Etiquetas

, , , , , , , , , , ,

La Cité des Enfants PerdusNuma sociedade distópica, crianças são raptadas por soldados, ao serviço de Krank (Daniel Emilfork), o cientista, que na sua remota ilha metálica, rouba os sonhos das crianças para prolongar a sua própria vida. Quando o pequeno Denree (Joseph Lucien) é raptado, One (Ron Perlman), o homem-força de uma feira, que o trata por irmão, inicia a sua busca para recuperar Denree. Durante essa busca One trava amizade com Miette (Judith Vittet), uma menina que o irá guiar e ajudar a destruir o mundo de pesadelo criado por Krank.

Análise:

Tal como já haviam feito em “Delicatessen” (1991), Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro voltaram, no seu segundo filme, “A Cidade das Crianças Perdidas”, a construir um universo distópico que parece saído de um pesadelo, onde decorre uma história que chega a ser de humor negro, tanto como de ficção científica, ou puro surrealismo.

Mas se em “Delicatessen” se adivinhavam traços pós-apocalípticos que colocavam a acção numa França do futuro, em “A Cidade das Crianças Perdidas” há uma quase total dissociação entre o tempo da história e o mundo que conhecemos, o que confere ao universo criado uma aura de conto de fadas pós-moderno. “A Cidade das Crianças Perdidas” é filmada nas habituais cores garridas, de Jeunet e Caro, com cenários tenebrosos, de textura metálica ultra-industrializada, de humidade e lixo, que enquadram todo um grotesco que vai dos rostos dos personagens, aos seus comportamentos e motivações.

A perspectiva infantil ajuda a criar a citada aura de conto de fadas (com algo de Dickens, no seus pobres mendigos explorados numa sociedade que os menospreza), numa história que circula em torno de sonhos, como a busca de uma inocência perdida, que um cientista louco tenta encapsular e absorver, na criação de um mundo artificial que concebe para a sua auto-preservação.

Krank (Daniel Emilfork) é o cientista que não consegue sonhar. Vive rodeado de estranhos seres, a mulher (Mireille Mossé), descrita como a princesa, é uma anã que zela pelo bem estar do cientista, ambos servidos por um conjunto de clones (todos interpretados por Dominique Pinon), e sob tutela de um cérebro sem corpo, o tio Irvin (voz de Jean-Louis Trintignant). Vivem numa torre metálica, no meio do mar, que é um labirinto tenebroso, misto de laboratório e masmorras.

Aí Krank aprisiona as crianças, com a ajuda dos soldados ciclopes, que trocam os olhos por uma visão artificial, e que em jeito de servos autómatos de um regime ditatorial, patrulham as ruas para impor a sua ordem.

A ordem natural é apenas perturbada pelas crianças, as únicas que mantêm alguma da inocência original, e que são por isso, os mediadores entre nós e aquele mundo surreal. São elas que desafiam as leis, são elas que roubam ou pedem esmola, são elas que sonham. Por fim, será uma delas, Miette (Judith Vittet), a acreditar no único adulto que ainda parece ter sentimentos, o gigante (e talvez um pouco debilitado mentalmente) One (Ron Perlman), que insiste em procurar o seu irmãozinho, um dos meninos raptados por Krank.

O filme torna-se assim uma viagem ao interior da cidade das crianças perdidas, com tudo o que esta tem de labiríntico, atemorizador e grotesco, num pesadelo que parece não ter fim, e que é também um desfile para a imaginação e cenário de Jeunet e Caro.

Com um misto de sonho e realidade, de conto de fadas e pesadelo, de alegoria e distopia, o enredo desenvolve-se após a descoberta do estranho mito da criação que, renegada pelo seu autor, coloca em causa todo o artificialismo humano, quando confrontado com a inocência no seu estado mais puro, como é o sonho de uma criança.

Produção:

Título original: La Cité des Enfants Perdus; Produção: Lumière Pictures Limited / Le Studio Canal+ / France 3 Cinéma / Centre National de la Cinématographie (CNC) / Cofimage 4 / Cofimage 5 / Studio Image / Canal+ / Procirep / Fonds Eurimages du Conseil de l’Europe / Club d’Investissement Média (Programme MEDIA de la Communauté Européenne) / Elías Querejeta Producciones Cinematográficas S.L. / Tele München Fernseh Produktionsgesellschaft (TMG) / Televisión Española (TVE) / Canal+ España / Phenix Images / Constellation Productions; País: França / Alemanha / Espanha; Ano: 1995; Duração: 112 minutos; Distribuição: Union Générale Cinématographique (UGC) (França), Sony Pictures Classics (EUA); Estreia: Maio de 1995 (Cannes Film Festival, França), 12 de Julho de 1996 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Pierre Jeunet, Marc Caro; Produção: Claudie Ossard; Director de Produção: Daniel Szuster; Argumento: Gilles Adrien, Jean-Pierre Jeunet, Marc Caro; Diálogos adicionais: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant; Música: Angelo Badalamenti; Fotografia: Darius Khondji (filmado em Technovision); Montagem: Hervé Schneid; Design de Produção: Marc Caro; Direcção Artística: Jean Rabasse; Cenários: Aline Bonetto; Figurinos: Jean-Paul Gaultier; Efeitos Especiais: Yves Domenjoud, Jean-Baptiste Bonetto, Olivier Gleyze, Jean-Christophe Spadaccini; Caracterização: Nathalie Tissier; Orquestração: Andrew Barrett; Direcção de Orquestra: Stepán Konícek.

Elenco:

Ron Perlman (One), Daniel Emilfork (Krank), Judith Vittet (Miette), Dominique Pinon (Escafandrista / Clones), Jean-Claude Dreyfus (Marcello), Geneviève Brunet (Irmã Polvo), Odile Mallet (Irmã Polvo), Mireille Mossé (Mademoiselle Bismuth), Serge Merlin (Gabriel Marie – Líder dos Ciclopes), Rufus (Peeler), Ticky Holgado (Ex-acrobata), Joseph Lucien (Denree), Mapi Galán (Lune, a Prostituta), Briac Barthélémy (Bottle), Pierre-Quentin Faesch (Pipo), Alexis Pivot (Tadpole), Léo Rubion (Jeannot), Guillaume Billod-Morel (Criança), François Hadji-Lazaro (Ciclope Assassino), Dominique Bettenfeld (Bogdan, Ciclope), Lotfi Yahya Jedidi (Melchior, Cicclope), Thierry Gibault (Brutus, Ciclope), Marc Caro (Irmão Ange-Joseph, Ciclope), Jean-Louis Trintignant (voz do Tio Irvin), Luong Ham-Chau (Artista de Tatuagens), Hong-Maï Thomas (Mulher do Artista de Tatuagens).

Anúncios