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Coming HomeSinopse:

Sally Bender (Jane Fonda) é casada com o Capitão Bob Hyde (Bruce Dern), quando este é enviado para o Vietname. Sally decide então trabalhar como voluntária no hospital de veteranos de guerra, e aí encontra Luke Martin (Jon Voight) um antigo colega seu de liceu, agora paraplégico, devido à guerra. A raiva de Luke encontra eco na necessidade de Sally se libertar da vida doméstica que tivera até aí, e os dois aproximam-se vindo a apaixonar-se. As mudanças operadas nos dois levam-nos a avaliar o que será o seu futuro quando Bob regressar da guerra.

Análise:

Em 1978 o cinema americano tocava numa das maiores feridas da sociedade do país: a guerra do Vietname. Pertencendo à geração que crescia e se afirmava na contracultura dos anos 1960-70, Jane Fonda e o seu associado Bill Gilbert (fundadores da Indochina Peace Campaign) começaram a delinear o projecto em 1972, inspirando-se na história do veterano paraplégico, Ron Kovic cuja autobiografia “Born on the Fourth of July” resultaria no filme de Oliver Stone “Nascido a 4 de Julho” (Born on the Fourth of July, 1989), protagonizado por Tom Cruise. Com a escolha de Nancy Dowd (outra amiga de Jane Fonda) a história ganhou então a perspectiva feminina da mulher que fica para trás.

Sendo a produção de Jerome Hellman, este tentou reunir realizador e actor da sua anterior produção “O Cowboy da Meia-noite” (Midnight Cowboy, 1969), mas a desistência de John Schlesinger levou a que o escolhido para a realização fosse Hal Ashby, um realizador em sintonia com a nova geração, e a cultura hippy. Lançava-se assim a onda revisionista de filmes de guerra do Vietname, um tema que tinha incendiado a sociedade norte-americana.

Com o olhar cáustico de Hal Ashby “O Regresso dos Heróis” é um filme amargo, que aponta dedos directamente, sem se tornar um manifesto político. É um filme sobre as consequências da guerra, sem mostrar um instante de guerra. E é acima de tudo um filme muito humano, que se centra em pessoas reais, mais que em causas abstractas. Estas pessoas são os heróis de que fala o título em português, que mais que heróis de guerra, são heróis por enfrentarem uma existência para a qual não estavam preparados, e da qual saem todos sentindo de modo diferente.

Contado do ponto de vista feminino, o filme tem em Sally Hyde (Jane Fonda) a sua primeira heroína. Sally é treinada toda a vida para ser uma esposa dedicada, casada com um capitão dos fuzileiros, vista como modelo da tradição americana (veja-se como o marido repete que na sua ausência ela ficará com a mãe dele). Mas, chocada com o verdadeiro efeito da guerra visível no seu país (a mutilação dos veteranos), Sally decide agir, soltando-se das amarras do casamento, voluntaria-se no hospital, dá o que pode de si, envolve-se com os pacientes, e luta pelas suas causas. A compra de um carro, a escolha de morar sozinha numa casa junto à praia, e a mudança de penteado são símbolos de uma rebeldia nascente, e uma capacidade de auto-afirmação que Sally não sabia ter dentro de si.

Mas nem tudo na história é o lado de Sally. No hospital assistimos à vida depois do Vietname. Começando com uma discussão de amigos (a cena inicial é filmada em estilo de documentário, que se repete um pouco nas cenas do hospital), é lançada a pergunta “iríamos lutar de novo?” Áqueles que defendem luta por uma causa válida, outros respondem que se trata apenas da necessidade de justificar o facto de terem perdido tanto (amigos, a sanidade mental, os membros, a capacidade de se adaptar à vida anterior…).

Esse exemplo é-nos trazido por Luke Martin (Jon Voight numa interpretação notável), um paraplégico, revoltado contra tudo, e que, graças ao carinho de Sally, vai recuperar um equilíbrio que fará dele uma voz prestigiada em discursos anti-guerra, passando de uma raiva difusa e inconsequente, para um tipo de protesto focalizado e útil.

