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You Will Meet a Tall Dark StrangerDe regresso Londres, Woody Allen voltava à fórmula da constelação de estrelas, para mais um filme de ensemble. O elenco é baseado em actores ingleses, com dois americanos e um espanhol: Anthony Hopkins, Naomi Watts, Josh Brolin, Antonio Banderas, Freida Pinto, Gemma Jones e Pauline Collins. Para além da sua habitual produção (Letty Aronson e Stephen Tenenbaum, Helen Robin), Allen voltou a confiar numa equipa mista de catalães e ingleses, muitos dos quais já haviam trabalhado consigo. Com dinheiro da Catalunha (Mediapro), o filme voltaria a ser distribuído pela Sony, como acontecera com o seu filme precedente. Este é ainda o primeiro filme de Allen após a morte do seu empresário de sempre Charles H. Joffe.

Sinopse:

Roy (Josh Brolin) é um escritor em crise de criatividade, cujo casamento com Sally (Naomi Watts) se ressente disso. O casal é mantido pela mãe de Sally, Helena (Gemma Jones), uma mulher a lidar com um divórcio, refugiando-se nas leituras de uma vidente para conseguir algum conforto. O seu ex-marido, Alfie (Anthony Hopkins), por seu lado dá largas à sua fúria de viver como adolescente, decidindo casar com uma mulher mais nova, a ex-prostituta Charmaine (Punch).

Entretanto o casamento de Roy e Sally ganha novos revezes, pois não só Roy se começa a interessar por Dia (Freida Pinto) a vizinha que espia da sua janela, como Sally se sente a apaixonar pelo seu patrão Greg (Antonio Banderas).

Análise:

O regresso de Woody Allan à Europa foi também um regresso a temas e formas antigas. Regressava a narração em off, a história de ensemble com histórias entrecruzadas (como já não era filmada por Allen desde “Melinda e Melinda”) e regressavam os personagens da classe média-alta de pretensões intelectuais, ligada ao mundo da arte. Isto é, a paleta de personagens e situações de Woody Allen voltava a inundar-se dos temas que marcaram os seus filmes na década de 1990.

Como não podia deixar de ser, a história, que o narrador nos aponta como um conjunto de situações que pretendem ilustrar a falta de sentido no universo, inicia-se com um escritor que está bloqueado, sem conseguir inspiração que o faça voltar a produzir um trabalho que se equipare ao seu cada vez mais longínquo primeiro livro.

Esta é apenas a primeira das situações clichè de Allen, aqui na pele de Josh Brolin, o autor cuja impotência criativa começa a transbordar para um casamento que é mantido financeiramente pela sogra, Helena (Gemma Jones), e pela paciência da esposa Sally (Naomi Watts num forte sotaque britânico), desejosa de deixar o mundo de ilusões, engravidar e iniciar uma família, o que faz dela uma versão moderna dos antigos habituais personagens de Mia Farrow.

O mundo das ilusões é de certo modo o tema que une as várias histórias, e é perfeitamente explícito na história de Helena, uma mulher que vê no dosmoronamento do seu casamento uma espécie de fim da sua vida. A sua única fonte de conforto são as leituras cada vez mais invasivas da vidente Cristal (Pauline Collins), que começa por simples reforços de optimismo (inicialmente aceites pela família, numa espécie de “whatever works”), até à convicção de que Helena já viveu vidas antigas. Helena vai a partir daí perseguir essas ilusões como força que a mantém viva.

Por seu lado, o ex-marido, Alfie (Anthony Hopkins) segue a ilusão de que pode voltar a ser jovem, tornando-se obcecado com a sua forma física, em sair com mulheres mais novas, e por fim a casar com alguém várias décadas mais nova (de novo o tema da diferença de idades, aqui sem o lado educacional de Pigmalião), para por fim descobrir da pior forma, o preço a pagar por uma ilusão forçada.

Quanto a Roy e Sally, passada a ilusão em que se tornara o seu casamento, esta é substituída por outras. Sally, que trabalha em galerias de arte, persegue a ilusão de que talvez o patrão, Greg (Antonio Banderas) se sinta atraído por si, abandonando essa ilusão para alimentar o sonho de ter a sua própria galeria.

