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PaisàSinopse:

Através de seis episódios distintos, acompanhamos algumas incidências do avanço aliado em Itália e retirada Nazi, no final da II Guerra Mundial. No primeiro assistimos ao desembarque em Sicília e primeiros contactos com a população. No segundo vemos como uma criança de Nápoles se tenta aproveitar da bebedeira de um soldado para o roubar. No terceiro vemos em Roma como um soldado americano está desiludido com o comportamento das mulheres, no início genuinas, e meses depois aproveitadoras. No quarto, em Florença assistimos à tentativa de um homem e uma mulher em penetrarem nas linhas de combate entre resistência e alemães, para terem notícias dos seus. No quinto, num mosteiro nos Apeninos Emilianos, três capelães de guerra visitam os monges locais, e têm uma lição de fé. Finalmente no sexto, no Vale do Pó, a resistência é ainda maltratada em escaramuças nos pântanos.

Análise:

Roberto Rossellini, habitualmente considerado o iniciador do neo-realismo italiano, graças ao seu filme “Roma, Cidade Aberta”, tinha nesse filme ainda um drama convencional, usando um elenco profissional, e cenários construídos, que vinha na sequência do cinema produzido antes. Já com “Libertação” afastava-se bastante mais das convenções da narrativa cinematográfica.

Ao decidir-se por um filme em seis episódios distintos, sem repetição de personagens, Rossellini está desde logo a mostrar que a história não depende da identificação com um herói. Afinal, na boa tradição neo-realista, o herói é o povo, ou neste caso os soldados, e as vítimas da guerra. Fracturando a narrativa em seis partes, é a guerra quem ganha o papel de protagonista, mais que os os personagens que a lutam.

Indo mais longe na sua aspiração de um cinema realista, Rossellini (novamente em parceria com Sergio Amidei e Federico Fellini) filma esses episódios quase como documentários, onde o uso de imagens de noticiários se confunde propositadamente com a ficção, esta filmada com a mesma fotografia mal iluminada e granulada das então tão famosas fitas de noticiários. Uma narração fria e imperativa a abrir e fechar cada sequência, dá ainda uma maior sensação de estarmos a assistir a pequenos documentários de guerra.

Seguindo outra das convenções do neo-realismo, em “Libertação” há um constante contracenar entre actores profissionais, e não profissionais. Conta-se que Rossellini a escolheu Carmela Sazio, para a primeira história, por a ver passar na rua. Do mesmo modo alguns soldados americanos eram de facto soldados, dois dos capelães da quinta história eram-no de facto, e Cigolani, o guerrilheiro da última história era mesmo um conhecido líder guerrilheiro. Os próprios locais de filmagens foram escolhidos para serem o mais fiéis possíveis àqueles se que pretendia mostrar. Exemplo disso são os pântanos do Vale do Pó, onde é filmada a sexta história.

As histórias seguem uma sequência tanto cronológica como geográfica, dando-nos exemplos da progressão aliada para norte de Itália, à medida que as tropas alemãs recuavam. Como tema comum aos seis filmes parecem estar as relações entre os italianos e os seus libertadores. Nessas relações é também visível uma progressão, começando por ser de total desconfiança (onde o sacrifício de Carmela por um soldado, é incompreendido pelos outros que pensam que ela o matou), acabando por ser de total comunhão (com o oficial americano a morrer pelos seus irmão de armas italianos). Em paralelo o papel da língua, do contacto (por vezes forçado), e do choque cultural, são os temas que conduzem as seis histórias. Afinal, convém notar que “paisà”, a palavra que dá nome ao filme, é uma versão da palavra “paisano”, que tem como diferentes significados “camponês”, “conterrâneo”, “vizinho” e mesmo “amigo”, sendo uma palavra habitual como italianos e americanos se tratavam mutuamente nesse período de libertação.

Assim, história a história, o filme começa com um desembarque em Sicília, onde os soldados americanos são recebidos com desconfiança, e a língua é uma barreira quase intransponível. O desenvolvimento leva a que a italiana (Carmela Sazio) que serve de guia, morra por um soldado americano (Robert Van Loon), embora os outros pensem que ela o matou.

A segunda história gira em torno de um rapaz napolitano (Alfonsino) que na sua luta por sobrevivência se prepara para roubar um Polícia Militar (Dots M. Johnson). Este vem a descobrir o rapaz mais tarde, mas descobre também as condições miseráveis em que ele vive, compadecendo-se dele.

