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Depois de Paris, Woody Allen filmou o seu novo filme em Roma, desta vez com dinheiro da Medusa (do Grupo Mediaset, de Silvio Berlusconi) e ainda com a Mediapro da Catalunha, e distribuição americana da Sony. Com uma equipa próxima das anteriores (Darius Khondji, Anne Seibel, Alisa Lepselter, Sonia Grande) completada por técnicos italianos, Allen voltava ao reino da comédia, com um filme feito de quatro histórias distintas, com a particularidade de duas serem faladas em italiano. Allen voltava também ao elenco pela primeira vez desde “Scoop”, de 2006, aqui ao lado de Alec Baldwin, Roberto Benigni, Penélope Cruz, Judy Davis, Jesse Eisenberg, Greta Gerwig e Ellen Page.

Este é ainda o primeiro filme de Woody Allen com ficha técnica numa língua que não o inglês (neste caso italiano).

Sinopse:

John (Alec Baldwin) é um arquitecto que recorda a sua juventude em Roma, revendo-se em Jack (Jesse Eisenberg), o qual está, sem o saber, à beira de deixar a namorada Sally (Greta Gerwig) pela melhor amiga desta, Monica (Ellen Paige).

A relação entre a americana Hayley (Alison Pill) e o italiano Michelangelo (Flavio Parenti) traz a Roma os pais daquela, Jerry (Woody Allen) e Phyllis (Judy Davis), com Jerry a tentar que Giancarlo (Fabio Armiliato), o pai de Michelangelo, inicie uma carreira de cantor de ópera.

Leopoldo Pisanello (Roberto Benigni) é um simples empregado de escritório que um dia acorda famoso, sem saber porquê, perseguido pela imprensa e solicitado por todos.

Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (Alessandra Mastronardi) são um jovem e inocente casal de visita a Roma. Mas mal chegam uma série de eventos imprevisíveis vai testá-los, ele com a prostituta Anna (Penélope Cruz), e ela com o famoso actor Luca Salta (Antonio Albanese).

Análise:

Embora habituado a fazer filmes de ensemble, nos quais as histórias de vários personagens se entrecruzam, sem haver necessariamente uma história ou personagem que se sobreponha às restantes, Woody Allen fez em “Para Roma com Amor” algo diferente. O filme é estruturado como uma série de quatro histórias (duas em italiano, duas em inglês) que, embora sejam contadas por episódios que se intercalam, são na verdade quatro histórias distintas sem nada que as ligue quer a nível narrativo, de personagens, ou mesmo temporalmente. A única união entre elas parece mesmo ser Roma, a cidade onde o filme decorre, e que lhe serve de inspiração.

Woody Allen terá começado a imaginar este filme sob inspiração do livro medieval “Decameron” de Boccaccio, o qual é também composto por uma série de histórias distintas, e onde o amor e o erotismo são temas proeminentes.

Começando pelas histórias em inglês, Woody Allen protagoniza uma delas como Jerry, o encenador reformado que, com a esposa Phyllis (Judy Davis, no seu mais apagado papel num filme de Allen), viaja até Itália para conhecer a família do noivo da sua filha Hayley (Alison Pill). Jerry acaba por se apaixonar pela voz do sogro desta, Giancarlo (Fabio Armiliato), que canta ópera no chuveiro, tentando convencê-lo a cantar em palco. Para isso Jerry produz uma versão da ópera “I Pagliacci” de Leoncavallo, em que um chuveiro está presente em todas as cenas de Giancarlo. O episódio é uma anedota aos esforços pela fama, com a constante equiparação entre o disparate e o “estar à frente do seu tempo”, a expressão tantas vezes repetida por Phillys, e que Jerry pensa ser o significado de “imbecile”.

