinte), Vittorio Antonucci (Ladrão), Michele Sakara (Secretário da Organização de Caridade), Fausto Guerzoni (Actor Amador), Carlo Jachino (Pedinte).