Etiquetas

, , , , , , , , , ,

Caccia TragicaSinopse:

Michele (Massimo Girotti) e Giovanna (Carla Del Poggio) não só acabaram de se casar, como regressam à sua terra com imenso dinheiro. Este dinheiro são todas as economias de uma cooperativa de camponeses a que pertencem, necessário para iniciar o trabalho da terra que vão explorar a bem de todos ao abrigo de um novo programa do governo, para voltar a ter terras produtivas agora que a guerra terminou. Só que no caminho são assaltados por um bando que tem vindo a fazer o mesmo a outras cooperativas. Michelle reconhece um dos assaltantes, Alberto (Andrea Checchi), que fora seu companheiro num campo de prisioneiros. Este rapta Giovanna como refém, para que Michelle não o denuncie.

Inicia-se então uma caçada ao bando por toda a região, enquanto Alberto se vê dividido entre as promessas de vida fácil da sua amante, a espia conhecida como Lili Marlene (Vivi Gioi), e a lealdade ao povo que sente estar a trair.

Análise:

Giuseppe De Santis, considerado o melhor realizador do período neo-realista italiano, após a trindade Rossellini-Visconti-De Sica, realizou em 1947, numa parceria com o futuro realizador Carlo Lizzani (numa equipa que incluia ainda Michelangelo Antonioni), o seu primeiro o filme, “Caccia Tragica”. Como seria habitual na sua obra neste período, o filme mostra o interesse de De Santis pela luta dos camponeses e as transformações sociais a decorrer no pós-guerra.

Essa realidade é-nos trazida na descrição da formação de cooperativas agrícolas, nas quais os camponeses se agregavam para ter fundos suficientes para trabalhar a terra sem necessidade de patrões. Estas terras eram cedidas ao abrigo de programas governamentais, que tinham em vista o rápido crescimento da agricultura, depois de anos de guerra que deixaram as terras por cultivar. Acrescia ainda o problema dos campos minados, demonstrado não só na explícita luta dos trabalhadores para os limpar, como nos efeitos visíveis (as mutilações de alguns camponeses).

É nesse contexto de reforma agrária que decorre a história. Esta inicia-se com um roubo, perpretado pelo um bando de Daniela (Vivi Gioi) a ex-espia de guerra conhecida como Lili Marlene. O bando rouba o dinheiro juntado a custo pela comunidade a que pertencem os recém-casados Michele (Massimo Girotti) e Giovanna (Carla Del Poggio). Sem este dinheiro todas as máquinas e animais lhes são retirados, deixando a comunidade sem esperança de sobreviver à fome.

Sem alternativa, sob a liderança de Giuseppe (Vittorio Duse), os camponeses colocam-se ao serviço da polícia, mobilizando também as comunidades vizinhas, numa caça ao bando de ladrões. O drama torna-se assim palpável, quando é todo um povo que é vitimizado pela acção de um grupo de bandidos sem escrúpulos.

Com o fio condutor dado pelo bando de Daniela e do seu amante Alberto (Andrea Checchi), o filme é acima de tudo um retrato social, sem esconder as suas preocupações de esquerda (De Santis era militante do Partido Comunista Italiano), que dão voz aos camponeses, às famílias pobres e aos regressados de guerra. São vários os momentos em que os discursos soam a autênticos comícios de reivindicação, em que as condições miseráveis de um povo são postas a nu, e o clamor por justiça social, pão e terra a quem a trabalha, ecoam com vigor.

É, aliás, num desses momentos, que se dá a mudança em Alberto, que começara envolto no cinismo de Daniela, convencido que só roubando se pode triunfar, para, ao ser reconhecido como um daqueles que combateram e sofreram, ele se envergonha de ter traído os seus companheiros. Essa comoção resulta no momento mais trágico do filme, com o cerco à casa de Daniela, e o confronto final entre Alberto e Daniela.

Com Michele e Giovanna (cuja história romântica nunca se sobrepõe ao drama social) a representar a esperança no bem, cabe à desiquilibrada Daniela, com as suas ligações nazis, representar o mal puro (numa interpretação inesquecível de Vivi Gioi, que venceria o Nastro d’Argento de melhor actriz secundária). No meio fica Alberto, o catalizador da transição, preso entre o caminho fácil do crime e o passo difícil de aceitar o seu erro e castigo.

Giovanna e toda a sua comunidade. A sua redenção é simbolizada pelo atirar de torrões de terra sobre as suas costas. Já para Daniela, que nunca se arrependeu, não poderia haver perdão.

Com uma mensagem moral e política muito forte, Giuseppe De Santis (que receberia com este filme o Nastro d’Argento de Melhor Realizador) caminha numa linha fina entre o realismo e a propaganda (de notar que o filme foi produzido pela Associazione Nazionale Partigiani d’Italia, associação de combatentes da resistência antifascista). Como habitual no Neo-realismo, é o povo o herói da sua história, e são as decisões colectivas aquelas que são apelidadas de correctas, tomadas numa exuberância e alegria próprias de quem faz apologia do triunfo da consciência colectiva na reforma social.

Na senda de recentes triunfos neo-realistas, “Caccia Tragica” causou ainda sensação no Festival de Veneza, abrindo o caminho a Giuseppe De Santis para sucessos como o mais conhecido “Arroz Amargo” (Riso Amaro, 1949).

Produção:

Título original: Caccia Tragica; Produção: Associazione Nazionale Partigiani d’Italia (ANPI Film) / Dante Film; País: Itália; Ano: 1947; Duração: 85 minutos; Distribuição: Libertas Film; Estreia: 4 de Novembro de 1947 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Giuseppe De Santis; Produção: G. Giorgio Agliani; História: Giuseppe De Santis, Carlo Lizzani, Lamberto Rem-Picci; Argumento: Corrado Alvaro, Michelangelo Antonioni, Umberto Barbaro, Giuseppe De Santis, Carlo Lizzani, Gianni Puccini, Cesare Zavattini; Fotografia: Otello Martelli (preto e branco); Montagem: Mario Serandrei; Assistentes de Realização: Sergio Grieco, Carlo Lizzani; Design de Produção: Carlo Egidi; Cenários: Carlo Egidi; Figurinos: Anna Gobbi; Caracterização: Guglielmo Bonotti; Música: Giuseppe Rosati; Direcção de Orquestra: Fernando Previtali; Director de Produção: Marcello Caccialupi.

Elenco:

Vivi Gioi (Daniela ‘Lili Marlene’), Andrea Checchi (Alberto), Carla Del Poggio (Giovanna), Vittorio Duse (Giuseppe), Massimo Girotti (Michele), Checco Rissone (Mimì), Umberto Sacripante (O Coxo), Alfredo Salvatori (Um Feitor), Folco Lulli (Um Feitor), Michele Riccardini (O Comissário), Eugenia Grandi (Sultana), Piero Lulli (O Motorista), Guido Della Valle (O Alemão), Ermanno Randi (Andrea), Massimo Rossini (O de camurça), Enrico Tacchetti (O Contabilista).

Anúncios