A inesperada relação entre Sally e Luke vai ser um abrir de portas para ambos, lançando ainda luz sobre um outro regresso, o de Bob (Bruce Dern) marido de Sally, que irá descobrir que a esposa teve uma relação extra-conjugal na sua ausência. Bob é-nos descrito como o soldado exemplar, que sonha em lutar pelo seu país, e pela sua honra. Regressa após um estranho acidente, que deixa no ar a ideia de que poderá ter sido provocado por ele próprio. Seja como for, Bob não é mais o mesmo, não acredita na honra em combate, não se revê na guerra, e não tem mais um lar para onde voltar.

Com uma história contada de modo cru, são inúmeras as cenas que nos incomodam pelo seu realismo. Seja pelo desconforto físico e psíquico dos regressados, seja no suicídio de quem não consegue recuperar a sanidade, seja no desespero e falta de cuidados com todos aqueles que apenas querem um pouco de atenção, num país que os trata quase como se deles se envergonhasse.

“O Regresso dos Heróis” ou “O Regresso a Casa”, como o título original sugere, é por isso a história de uma diversidade de regressos e de decisões difíceis no caminho da auto-descoberta, a qual é também um regresso a algo que cada um procura dentro de si. O seu final em aberto (o que acontece verdadeiramente a Bob?) é mais um sinal de desconforto, mostrando como não há respostas definitivas, apenas problemas ainda por tomar em conta, num tema que continuaria a dividir a sociedade americana.

O filme foi um estrondoso sucesso, com oito nomeações para os Oscars, vencendo nas categorias de Melhor Actor (Jon Voight), Melhor Actriz (Jane Fonda) e Melhor Argumento. “O Regresso dos Heróis” foi ainda premiado em Cannes, nos Globos de Ouro, e em vários outros prestigiados prémios. No mesmo ano o Oscar de Melhor filme iria para “O Caçador” (The Deer Hunter, 1978) de Michael Cimino, com Robert De Niro, Meryl Streep e Christopher Walken, um filme também sobre os efeitos da Guerra do Vietname, mas mais sensacionalista pelas cenas de violência explícita.

“Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola, “Platoon – Os Bravos do Pelotão” (Platoon, 1986) e o supracitado “Born on the 4th of July”, ambos de Oliver Stone, “Full Metal Jacket – Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket, 1987) de Stanley Kubrick e “Bom Dia, Vietname” (Good Morning, Vietnam, 1987) de Barry Levinson, seriam apenas alguns dos muitos filmes a abordar a mesma temática.

Produção:

Título original: Coming Home; Produção: Jerome Hellman Productions Inc. / Jayne Productions Inc.; País: EUA; Ano: 1978; Duração: 128 minutos; Distribuição: United Artists (An MGM Company); Estreia: 15 de Fevereiro de 1978 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Hal Ashby; Produção: Jerome Hellman; Argumento: Waldo Salt, Robert C. Jones [baseado numa história de Nancy Dowd]; Fotografia: Haskell Wexler (filmado em Panavision, cor por Deluxe); Produtor Associado: Bruce Gillbert; Design de Produção: Michael D. Haller; Montagem: Don Zimmerman; Figurinos: Ann Roth; Direcção de Produção: Charles Mulvehill; Cenários: George Gaines; Caracterização: Gary Liddiard, Bernadine M. Anderson.

Elenco:

Jane Fonda (Sally Hyde), Jon Voight (Luke Martin), Bruce Dern (Capitão Bob Hyde), Robert Carradine (Bill Munson), Penelope Milford (Vi Munson), Robert Ginty (Sargento Dink Mobley), Charles Cyphers (Pee Wee), Tresa Hughes (Enfermeira Degroot), Mary Jackson (Fleta Wilson), Olivia Cole (Corrine), Willie Tyler (Virgil), David Clennon (Tim), Arthur Rosenberg (Bruce), Louis Carello [como Lou Carello] (Bozo), Mary Gregory (Martha Vickery), Beeson Carroll (Capitão Earl Delise), Bruce French (Dr. Lincoln), Richard Lawson (Pat), Kathleen Miller (Kathy Delise), Tim Pelt (Jason), Rita Taggart (Johnson), Pat Corley (Harris), Ned Van Zandt (Fuzileiro na Festa).

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