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Midnight in ParisDepois de Londres e Barcelona, Paris foi a terceira cidade europeia a servir de base à rodagem de um filme de Woody Allen. Novamente com dinheiro da Mediapro de Barcelona, distribuição da Sony e uma equipa de produção próxima da dos seus filmes anteriores, Woody Allen contava agora com Owen Wilson como protagonista, ao lado de Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kathy Bates, Corey Stoll, Michael Sheen, Adrien Brody, Tom Hiddleston e Alison Pill, entre outros actores famosos.

Sinopse:

Roy (Owen Wilson) é um escritor de argumentos cinematográficos, que quer mudar de carreira tornando-se autor de livros. A sua passagem por Paris com a noiva (Rachel McAdams) traz-lhe a inspiração de que necessita, e a nostalgia da época (os anos 1920) que sente serem os melhores em que poderia ter vivido.

Um dia, enquanto caminha pela noite de Paris, é convidado a entrar num carro antigo, e para seu espanto vê-se transportado aos anos 20, convivendo com Scott Fitzgerald, Picasso, Dalí, Hemingway e Gertrude Stein. Aí vai também apaixonar-se por Adriana, a musa de Picasso, que preferia ter vivido na Belle Époque.

Análise:

Se é verdade que Woody Allen tem um universo temático muito homogéneo (para os seus detractores, muito repetitivo), é também verdade que com “Meia-noite em Paris” ele prova que não interessa se se conta sempre a mesma história, desde que se consiga contá-la de modo refrescante e inovador. Isso é o que acontece neste filme, filmado numa cidade que Allen confessadamente admira, à qual já fizera inúmeras referências como o lugar utópico onde um dia gostaria de viver, e onde chegou mesmo a colocar o seu protagonista a morar em “Toda a Gente diz que Te Amo”.

Essa admiração fica desde logo expressa na sequência inicial, um conjunto de “postais ilustrados” que se sucedem sem palavras, mostrando alguns dos lugares para Allen mais belos de Paris. Mais tarde o seu protagonista reforçará esta ideia, dizendo que não há obra de arte mais bela que Paris, pois cada esquina, cada rua, cada recanto da cidade é arte em movimento.

Owen Wilson foi o actor escolhido para fazer de Woody Allen, tal como antes dele Larry David, Will Ferrell, Jason Biggs, Kenneth Branagh e tantos outros. Wilson repete maneirismos, a gaguez, o tom de voz impaciente, e os constantes atropelos e desajustes no diálogo com outrém, tão típicos de Woody Allen. É além disso (através do seu personagem, Gil) mais um autor vivendo um bloqueio criativo (embora neste caso seja mais uma crise de insegurança, que um bloqueio), tal como Josh Brolin tinha sido no filme anterior “Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos”, e tantos outros personagens foram antes de si. Tal como acontece a Allen, Gil constrói um livro sobre um personagem baseado em si próprio, que vive para a nostalgia. Curioso ainda é como, ao descobrir a infidelidade da mulher desse personagem, Gil descobre o que se passa na sua própria vida.

Como habitual no antagonismo doméstico alleniano, Gil vive com a pragmática Inez (Rachel McAdams), que não aceita os seus sonhos utópicos, e lhe refuta as ideias. Além disso Gil protesta contra a família de Inez, por ser Republicana; despreza pseudo-intelectuais como o anedótico Paul (Michael Sheen); e é um apaixonado pelo Jazz dos anos 1920. Por mais que Woody Allen o negue, com Gil consegue mais um protagonista que nos faz pensar estarmos em território autobiográfico.

Deixando de lado as semelhanças com temas anteriores, o filme ganha vida quando somos transportados no tempo, de um modo fantasioso, que o coloca no campo do realismo mágico. Este tipo de fantasia, que já entrara na obra de Allen em “A Rosa Púrpura do Cairo” e em “Alice”, parecia arredada há alguns anos, para ser aqui o motivo narrativo do tema que desde logo se insinua. E este (explicado pelo próprio Paul, como o mito da era dourada), é a nostalgia que cada geração sente por uma era anterior que supõe ser melhor que a sua. Não é afinal esse um mal de que padece o próprio Allen com tantas referências ao início do século XX?

É com isso em mente que Gil se vê incrivelmente transportado para a Paris dos anos 20, onde concretiza sonhos impensáveis. Ouve música tocada pelo próprio Cole Porter, convive no círculo boémio do casal Fitzgerald, discute literatura com Hemingway e Gertrude Stein, vê dançar Joséphine Baker, assiste à apresentação de pinturas de Picasso e conversa com surrealistas como Dalí, Buñuel ou Man Ray. Gil sente-se em casa num tempo diferente do seu, e por isso, ao conhecer a bela Adriana (Marion Cotillard), a mais recente musa de Picasso, Gil sabe que ali que quer viver.

