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La Terra TremaSinopse:

Em Aci Trezzi, uma vila de pescadores da Sicília, toda a vida é ditada pelo ritmo da faina marítima. Os pescadores, pobres, trabalham como escravos para trazerem para casa o suficiente para alimentar as famílias, vendo os grossistas arrecadar o lucro das vendas. Tal faz Antonio Valastro insurgir-se propondo uma alteração no modo de fazer as coisas. Antonio e a sua família empenham a casa, e pescam para si próprios. Mas quando a desgraça lhes leva o barco, passam de empreendedores invejados, a párias da sociedade, sem emprego ou dinheiro.

Análise:

Com “A Terra Treme” Luchino Visconti levou quase ao extremo a ideia neo-realista de apresentar um tema o mais próximo possível de uma realidade não encenada, e não deturpada por concepções formais. Para tal Visconti (com assistência do futuro realizador Franco Zeffirelli) usou apenas actores não profissionais (pescadores). Estes são filmados no seu meio natural (a aldeia piscatória da Sicília onde a acção decorre), em cenários naturais (tanto os exteriores, como os interiores formados pelas casas dos pescadores), num modo quase documental que faz o filme confundir-se com um documentário. Não faltam mesmo as narrações em off, que são os únicos apontamentos em italiano, num filme que é totalmente falado em dialecto siciliano.

Logo no início o narrador informa-nos que na Sicília o italiano não é a língua dos pobres. Por isso somos levados, através da língua, a esse mundo que não tem nada de encenado ou glamoroso, formado pelo combate diário da sobrevivência de um povo que vive na escravidão do seu trabalho e tradição.

No mundo dos pescadores, o mar é a sua vida (a tal terra que treme), e a labuta uma constância que desde, o levantar madrugador até ao regresso, venda do peixe, e dia passado a remendar as redes e preparar o isco, não dá uma trégua.

Presos à tradição, estes pescadores não questionam o seu dia a dia, rezando por chegar ao dia seguinte, e resignados a casar com uma moça vizinha que ajude a perpetuar o seu modo de vida.

A mudança chega quando António Valastro, um pescador que fez o serviço militar no continente e esteve exposto a outras realidades, se revolta. Para Ntoni (como António é chamado em dialecto) não se justifica que os intermediários (os grossistas), que compram todo o peixe para vender em Catânia (capital de província), fiquem com todo o lucro, mantendo os pescadores na pobreza. Estas ideias revolucionárias (a que não é alheia a crescente propaganda comunista do pós-guerra), causam mau estar, tanto por parte do status quo (os grossistas, senhores da aldeia – note-se como surgem à frente de paredes que ainda ostentam a progaganda fascista de Mussolini), como por parte dos mais velhos (personificados pelo avô Valastro), que seguem a tradição cegamente, e temem toda a mudança.

Ntoni aposta, empenha a propriedade familiar, e vive o sonho de ser independente, casar com quem quer, ser respeitado, e servir de exemplo aos seus amigos pescadores. Mas não é apenas a tradição ou os grossistas, é sobretudo o peso do mundo que lhe cai nas costas, e uma intempérie deita tudo a perder ao levar-lhe o barco.

A partir de então, sem um ganha-pão, a braços com uma hipoteca, e recebendo o desprezo de todos (vizinhos que viram os Valastro tornar-se importantes, e grossistas que os viram como ameaça), a família não consegue empregos, a fome aperta, e as mulheres não conseguem mais um partido com quem casar. A alternativa é deixar a casa, e sofrer a humilhação de voltar a trabalhar para aqueles que antes os espezinhavam. Tudo isto acontece após vermos a queda da família: a morte do avô, a perda da reputação de Lucia, a fuga de Cola.

Com tanto de contexto social, “A Terra Treme” é um exemplo da luta de um povo, oprimido pelos senhores locais e pela tradição, onde qualquer ideia de mudança é vista como uma ameaça radical. É ao mesmo tempo um grito de esperança, explicitado quando Ntoni diz a uma criança que um dia o seu exemplo será seguido, e a sua luta será aproveitada por todo o povo que mais tarde terá de se unir. Visconti, um militante comunista empenhado nos seus temas, tencionava fazer do filme o primeiro de uma trilogia, cujas partes seguintes abordariam as vidas dos agricultores e dos mineiros.

Embora não seja o primeiro filme italiano em dialecto (por exemplo Blasetti já assim tinha filmado “1860”), o filme de Visconti surpreendeu por uma abordagem tão realista, feita de cenários naturais, que apesar da fotografia encenada, é um testemunho perfeitamente natural de um povo. O filme espanta pelo realismo com que mostra as parcas condições de uma família tradicional da periferia de Itália, numa vila atrasada, que embora a meio do século XX, parece ter parado no tempo há séculos (o romance de onde é retirada a história data de 1881).

“A Terra Treme” foi o vencedor do Festival de Cinema de Veneza em 1948, o que não evitou que fosse mal recebido em Itália, onde o seu estilo austero e pouco formal foi criticado. O filme veria no entanto a sua reputação crescer com os anos, sobretudo graças ao sucesso internacional da corrente neo-realista.

Produção:

Título original: La Terra Trema: Episodio del Mare; Produção: Universalia Film; País: Itália; Ano: 1948; Duração: 153 minutos; Distribuição: Compagnia Edizioni Internazionali Artistiche Distribuzione (CEIAD) (Itália), Mario de Vecchi (EUA); Estreia: 2 de Setembro de 1948 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Luchino Visconti; Produção: Salvo D’Angelo; Argumento: Luchino Visconti, Antonio Pietrangeli [não creditado] [baseado no livro de Giovanni Verga “I Malavoglia”]; Directores de Produção: Renato Silvestri, Anna Davini; Assistentes de Realização: Franco Rosi, Franco Zeffirelli; Montagem: Mario Serandrei; Fotografia: G.R. Aldo (preto e branco).

Elenco:

Antonio Arcidiacono (Ntoni) [não creditado], Giuseppe Arcidiacono (Cola) [não creditado], Nicola Castorino (Nicola) [não creditado], Rosario Galvagno (Don Salvatore, o Marechal dos Carabinieri) [não creditado], Nelluccia Giammona (Mara) [não creditado], Maria Micale (A mãe) [não creditado], Lorenzo Valastro (Lorenzo) [não creditado], Raimondo Valastro (Raimondo) [não creditado], Salvatore Vicari (Alfio) [não creditado], Amilcare Pettinelli (narrador), Antonio Pietrangeli (narrador), Luchino Visconti (narrador).

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