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Anni DifficiliSinopse:

Aldo Piscitello (Umberto Spadaro) é um funcionário público em Modica, uma pequena vila da Sicília, sob o regime fascista. Embora de simpatias anti-fascistas, Aldo vive uma vida discreta sem se meter em política, até o seu superior o coagir a entrar no Partido Fascista. Contra a sua vontade Aldo acede, para não perder o emprego. Preocupado com o estado de Itália e o futuro dos filhos, Aldo vê o filho Giovanni (Massimo Girotti) ser constantemente mobilizado para o exército, quer em África quer na Europa, enquanto o clima de guerra aumenta, e a II Guerra Mundial evolui. Embora membro do Partido, Aldo nunca deixa de desejar o fim do fascismo, assistindo por fim à derrocada de Mussolini, e a todas as convulsões políticas e sociais que ela gera.

Análise:

Nas mãos de Luigi Zampa, “Anni Difficili” é um filme que, embora integrado na corrente neo-realista, se aproxima mais das fórmulas narrativas de Hollywood, que dos modelos austeros de Rossellini, De Sica ou Visconti.

uase um épico, o filme descreve o período que vai de 1934 ao fim da II Guerra Mundial, como um retrato de uma época, vista pelos olhos de um simples funcionário público siciliano. A história de Aldo Piscitello (numa brilhante interpretação de Umberto Spadaro) funciona assim como uma janela para um mundo (e uma época), já na altura terminada, a qual Zampa narrava num estilo que vai da narrativa de ficção, ao quase-documentário, e onde mais uma vez, como com Rossellini, os noticiários reais são misturados com a ficção.

Pelos olhos de Piscitello assistimos aos acontecimentos do seu dia a dia, com um pano de fundo, umas vezes mais distante, outras mais próximo, mas sempre importante para a caracterização da época. É exemplo a deliciosa inserção da notícia de jornal da morte de Hidenburg, quando Piscitello apenas lê sobre a morte de um vizinho.

Descrito como um vulgar funcionário, que nem sequer é conhecido na sua vila, Aldo Piscitello, com as suas preocupações genuínas e o seu sarcasmo fino, vai trazendo a chama humana que marca o filme. E este é, como dito, uma crónica de um tempo, em tons de sátira, documento e tragédia humana.

Rir dos próprios defeitos é a melhor virtude dos povos civilizados”, diz a citação inicial, como um mote que justifica a razão de ser do filme de Zampa. E de facto, “Anni Difficili” é uma comédia, onde a sátira subtil e os comentários sarcásticos de Aldo Piscitello ditam o tom. Satirizados são os vícios e aspectos mais ridículos do fascismo (desde a necessidade de pertencer ao partido para a ascensão social, aos comportamentos e treinos da milícia). São-no os próprios fascistas, descritos como incultos, que por excesso de zelo são capazes de querer corrigir uma ópera de Bellini com mais de cem anos. São-no a corrupção, o nepotismo, e a falta de coerência, que leva a que incompetentes sejam promovidos por laços familiares, ou que as mais destacadas figuras da terra rapidamente pisquem o olho ao outro lado, quando sentem a situação mudar. São-no ainda os intelectuais e homens cultos anti-fascistas, que se negam sempre à acção, e se escondem atrás de tiradas filosóficas e opiniões estereotipadas, que repetem sem pensar.

No meio de toda esta situação, Aldo Piscitello é a figura do bom senso. Não gosta de política, mas sofre com o estado da nação. Odeia os fascistas, mas submete-se a entrar para o partido para assegurar o ganha-pão da família (ao que é pressionado pela esposa e filha, embevecidas com a retórica de Mussolini). Mantém o espírito crítico, mas sofre em silêncio, principalmente perante as várias chamadas para a guerra do seu filho Giovanni (Massimo Girotti). Ama Itália, mas deseja a sua derrota, como um ponto final numa situação que o envergonha.

Guiado pela presença de Piscitello, “Anni Difficili” alia o tom satírico a um forte sentido humano, onde os vícios naturais (corrupção, seguidismo, alienação, oportunismo), nos surgem lado a lado com os valores nobres de amor, esperança e lealdade. Zampa consegue povoar o filme de figuras tipo (o barão, o ministro, o espião, os intelectuais de esquerda), nunca esquecendo o drama das pessoas que apenas querem viver a sua vida, como o casal Giovanni-Maria (Milly Vitale) ou o incontornável Aldo Piscitello.

Com a sua descrição de situações, sob o evoluir de acontecimentos que nos vão sendo contados em fundo, “Anni Difficili” é muito mais que um retrato de uma época. É um retrato do ser humano, no seu melhor e pior. Não espanta, por isso, que no final, com a libertação americana, sejam aqueles que mais se aproveitavam do fascismo, que se vão saber aproveitar da mudança (“que fascismo era este, se ainda não encontrei um homem que confesse ter sido fascista”, comenta o oficial americano), e homens como Aldo Piscitello, que continuem a pagar o preço. De certo modo, quase vemos no filme de Zampa um percursor da famosa máxima imortalizada em “O Leopardo” (Il Gattopardo, 1963) de Luchino Visconti: “Às vezes é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”.

O filme, pela sua premissa de que o povo italiano era em geral contra o fascismo, mas apenas amedrontado para falar, e rotulando os políticos e figuras de autoridade de oportunistas que souberam fazer a transição entre regimes, mantendo cargos e poder, foi fortemente atacado pela direita italiana, que o considerava insultuoso e desonroso para a Itália.

A sua versão inglesa (dobrada) conta com uma narração, escrita por Arthur Miller, na voz de John Garfield.

Produção:

Título original: Anni Difficili; Produção: Briguglio Films; País: Itália; Ano: 1948; Duração: 110 minutos; Distribuição: Fincine (Itália), Lopert Pictures Corporation; Estreia: 9 de Setembro de 1948 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Luigi Zampa; Produção: Domenico Fazzari, Folco Laudati; Argumento: Sergio Amidei, Vitaliano Brancati, Franco Evangelisti, Enrico Fulchignoni [a partir do livro de Vitaliano Brancati, “Il vecchio con gli stivali”]; Música: Franco Casavola; Direcção Musical: Ugo Giacomozzi; Fotografia: Carlo Montuori (preto e branco); Montagem: Eraldo Da Roma; Assistentes de Realização: Mauro Bolognini, Francesco De Feo; Design de Produção: Ivo Battelli; Caracterização: Euclide Santoli; Director de Produção: Gianni Solitro.

Elenco:

Umberto Spadaro (Aldo Piscitello), Ave Ninchi (Rosina Piscitello), Enzo Biliotti (A Autoridade, o Barão), Massimo Girotti (Giovanni Piscitello), Delia Scala [como (Odette Bedogni) (Elena Piscitello), Ernesto Almirante (O Avô), Vittorio De Stefano (Um dos Gémeos), Bruno Di Stefano (Um dos Gémeos), Aldo Silvani (O Boticário), Miro Zonda (O Federal), Milly Vitale (Maria), Giovanni Grasso (O Advogado Mascoli), Olinto Cristina (O Juiz Gacchi), Agostino Salvietti (Fegarotta), Raniero De Cenzo (O Doutor Rapisarda), Carlo Sposito (Riccardo), Giuseppe Nicolosi (Cascará), Loris Gizzi (O Ministro Fascista), Ermanno Randi (Turi).

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