Mas é a própria Adriana quem lhe ensina a lição final quando, numa viagem dentro da viagem, o casal é transportado para a Belle Époque de Degas, Gaugin e Toulouse-Lautrec. E se Adriana sente estar na sua época de sonho, surpreende tanto Gil, por estar descontente com os anos 20, como a si própria, ao ver que aqueles artistas renegam a sua época, desejando ter vivido no Renascimento. A conclusão de Gil é óbvia, e espelha as palavras anteriores de Paul: cada época venera uma anterior como uma utopia, pois na sua tem de conviver com os problemas, que por vezes ofuscam a beleza que todas as épocas têm.

É só após esta evidência que Gil ganha coragem para romper com a sua vida anterior, e aceita o risco da sua nova profissão, numa nova cidade, a Paris do presente, com beleza e problemas. Por isso o final (com Gil passeando à beira Sena), no reencontro com uma rapariga parisiense do seu tempo (Gabrielle, interpretada pela estrela em ascenção, Léa Seydoux), com quem até parece ter algo em comum, é sinónimo dessa esperança encontrada na realidade, posto para trás o escapismo da utopia, mas mantendo a nostalgia como uma inspiração saudável.

Com um enredo inteligente e desafiador, Allen dá-nos uma lição humana de um modo singelo e cândido, mas plena de encantamento. Fá-lo acima de tudo com humor e autocrítica, conseguindo brincar com os clássicos, como só pode fazer quem os admira, mas sabe que eles são imperfeitos e mortais. Por isso os retratos de Salvador Dalí (Adrien Brody), Ernest Hemingway (Corey Stoll), Zelda Fitzgerald (Alison Pill) ou Gertrude Stein (Kathy Bates) são inesquecíveis e hilariantes.

Deve-se também destacar as interpretações dos personagens “contemporâneos”, Michael Sheen, Rachel McAdams, e sobretudo o próprio Owen Wilson, que parece feito para este papel de um Woody Allen mais jovem. Também de salientar é a direcção artística, admirável, como habitual nos filmes de época de Woody Allen, mesmo se já não contando com o trabalho de Santo Loquasto.

“Meia-noite em Paris” foi também o regresso à aclamação de Woody Allen, tendo recebido o Oscar e o Globo de Ouro para Melhor Argumento, e nomeações para Oscar de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Direcção Artística. O filme tornou-se também um dos mais rentáveis da carreira de Woody Allen.

Produção:

Título original: Midnight in Paris; Produção: Mediapro / Versátil Cinema / Gravier Productions / Pontchartrain Productions / Televisió de Catalunya (TV3); Produtor Executivo: Javier Méndez; País: EUA/Espanha; Ano: 2011; Duração: 90 minutos; Distribuição: Sony Pictures Classics; Estreia: 11 de Maio de 2011 (Cannes Film Festival, França), 20 de Maio de 2011 (EUA), 15 de Setembro de 2011 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Jaume Roures; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin, Raphaël Benoliel; Fotografia: Darius Khondji (filmado DeLuxe); Design de Produção: Anne Seibel; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Sonia Grande; Direcção Artística: Jean-Yves Rabier; Cenários: Hélène Dubreuil; Efeitos Especiais: Georges Demétrau; Caracterização: Thi Thanh Tu Nguyen.

Elenco:

Kathy Bates (Gertrude Stein), Adrien Brody (Salvador Dalí), Carla Bruni (Guia do Museu), Rachel McAdams (Inez), Marion Cotillard (Adriana), Michael Sheen (Paul Bates), Owen Wilson (Gil Pender), Nina Arianda (Carol Bates), Kurt Fuller (John, Pai de Inez), Tom Hiddleston (F. Scott Fitzgerald), Mimi Kennedy (Helen, Mãe de Inez), Alison Pill (Zelda Fitzgerald), Léa Seydoux (Gabrielle), Corey Stoll (Ernest Hemingway), Yves Heck (Cole Porter), Sonia Rolland (Joséphine Baker), Thérèse Bourou-Rubinsztein (Alice B. Toklas), Marcial Di Fonzo Bo (Pablo Picasso), Emmanuelle Uzan (Djuna Barnes), Tom Cordier (Man Ray), Adrien de Van (Luis Buñuel), Serge Bagdassarian (Detective Duluc), Gad Elmaleh (Detective Tisserant), David Lowe (T.S. Eliot), Atmen Kelif (Médico do Hotel), Yves-Antoine Spoto (Henri Matisse), Laurent Claret (Leo Stein), Catherine Benguigui (Recepcionista do Maxim’s), Vincent Menjou Cortes (Henri de Toulouse-Lautrec), Olivier Rabourdin (Paul Gauguin), François Rostain (Edgar Degas), Marianne Basler (Realeza de Versailles), Michel Vuillermoz (Realeza de Versailles).