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Whatever WorksO périplo europeu de Woody Allen sofreu uma interrupção em 2009 com “Tudo Pode Dar Certo” com uma nova comédia rodada em Nova Iorque. O filme teve a fotografia de Harris Savides (estranhamente um norte-americano) e o regresso de Santo Loquasto no Design de Produção. Coube a Larry David o papel principal de um filme que havia sido escrito nos anos 70 a pensar em Zero Mostel. Ao lado de David estiveram Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Henry Cavill e Ed Begley Jr.

Sinopse:

Boris Yellnikoff (Larry David) é um homem de meia idade, que perdeu todo o entusiasmo de viver. Isso é-nos explicado em discurso directo, pelo próprio, que não vê senão aleatoriedade no universo e desilusão nas qualidades dos seres humanos. A sua eterna depressão e visão negativa do mundo vai sofrer um choque com a chegada inesperada de Melody (Evan Rachel Wood), que Boris tentará educar retirando-lhe todo o pingo de ilusão e inocência. Só que, sem o perceber, aos poucos acaba ele próprio tocado pela personalidade tão díspar da simples e inocente Melody.

Análise:

O regresso de Woody Allen a Nova Iorque, após três filmes consecutivos no Reino Unido e um em Espanha, traduziu-se também no regresso a temas clássicos da obra do autor, depois da frescura que o solo europeu parece ter insuflado na sua carreira. De facto “Tudo Pode Dar Certo” é uma espécie de filme irmão de “Anything Else – A Vida e Tudo o Mais” de 2003, onde o próprio Woody Allen desempenhava o papel do cínico, neurótico e misantropo homem de meia idade, eternamente deprimido, desiludido com a vida e os seres humanos, e em constante necessidade de impor as suas ideias a quem o quisesse ouvir.

Desta vez, nesse papel, temos Larry David, estrela da série de televisão “Curb Your Enthusiasm” e co-autor da famosa série “Seinfeld”. David (num papel escrito para Zero Mostel nos anos 70) interpreta Boris Yellnikov, um anteriormente brilhante físico, de ascendência judia, cínico em relação à vida e às pessoas, amargurado por casamentos falhados, deixando para trás uma tentativa de suicídio, e principalmente com uma necessidade compulsiva de convencer todos à sua volta da futilidade e aleatoriedade da vida, e da sua falta de fé no transcendente, nas relações, e no ser humano em geral.

Sem um rumo que o motive, Boris sabe que o melhor é deixar a sua vida seguir o seu caminho sem sentido, e agarrar-se às pequenas coisas que lhe dêem alguma estabilidade, aquilo que para ele funcionar (whatever works), e que é necessariamente diferente para cada pessoa.

Nesse sentido o filme é tanto uma pregação (a recorrente verborreia de Boris, falando directamente para a câmara, repetindo a todos as suas ideias negativas sobre tudo), como é ao mesmo tempo um panfleto existêncialista de tolerância e aceitação por tudo aquilo que pode tornar a vida mais aceitável para cada um, independentemente da sua educação, cultura, aspirações ou personalidade.

Exemplo dessa diversidade é Melody (Evan Racher Wood), o completo oposto de Boris (uma rapariga simples do sul tradicional, burra, sem educação, demasiado inocente), que idolatra Boris só porque ele é um génio (sem que ela chegue a perceber em que é que ele é génio) e que vai bebendo cegamente as ideias do seu mentor, misturando-as sem as perceber com os clichès do seu dia a dia. Como um Pigmalião (novamente um dos temas recorrentes de Allen, aqui evidenciado pela referência ao Professor Higgins de “My Fair Lady”). Boris tenta educar Melody (que ainda assim trata com uma condescendência exasperante), sem assumir que o optmismo e inocência desta lhe trás o equilíbrio que lhe faltava.

Na aceitação de uma relação sem sentido, bem como no deixar que a irreverência de Melody vá perturbando a sua controlada rotina, Boris vai encontrado esses pequenos “whatever works” que o ajudam a viver mais um dia.

O tema generaliza-se com a entrada de mais personagens, nomeadamente os pais de Melody. Primeiro é Marietta (Patricia Clarkson), que passa de uma devota religiosa e dona de casa reprimida, a uma artista de vanguarda que acredita no amor livre. Depois é a vez do pai, John (Ed Begley Jr.), que de um marido tradicional, para quem a facada masculina no matrimónio é natural, passa a assumir uma homossexualidade nunca antes adivinhada. Se bem que conduzidas de forma anedótica, estas histórias de transformação são uma hilariante forma de expandir essa filosofia “whatever works” que nos grita que, desde que encontremos alguma forma de felicidade, devemos agarrá-la, pois nada superior a isso existe.

Esta é a conclusão final de Boris, que assumindo o carácter de pregação de todo o filme insiste a dirigir-se-nos numa das várias vezes que um personagem de Woody Allen quebra a quarta parede.

A neurose, cinismo falta de fé e verborreia do protagonista (Larry David grita-nos a cada instante, num tom constante), associados às conversas intelectuais dos restantes personagens, o elogio ao estilo de vida nova-iorquino, a simplificação do papel feminino, o contraste estereotipado liberal-conservador, o exemplo do sexo na definição de relações, as piadas que parecem retiradas de Groucho Marx, e as constantes referências à sua educação judaica, fazem do filme, para muitos, uma exagerada aglutinação dos temas habituais à antiga persona cinematográfica de Woody Allen.

Isso tornou, aos olhos dos críticos, este filme um regresso a fórmulas gastas, tendo-lhe valido críticas negativas. Valem as interpretações de Evan Rachel Wood (brilhante e convincente como a anedótica, mas doce Melody) e Patricia Clarkson.

Produção:

Título original: Whatever Works; Produção: Sony Pictures Classics / Wild Bunch / Gravier Productions / Perdido Productions; Produtores Executivos: Vincent Maraval, Brahim Chioua; País: EUA; Ano: 2009; Duração: 92 minutos; Distribuição: Sony Pictures Classics; Estreia: 22 de Abril de 2009 (Tribeca Film Festival, EUA), 4 de Fevereiro de 2010 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenebaum; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin; Fotografia: Harris Savides (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Suzy Benzinger; Direcção Artística: Tom Warren; Cenários: Ellen Christiansen; Efeitos Especiais: Big Film Design; Caracterização: Rosemarie Zurlo, Linda Melo-Danzo.

Elenco:

Ed Begley, Jr. (John St. Ann Celestine), Patricia Clarkson (Marietta St. Ann Celestine), Larry David (Boris Yellnikov), Conleth Hill (Leo Brockman), Michael McKean (Amigo de Boris), Evan Rachel Wood (Melody St. Ann Celestine), Henry Cavill (Randy Lee James), John Gallagher Jr. (Perry), Jessica Hecht (Helena), Adam Brooks (Amigo de Boris), Lyle Kanouse (Amigo de Boris), Clifford Lee Dickson (Rapaz na Rua), Yolonda Ross (Mãe do Rapaz), Carolyn McCormick (Jessica), Samantha Bee (Mãe do aluno de Xadrês), Marcia DeBonis (Mulher no Restaurante Chinês), Willa Cuthrell-Tuttleman (Rapariga a aprender Xadrês), Nicole Patrick (Amigo de Perry), Olek Krupa (Morgenstern).

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