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SciusciàSinopse:

Giuseppe (Rinaldo Smordoni) e Pasquale (Franco Interlenghi) são dois rapazes que, como habitual na Roma do pós-guerra, de condições sociais delicadas, ganham o seu próprio dinheiro, como engraxadores. Ambos alimentam um sonho, comprar o cavalo que já montam e de que ajudam a cuidar. Para isso não hesitam em deixar-se envolver em esquemas menos lícitos, como aquele que lhes é trazido pelo irmão de Giuseppe, e que resulta na sua prisão numa casa de correcção de menores. Aí, sentindo o peso do mundo abater-se sobre as suas jovens vidas, os dois amigos são testados e a sua amizade posta à prova de um modo que os marcará para sempre.

Análise:

Como seria habitual em várias das obras principais da corrente neo-realista, “Sciuscià” é uma história filmada do ponto de vista de crianças. É um hino à inocência perdida num mundo (uma cidade – Roma – em reconstrução) onde a infância é sinónimo de uma nova sociedade e um novo país, que deverá nascer das cinzas do fascismo e da guerra.

“Sciuscià” é um retrato social dessa Roma do pós-guerra, que Vittorio De Sica filma fazendo uso de actores não profissionais. É também o grito que, na sua inocência, pretende significar “shoeshine” (sapatos engraxados), modo com que os jovens engraxadores tentam chamar a si a atenção dos clientes americanos, detentores de dinheiro e da esperança de um novo mundo.

A história, que passou pelas mãos de alguns dos mais célebres argumentistas do período neo-realista, segue a vida de Giuseppe e Pasquale, dois amigos, bem intencionados, optimistas quanto ao seu sonho de comprarem o cavalo que montam e de que cuidam nos tempos livres. O cavalo significa por isso a liberdade (num sentido lato), e é com ele que se inicia (a sua chegada simbolizando a alegria e amizade dos jovens), e termina o filme (a sua partida simbolizando o fim da inocência).

Essa amizade, e esse optimismo dão uma aura de positivismo que só a inocência juvenil pode trazer, quando o mundo à volta é feito de dor e miséria, como o são a vida da família de Giuseppe, que ainda assim tem uma família, ao contrário de Pasquale. Essa mesma inocência será a perdição dos dois jovens, que são arrastados para um crime que não esperam.

A pena de Giuseppe e Pasquale constitui o longo segundo acto do filme, passado na prisão juvenil que (um pouco como uma alegoria do regime fascista – note-se como alguns dos funcionários ainda usam a saudação fascista, por força do hábito ainda não perdido num mundo de transformações desiguais) vai enegrecer-lhes as vidas com um tratamento desumano. Os exemplos são vários, desde a falta de alimentação, as celas sobrelotadas, as parcas chances de reformação de jovens tratados como delinquentes terminais, o cinismo dos directores, e a falta de cuidados de saúde, que causarão até a morte de um dos colegas de Pasquale.

Já longe dessa inocência gritada com “sciuscià”, a prisão é um ordálio onde se aprendem novos modos de estar, e sobretudo novos códigos de honra. Através deles Giuseppe e Pasquale sabem que devem suportar uma pena que não merecem, ao invés de denunciar os responsáveis. Sob o stress dos novos amigos, da pressão dos guardas e dos medos próprios da idade, os dois amigos vão sucumbir às forças que os vão dividir, perdendo a esperança da libertação. A história torna-se então uma corrida vertiginosa em direcção à tragédia, com as crianças a vestirem a pele de adultos, numa vida para a qual nunca foram preparadas.

Sendo um filme muito negro, não espanta talvez que visualmente muito se aproxime da escola expressionista alemã (evidenciando mais que qualquer outro a ligação entre esta e o cinema italiano do pós-guerra). Mesmo no tema (uma descida, que é sinónimo de um crescimento apressado e não desejado), “Sciuscià” é reminiscente da escola alemã que colocava as perturbações da alma humana como objecto da história. Por outro lado não será difícil encontrar neste filme ecos de “Aniki-Bobo” (1942) de Manoel de Oliveira, um filme que decididamente terá influenciado os realizadores italianos desta geração.

Como aconteceu com outros filmes neo-realistas do período, “Sciuscià” foi um fracasso na Itália, mas veio a ganhar um enorme prestígio internacionalmente, tendo mesmo recebido um Oscar honorário em 1948. Tal fez de Vittorio de Sica, um conhecido actor cómico em Itália, um nome a reter no panorama internacional.

Produção:

Título original: Sciuscià (Ragazzi); Produção: Societa Cooperativa Alfa Cinematografica; País: Itália; Ano: 1946; Duração: 87 minutos; Distribuição: Ente Nazionale Industrie Cinematografiche (ENIC) (Itália), Lopert Pictures Corporation (EUA); Estreia: 27 de Abril de 1946 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Vittorio De Sica; Produção: Paolo William Tamburella; Argumento: Sergio Amidei, Adolfo Franci, Cesare Giulio Viola, Cesare Zavattini; Fotografia: Anchise Brizzi (preto e branco); Música: Alessandro Cicognini; Design de Produção: Ivo Battelli, Giulio Lombardozzi; Montagem: Niccolò Lazzari; Director de Produção: Nino Ottavi.

Elenco:

Franco Interlenghi (Pasquale Maggi), Rinaldo Smordoni (Giuseppe Filippucci), Annielo Mele (Raffaele), Bruno Ortenzi (Arcangeli), Emilio Cigoli (Staffera).

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