A outra história em inglês mostra-nos John (Alec Baldwin), perdendo-se nas ruas de Roma, em busca do bairro onde viveu na sua juventude, quando começava a carreira de arquiecto. Aí encontra o também arquitecto Jack (Jesse Eisenberg), que parece (provavelmente é) uma versão mais nova de si próprio. De modo semi-fantasioso John surge nas cenas de Jack e conversa com os personagens, sem necessariamente a narrativa indicar que ele ali deversse estar. Em tom de tragédia anunciada, John alerta Jack para os perigos das suas escolhas, quando o vê trocar a fiável Sally (Greta Gerwig) pela instável, mas desafiante Monica (Ellen Paige), a melhor amiga de Sally. O conceito é mais uma visita à ideia de “Morangos Silvestres” (Smultronstället, 1957) de Ingmar Bergman, que Allen já citou noutros dos seus filmes. A história decepciona pela sua previsibilidade.

Nas histórias italianas temos a pequena anedota sobre Leopoldo Pisanello (Roberto Benigni), um homem banal que um dia acorda famoso, sem que saiba porquê. Perseguido pela imprensa, desejado pelas mulheres, convidado para tudo, procurado por todos, Leopoldo passa a odiar a fama que não lhe dá um momento de paz. Mas esta, tal como surge, desaparece, deixando-o desiludido. Num dos diálogos mais divertidos do filme, o seu motorista (Sergio Solli) explica-lhe que Leopoldo é famoso, apenas por ser famoso, numa sátira à volatilidade e incongruência da fama.

Finalmente, a segunda história italiana mostra-nos o jovem casal Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (Alessandra Mastronardi) de visita a Roma, onde Antonio procura um novo emprego junto da sua família. Inocentes e inexperientes, cedo ambos sucumbem à loucura da grande cidade. Antonio vê-se obrigado a fingir ser casado Anna (Penélope Cruz) uma prostituta que lhe surge no seu quarto por engano, no preciso momento em que a família dele chega. No desenrolar do dia Antonio acaba por ter sexo com Ana, para perder as suas inibições. Quanto a Milly, perdida na cidade, é seduzida pelo actor Luca Salta (Antonio Albanese), que vê nela uma conquista fácil. As coisas não correm como esperado, quando o casal é assaltado no hotel, e Luca foge, deixando Milly ser seduzida pelo ladrão (Riccardo Scamarcio).

Assim de uma assentada temos uma história sobre as pretensões da cultura, o retorno ao uso do pseudo-intelectualismo como arma de sedução, a velha visão das mulheres como seres instáveis, vorazes e neuróticos, uma sátira à fama, e uma história de traições, que é quase uma apologia de maturação emocional em face das tentações da grande cidade.

As diferentes faces de Roma surgem nas várias histórias, mas nem sempre as definem. Estas passam pelo anedótico (Jerry e Leopoldo) indo aos temas mais habituais de Allen, como a fama (Leopoldo); a infidelidade (Antonio e Milly) aqui quase um rito de passagem; a busca da complexidade feminina que leva a desaires amorosos (Jack e Monica); e a nostalgia do passado (John). Há espaço para a fantasia e para a dor, mas é a comédia que guia o filme.

Sem trazer nada de novo ao universo alleniano, podemos facilmente reconhecer influências temáticas noutros dos seus filmes: Leopoldo é uma versão anedótica dos personagens de “Celebridades”. Monica como a emocionalmente voraz e instável (quase psicopática) namorada, podia ser a personagem de Christina Ricci em “Anything Else – A Vida e Tudo Mais” (as conversas à mesa entre Jack e Monica, com referências intelectuais como prato principal são quase uma cópia daquelas entre Jason Biggs e Christina Ricci). John, cuja história relembra o citado “Morangos Silvestres” tem uma visita ao passado como a tivera Gena Rowlands em “Uma Outra Mulher”. Anna é mais uma das muitas prostitutas que surgem nos filmes de Allen desde “Poderosa Afrodite”. Allen faz de si próprio, com os mesmos maneirismos gestuais e vocais, e Jesse Eisenberg faz de Allen, numa versão mais jovem, talvez ainda antes deste perder a sua inocência e se tornar mais cínico.