Já Roy vê a sua ilusão materializar-se na forma da jovem vizinha, Dia (Freida Pinto), que da sua janela o seduz sem o saber. É curioso o facto de ao mudar-se para casa de Dia, após romper com a esposa, seja a imagem de Sally à janela que o atrai, na evidência de que se deseja sempre mais o que não se pode ter.

E algo que Roy parece não conseguir vir a ter é um novo sucesso literário, o que o faz roubar a obra de um amigo, após um acidente o deixar em coma. Há aqui um pequeno revisitar do tema de “Crime e Castigo”. Neste caso não chegamos a saber como irá Roy lidar com o seu crime, uma vez que fica em aberto a possibilidade de ele ser descoberto.

Tal como o filme se iniciara, termina com a voz do narrador que nos mostra que talvez nada mesmo tenha sentido. Essa constatação sublinha, mais do que talvez se pretenda, o próprio filme, feito de histórias banais, sem uma moral própria ou um desenlace evidente. São histórias do dia a dia, já antes filmadas, sem que nada de novo nos tragam, que nos deixam a sensação de não terem sido terminadas.

Os próprios actores parecem sentir-se perdidos em histórias que não são suas e, para além de Gemma Jones, fica no ar a ideia já recorrente de demasiados bons actores num filme de Allen não conseguirem o seu espaço de afirmação.

Ainda que fazendo jus à sua reputação de contador de histórias, “Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos” é geralmente considerado um dos mais fracos filmes da fase europeia de Woody Allen (sem dúvida o primeiro dos cinco que ignora a cidade em que foi filmado), tanto por culpa da falta de inovação nos seus temas, como pelo modo desapaixonado como os seus personagens evoluem.

Produção:

Título original: You Will Meet a Tall Dark Stranger; Produção: Mediapro / Versátil Cinema / Gravier Productions / Antena 3 Films / Antena 3 TV / Dippermouth; Produtor Executivo: Javier Méndez; País: EUA/Espanha; Ano: 2010; Duração: 94 minutos; Distribuição: Sony Pictures Classics; Estreia: 15 de Maio de 2010 (Cannes Film Festival, França), 22 de Setembro de 2010 (EUA), 20 de Janeiro de 2011 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Jaume Roures; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin, Nicky Kentish Barnes; Produtora Associada: Mercedes Gamero; Fotografia: Vilmos Zsigmond (filmado em Panavision, cor por DeLuxe); Design de Produção: Jim Clay; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Beatrix Aruna Pasztor; Direcção Artística: Dominic Masters; Cenários: John Bush; Efeitos Especiais: Stuart Brisdon; Caracterização: Sharon Martin, Uxue Laguardia, Sophie Slotover.

Elenco:

Antonio Banderas (Greg), Josh Brolin (Roy), Anthony Hopkins (Alfie), Gemma Jones (Helena), Freida Pinto (Dia), Lucy Punch (Charmaine), Naomi Watts (Sally), Pauline Collins (Cristal), Fenella Woolgar (Jane), Ewen Bremner (Henry Strangler), Christian McKay (Parceiro de Poker), Philip Glenister (Parceiro de Poker), Jonathan Ryland (Parceiro de Poker), Pearce Quigley (Parceiro de Poker), Neil Jackson (Alan), Jim Piddock (Peter Wicklow), Celia Imrie (Enid Wicklow), Roger Ashton-Griffiths (Jonathan), Anna Friel (Iris), Theo James (Ray), Christopher Fulford (Amigo de Ray), Johnny Harris (Amigo de Ray), Alex Macqueen (Malcolm Dodds), Anupam Kher (Pai de Dia), Meera Syal (Mãe de Dia), Joanna David (Mãe de Alan), Geoffrey Hutchings (Pai de Alan), Natalie Walter (Irmã de Alan), Shaheen Khan (Tia de Alan), Amanda Lawrence (Medium), Zak Orth (voz do Narrador).

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