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Cowards Bend the KneeGuy Maddin (Darcy Fehr) é um jogador de hóquei, cuja namorada Veronica (Amy Stewart) tem de fazer um aborto clandestino. São levados pelo melhor amigo de Guy, Shaky (David Stuart Evans), ao salão de beleza/bordel de Liliom (Tara Birtwhistle), sua amante. Aí Guy deixa-se seduzir pela filha desta, Meta (Melissa Dionisio), abandonando Veronica que acaba por morrer.

Meta não deixa que nenhum homem lhe toque enquanto a morte de seu pai não for vingado, e pede ao médico que ampute as mãos de Guy e lhe transplante as mãos azuis do seu pai. Este apenas simula a operação, mas Guy, convencido que tem as mãos do pai de Meta, sede aos seus impulsos, e inicia uma senda assassina que atribui às mãos que não são suas.

Quando Guy descobre a verdade é demasiado tarde. Não só se deixa apaixonar pelo fantasma de Veronica, como Meta exige as mãos de volta amputando-o. O amputado Guy tenta voltar ao hóquei, mas é perseguido pela polícia, e pelos fantasmas do seu passado, materializados como uma equipa de hóquei de figuras de cera.

Análise:

“Cowards Bend the Knee” é uma longa-metragem feita a partir do que seriam inicialmente 10 curtas-metragens, realizada pelo canadiano Guy Maddin, um realizador reputado pelo seu trabalho de vanguarda.

Filmado inteiramente em Super-8, com um baixo orçamento, o filme é mudo, com fotografia a preto e branco. Recorre ainda a várias técnicas comuns ao cinema mudo do início do cinema, como os intertítulos, o fecho da imagem em torno dos pormenores a destacar, o comportamento estilizado dos actores, e a sua caracterização arcaica. É, para além disso, servido por uma montagem que usa a repetição de imagens e o salto intermitente entre planos para lhe conferir um frémito muito próprio de impulsividade.

Sendo uma história fácil de seguir, “Cowards Bend the Knee” está longe de ser uma narrativa linear, dados os seus muitos exemplos de surrealismo, que apelam a uma interpretação num plano emocional e simbólico. Assim, temos à primeira vista uma história de paixão e vingança, em que o personagem principal, também ele chamado Guy Maddin (Darcy Fehr), é seduzido para completar a vingança de uma mulher (Melissa Dionisio) que deseja a morte da sua mãe (Tara Birtwhistle), e do amante desta (David Stuart Evans), por sinal o melhor amigo de Guy.

Mas “Cowards Bend the Knee” toca-nos muito para além da sua narrativa. Fazendo parte da chamada “Trilogia do Eu” de Maddin, seguido de “Brand Upon the Brain!” (2006) e “My Winnipeg” (2007), o filme parece ter algo do universo interior do realizador, em que a sua masculinidade, necessidade de afirmação e relações familiares servem de pano de fundo à história. Desse universo provêm temas recorrentes, quer visuais, quer narrativos, como as mãos e o destaque que se lhes dá em diferentes momentos (os apertos de mão, o jogo de mãos que leva Guy a aproximar-se de Meta, o afagar de seios, os estrangulamentos, e o próprio culto que leva Meta a guardar as mãos do pai morto).

Também proeminente é o tema do esquecimento. Guy esquece-se da mãe, moribunda, esquece literalmente a namorada (não a reconhecendo mais tarde), e tende a esquecer tudo aquilo que no minuto anterior era importante para si.

A questão familiar é também destacada, surgindo como uma culpa ou um peso para Guy, que, como citado, esquece a mãe. Além disso Guy recusa a paternidade (aborto de Veronica) e acaba por ter no pai um rival que lhe rouba a namorada (repare-se como Guy mostra uma nítida inveja ao observar o pénis do seu pai). Todas estas decisões de Guy, bem como o deixar-se convencer que são as mãos de outrém a tomar as suas decisões, constituem a cobardia expressa no título, e explicada no intertítulo final.

A importância da família é ainda mostrada pelo lado de Meta, que procura uma reunião com o pai, a quem deseja de um modo visivelmente incestuoso. Afinal Meta chega ao ponto de apenas se deixar tocar pelas mãos amputadas do pai, que pretende ver cosidas nos pulsos do seu novo amante. Uma espécie de complexo edipiano leva tanto Guy como Meta a verem no progenitor do mesmo sexo o seu principal inimigo.

Como habitual no surrealismo, as conotações de natureza sexual são evidentes, e por vezes totalmente explícitas (violação de Liliom, sedução de Meta, o afagar do seio de gelo, a homossexualidade nos balneários, etc), como concretizações de desejos provindos de sonhos ou pesadelos. Tal não é desprovido da violência típica do surrealismo, que é transversal a todo o filme (como as diversas mortes, amputações, violação, e as grotestas tentativas de aborto). Por fim, deve-se lembrar que toda a acção nos é mostrada como ocorrendo dentro de gotas de esperma observadas ao microscópio.

Com uma lógica fechada sobre si própria, que aceita jogadores amputados, fantasmas de carne e osso, crimes deixados impunes à vista de todos, e figuras de cera que ganham vida, Cowards Bend the Knee” mistura inocente e grotesco, num tempo que tem o seu aspecto de irreal (segundo o autor, os anos 1930), e que também graças à fotografia nos surge como uma colagem de sequências aparentemente retiradas de um sonho.

O filme foi patrocinado pela galeria de Toronto The Power Plant, com a qual Guy Maddin costuma colaborar, e foi bem recebido pela crítica que o tem considerado uma das obras primas do autor.

Produção:

Título original: Cowards Bend the Knee (or The Blue Hands); Produção: The Power Plant / The Manitoba Arts Council / The Canada Council For The Arts; País: Canadá; Ano: 2003; Duração: 64 minutos; Distribuição: E.D. Distribution (França), Zeitgeist Films (EUA); Estreia: 22 de Janeiro de 2003 (International Film Festival Rotterdam, Holanda), Fevereiro de 2003 (Canadá), 11 de Julho de 2004 (Maine International Film Festival, EUA).

Equipa técnica:

Realização: Guy Maddin; Produção: Philip Monk; Argumento: Guy Maddin; Fotografia: Guy Maddin (preto e branco); Montagem: John Gurdebeke; Assistente de Realização: Ruben Guzman; Design de Produção: Shawna Conner; Direcção Artística: Craig Aftanas; Figurinos: Meg McMillan; Caracterização: Beverley Hamilton; Director de Produção: Tracy McBride.

Elenco:

Darcy Fehr (Guy Maddin), Melissa Dionisio (Meta), Amy Stewart (Veronica), Tara Birtwhistle (Liliom), Louis Negin (Dr. Fusi), Mike Bell (Mo Mott), David Stuart Evans (Shaky), Henry Mogatas (Chas), Victor Cowie (Maddin Sr.), Herdis Maddin (Avó), Marion Martin (Mrs. Maddin).

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