Destaque para as interpretações de Roberto Benigni (como sempre, perfeito), Fabio Armiliato e claro, de Ellen Page, num elenco onde são muitos os actores que parecem sub-aproveitados.

Alegadamente Allen detesta o título do filme, que lhe foi imposto pela produtora, quando o próprio escolhera, primeiro “Bop Decameron”, e depois “Nero Fiddles”. O filme foi visto por alguma crítica como uma teimosia no percorrer cidades diferentes quando nada há que o justifique. Prova disso é (a exemplo do que fizera em Barcelona e Paris) o extenso uso de alguns dos mais belos cenários naturais da cidade. Sendo um filme que claramente é um veículo para Allen se livrar de pequenas histórias semi-acabadas, “Para Roma com Amor” foi mais um sucesso de bilheteira, confirmando a boa relação entre Allen e os seus fãs europeus.

Produção:

Título original: To Rome with Love; Produção: Medusa Film / Gravier Productions / Perdido Productions / Mediapro; País: EUA/Itália/Espanha; Ano: 2012; Duração: 107 minutos; Distribuição: Medusa Distribuzione (Itália), Sony Pictures Classics (EUA); Estreia: 20 de Abril de 2012 (Itália), 22 de Junho de 2012 (EUA), 22 de Setembro de 2012 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Giampaolo Letta, Faruk Alatan; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin, David Nichols; Fotografia: Darius Khondji (filmado em DeLuxe); Design de Produção: Anne Seibel; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Sonia Grande; Director de Produção: Federico Foti; Direcção Artística: Luca Tranchino; Cenários: Raffaella Giovannetti; Efeitos Especiais: Daniel Dominic Acon; Caracterização: Alessandro Bertolazzi.

Elenco:

Woody Allen (Jerry), Alec Baldwin (John), Roberto Benigni (Leopoldo Pisanello), Penélope Cruz (Anna), Judy Davis (Phyllis), Jesse Eisenberg (Jack), Greta Gerwig (Sally), Ellen Page (Monica), Antonio Albanese (Luca Salta), Fabio Armiliato (Giancarlo), Alessandra Mastronardi (Milly), Ornella Muti (Pia Fusari), Flavio Parenti (Michelangelo), Alison Pill (Hayley), Riccardo Scamarcio (Ladrão do Hotel), Alessandro Tiberi (Antonio), Carol Alt (Carol), David Pasquesi (Tim), Lynn Swanson (Ellen), Monica Nappo (Sofia), Corrado Fortuna (Rocco), Margherita Vicario (Claudia), Rosa Di Brigida (Rosa Di Brigida), Gabriele Rainone (Gabriele), Camilla Pacifico (Camilla), Massimo Ferroni (Colega de Leopoldo), Alessandro Procoli (Colega de Leopoldo), Paolo De Vita (Colega de Leopoldo), Cecilia Capriotti (Serafina), Roberto Della Casa (Tio Paolo), Ariella Reggio (Tia Rita), Gustavo Frigerio (Tio Sal), Simona Caparrini (Tia Giovanna), Sergio Solli (Motorista de Leopoldo’s), Cristiana Palazzoni (Apresentadora do TG3), Giuseppe Pambieri (Chefe de Leopoldo), Marta Zoffoli (Marisa Raguso), Lino Guanciale (Leonardo), Fabio Bonini (Max), Marina Rocco (Tanya), Sergio Bini Bustric (Mr. Massucci), Augusto Fornari (Cliente de Anna), Mariano Rigillo (Cliente de Anna), Gianmarco Tognazzi (Cliente de Anna), Vinicio Marchioni (Aldo Romano), Antonino Bruschetta (Detective do Hotel), Carlo Luca De Ruggieri (Detective do Hotel), Giuliano Gemma (Gerente do Hotel), Margherita Di Rauso (Mulher de Luca), Federica Corti (Rapariga do Autógrafo), Pierluigi Marchionne (Polícia), Francesco De Vito (Homem à Janela).

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