A terceira história, é também a mais dramática das seis, com um olhar sobre a prostituição das mulheres romanas, que antes da libertação tinham uma vida mais normal, e acolheram esta libertação como uma dádiva, sem esperarem que ela as conduzisse a uma maior degradação social. Isto é contado na história de Francesca (Maria Michi), que uma noite encontra Fred (Gar Moore), um soldado que, num flashback ficamos a saber, Francesca conhecera no dia da libertação, quando tudo parecia cor-de-rosa (e em que ambos estão a aprender a língua um do outro). Essa Francesca é para Fred o sinónimo da mulher pura que já não existe mais numa Roma podre. Embriagado, Fred não reconhece Francesca, que o deixa no hotel com a sua morada, algo que ele ao acordar desdenha como “a morada de mais uma prostituta”, enquanto Francesca, acreditando poder voltar atrás naquele reencontro, o espera em vão.

A quarta história passa-se nas escaramuças entre resistência e alemães nas ruas de Florença, onde uma enfermeira americana (Harriet Medin) tenta encontrar aquele que viera procurar e é agora um líder da resistência conhecido como Lupo.

Na quinta história este choque cultural torna-se mais metafísico com a questão religiosa a tomar o lugar, num mosteiro franciscano do Apenino Emiliano, onde a guerra parece não ter feito estrago. Por entre a pobreza de alimentos, os monges decidem jejuar em oração pelo capelão católico que os visita, por este ter como companheiros um protestante e um judeu, que nunca tentou converter. A lição de fé e humildade que o capelão católico (William Tubbs) diz ter aprendido é porventura o mais enigmático momento do filme.

Finalmente a última história mostra-nos o dia a dia de um conjunto de guerillheiros comandados por um oficial americano da OSS (Dale Edmonds), que vão sendo cercados e capturados pelos alemães, e chacinados sem piedade.

Embora não tão bem sucedido como “Roma, Cidade Aberta”, “Libertação” voltou a chamar a atenção internacional sobre Rossellini, e o filme receberia mesmo a nomeação para o Oscar de Melhor Argumento Original.

Produção:

Título original: Paisà; Produção: Organizzazione Film Internazionali (OFI); País: Itália; Ano: 1946; Duração: 120 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) (Itália); Estreia: 18 de Setembro de 1946 (Festival de Veneza, Itália), 21 de Janeiro de 1949 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Roberto Rossellini; Produção: Rod E. Geiger, Roberto Rossellini, Mario Conti [não creditado]; História: Sergio Amidei, Klaus Mann, Federico Fellini, Marcello Pagliero, Alfred Hayes, Roberto Rossellini, Vasco Pratolini [não creditado]; Argumento e Diálogos: Sergio Amidei, Federico Fellini, Roberto Rossellini, Rod E. Geiger; Diálogos em inglês: Annalena Limentani; Fotografia: Otello Martelli (preto e branco); Montagem: Eraldo Da Roma; Director de Produção: Ugo Lombardi; Música: Renzo Rossellini.

Elenco:

Episódio I: Carmela Sazio (Carmela), Robert Van Loon (Joe, Soldado Americano), Benjamin Emanuel (Soldado Americano), Raymond Campbell (Soldado Americano), Harold Wagner (Harry, Soldado Alemão), Albert Heinze (Soldado Alemão), Merlin Berth (Merlin, Soldado Americano), Mats Carlson (Swede, Soldado Americano), Leonard Parrish [como Leonard Penish (Soldado Americano).
Episódio II: Dots M. Johnson (Joe, O PM Americano), Alfonsino Pasca (Pasquale).
Episódio III: Maria Michi (Francesca), Gar Moore (Fred, Soldado Americano).
Episódio IV: Harriet Medin [como Harriet White] (Harriet, a Enfermeira), Renzo Avanzo (Massimo).
Episódio V: William Tubbs (Capitão Bill Martin, o capelão Católico).
Episódio VI: Dale Edmonds (Dale, o Agente da OSS), Allan (Allan, Soldado Americano), Dan (Dan Soldado Americano), Roberto Van Loel (Soldado Alemão), Cigolani (Cigolani, Membro da Resistência).