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Il BanditoSinopse:

Ernesto (Amedeo Nazzari) e Carlo (Carlo Campanini) regressam de um campo de prisioneiros após o fim da II Guerra Mundial, ambos com o sonho de reverem os seus. Mas se Carlo regressa à sua casa de campo, onde o espera a filha Rosetta, já Ernesto, em Turim, não tem nada que o espere, uma vez que a mãe e a irmã Maria são tidas como mortas. Sem conseguir emprego, Ernesto procura consolo num bordel, mas reconhece a irmã Maria (Carla Del Poggio) como uma das prostitutas. Resolvido a arrancá-la do bordel, Ernesto luta com o proprietário, e acidentalmente Maria é atingida mortalmente. Ernesto mata o proprietário e foge, sendo recolhido por Lidia (Anna Magnani), uma mulher que vive do crime, girando à volta de um bando de gangsters. Ernesto caminha então para o abismo, dedicando-se ao crime, e encontrando as últimas résteas de dignidade nas cartas que troca com a pequena Rosetta, que sem o conhecer o trata por tio.

Análise:

“O Bandido” foi o terceiro filme de Alberto Lattuada, um realizador que ficaria conhecido como um dos expoentes máximos do Neo-realismo italiano. Embora mais dramático, e narrativamente mais convencional que, por exemplo, Rossellini, Lattuada consegue em “O Bandido” um filme sincero, que tem por base o retrato social da Itália do pós-guerra, vivendo feridas que o armistício não seria suficiente para curar.

A imagem desse pós-guerra é Ernesto, interpretado por Amedeo Nazzari, um actor incrivelmente parecido com Errol Flynn. Ernesto regressa de um campo de prisioneiros à sua natal Turim, que encontra destruída, e onde é difícil encontrar um emprego, e mesmo sobreviver de um modo digno. O regresso a casa é por isso um conflito de sentimentos, onde a excitação inicial é substituída pela desilusão de quem não encontra mais a sua mãe, irmã ou mesmo a sua casa. Perdido na cidade que antes fora sua, Ernesto é uma espécie de anti-herói à luz daqueles do Film Noir americano, que ao mesmo tempo começava a dar os seus passos do outro lado do Atlântico. Vítima da selva social que encontra, Ernesto dá o último passo em direcção ao abismo quando encontra a sua irmã Maria (Carla Del Poggio), agora uma prostituta.

De notar que já Rossellini em “Roma, Cidade Aberta” e “Paisà” usara o tema da prostituição como exemplo da degradação da mulher, como modo de fazer face às dificuldades económicas, sendo em “O Bandido” esta a gota de água que vai lançar Ernesto numa nova vida, acabando de vez com qualquer esperança de uma reconstrução, onde o paralelo entre reconstrução da dignidade individual e a reconstrução física do país é novamente evidente como nos outros cineastas neo-realistas.

Abraçando a vida do crime, que lhe é sugerida pela cínica e predadora Lidia (Anna Magnani), Ernesto surge-nos no segundo acto como um gangster que parece ter perdido qualquer traço de humanidade que o ligue ao inocente soldado que víramos regressar no início. Tal como Lidia (uma verdadeira mulher fatal, que usa os homenss sem escrúpulos nem pudor), Ernesto substitui o seu coração por uma máscara de cinismo, liderando o bando com frieza e crueldade, de modo quase mecânico.

Mas o antigo Ernesto encontra-se na relação que mantém à distância com a família de Carlo (Carlo Campanini), o seu antigo companheiro de armas. Nas cartas de Rosetta (filha de Carlo, interpretada pela jovem Eliana Banducci), Ernesto recupera a inocência, e lembra-se de quem um dia foi, mantendo esse seu lado escondido, preservado em segredo, como que para usar um dia mais tarde, noutras circunstâncias, ou noutra vida.

Isso transporta-nos ao terceiro acto, quando o bando está em fuga após uma esperada traição de Lidia, e a providência coloca Rosetta nos braços de Ernesto. Sem se dar a conhecer, Ernesto vive, no curto dia em que a acompanha a casa, a emoção de proteger a sua “sobrinha”, naquelas que são as cenas mais comoventes do filme. Por ela Ernesto aceita sacrificar-se, como quem deseja uma redenção, para sentir que merece o amor daquela que, sem o conhecer, confiava nele com todo o coração.

De enorme conteúdo dramático, “O Bandido” afasta-se das formas espartanas de outros filmes neo-realistas, mantendo no entanto o pano de fundo de retrato social, aqui visto pelos olhos de um gangster. Lattuada filma com perfeita aceitação da sua influência expressionista, compondo um filme vivo e comovente. Ao seu lado do seu conteúdo dramático, filme destaca-se ainda pela ambiguidade evidente nas interpretações, com Anna Magnani e Carla di Poggio, que em poucas palavras (recordar a expressão ácida de Lidia: “a tua sobrinha também vai crescer e ser uma mulher”) e gestos, nos trazem a atmosfera pessimista e derrotada do seu tempo.

“O Bandido” concorreu ao primeiro Festival de Cannes, e valeu a Amedeo Nazzari o prémio “Nastro d’Argento” (Laço de Prata) do cinema italiano, tendo sido fundamental no firmar da carreira de Alberto Lattuada.

Produção:

Título original: Il Bandito; Produção: Lux Film / Dino de Laurentiis Cinematografica; País: Itália; Ano: 1946; Duração: 80 minutos; Distribuição: Lux Film; Estreia: Setembro de 1946 (Festival de Cannes, França), 5 de Outubro de 1946 (Itália), 16 de Março de 1949 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alberto Lattuada; Produção: Luigi Rovere, Dino de Laurentiis; História: Alberto Lattuada; Argumento: Oreste Biancoli, Mino Caudana, Ettore Maria Margadonna, Alberto Lattuada, Tullio Pinelli, Piero Tellini; Fotografia: Aldo Tonti (preto e branco); Assistente de Realização: Aldo Buzzi; Montagem: Mario Bonotti; Design de Produção: Luigi Borzone; Director de Produção: Mario Canonica; Cenários: Luigi Rovere; Música: Felice Lattuada; Direcção de Orquestra: Ugo Giacomozzi.

Elenco:

Anna Magnani (Lidia), Amedeo Nazzari (Ernesto), Carla Del Poggio (Maria), Carlo Campanini (Carlo Pandelli), Eliana Banducci (Rosetta Pandelli), Mino Doro (Mirko), Folco Lulli (Andrea), Mario Perrone (O Corcunda), Amato Garbini (Dono do Bordel), Gianni Appelius (Calligaris, dito “signorina”), Ruggero Madrigali (O Traficante de Mulheres), Thea Aimaretti (Tecla).

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