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Naked LunchBill Lee (Peter Weller) é um exterminador de insectos, cujo desaparecimento do pó amarelo usado no seu trabalho se revela como um vício por essa substância desenvolvido pela sua esposa Joan (Judy Davis). A partir do momento em que o próprio Bill tenta o pó, começa a confundir realidade e alucinações, vendo-se envolvido numa intrincada história de espionagem, onde as máquinas de escrever se transformam em insectos que comunicam com ele, e os personagens à sua volta deixam de ser o que parecem. Bill cede às alucinações, seguindo um enredo aparentemente caótico, desistindo de voltar à realidade.

Análise:

Numa produção conjunta de companhias do Canadá, Reino Unido e Japão, David Cronenberg realizou um filme com uma história estranha, baseada no livro de William S. Burroughs (um dos expoentes da beat generarion), com o mesmo nome. Mas vez de tentar uma adaptação literal, Cronenberg faz uma adaptação livre, seguindo alguns dos temas do livro, e usando a vida de Burroughs (a relação com as drogas, a homossexualidade) como fios condutores. Em “O Festim Nu” realidade e alucinação convivem lado a lado, sem fronteiras quer estilísticas quer contextuais num enredo que torna a vida de um vulgar exterminador de insectos, numa aventurosa história de espionagem.

Com a fotografia cristalina de Peter Suschitzky e um design de produção impecável a recriar o ambiente dos anos 1950, no que poderia ser o imaginário visual de um Film Noir, seguimos a história de Bill Lee (Peter Weller), um exterminador de insectos, cujo pó amarelo usado no seu trabalho nos é mostrado como causador de um vício paralelo do da cocaína, mas causando alucinações duradouras. Através delas Bill começa a ver insectos de tamanho irreal falando consigo sobre o seu papel como agente secreto, e nos seus laços com a misteriosa Interzone, que o levam mesmo a matar a esposa Joan (Judy Davis). A partir de então Bill retira-se para outro mundo (Interzone, inspirada em Tânger, onde Burroughs escreveu o seu livro), no qual fala com máquinas de escrever, que o incentivam a escrever inúmeros relatórios, e convive com personagens (alguns alienígenas) que parecem partilhar do seu contexto alucinado.

O enredo, mais surreal que lógico, leva-o a conhecer um casal de espiões, em que a mulher é a imagem da sua esposa morta (novamente Judy Davis, agora casada com Ian Holm), e algumas figuras sinistras que o implicam em conspirações que parecem fazer-lhe todo o sentido sem que tenham alguma lógica fora do seu contexto alucinado

Por entre o conjunto de temas trazidos para o mundo alucinado de Bill, está o pó amarelo como substância viciante (que o médico interpretado por Roy Scheider, tenta aparentemente combater com uma substância negra), as transformações físicas tão caras a Cronenberg (que mais uma vez consegue mesclar fisiologia humana com um imaginário visceralmente forte e repugnante), a repetição do tema dos insectos, um subcontexto sexual que leva a que os contactos (dedos – máquinas de escrever, por exemplo) tenham conotação erótica, e o repetido tema da homossexualidade, que tenta ser aplicada a Bill, e está presente em vários momentos.

O filme tem ainda uma forte componente kafkiana, explícita até nas palavras de alguns personagens, e evidente, não só no uso dos insectos como projecção humana, como no próprio facto de o personagem proncipal se mover num mundo que não compreende, nem faz sentido, mas que aceita como natural.

Nos vários contactos entre alucinação e realidade (indiciados como momentos em que a droga perde o efeito) o tema da escrita é ainda mais evidente, com Bill visto como um escritor em busca de afirmação, cuja obra provém do seu estado alterado, o qual é necessário para a sua veia criativa. A própria profissão de exterminação é discutida a nível literário como a exterminação do pensamento racional. Daí a também repetida ideia de que a escrita é perigosa, uma frase que é explorada ao longo do filme em diferentes sentidos.

Com uma presença limitada no circuito comercial, “O Festim Nu”, com as suas complicadas metáforas visuais, e a repugnância visual habitual em Cronenberg, dividiu os críticos, mas venceu vários prémios internacionais, e sobretudo no Canadá.

Produção:

Título original: Naked Lunch; Produção: Film Trustees Ltd. / Naked Lunch Productions / Nippon Film Development and Finance / The Ontario Film Development Corporation / Recorded Picture Company Limited / Téléfilm Canada; País: Canadá/Reino Unido/Japão; Ano: 1991; Duração: 115 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox Film Corporation; Estreia: 27 de Setembro de 1991 (EUA), 25 de Setembro de 1992 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: David Cronenberg; Produção: Jeremy Thomas; Argumento: David Cronenberg [a partir do livro de Willam S. Burroughs; Co-Produção: Gabriella Martinelli; Fotografia: Peter Suschitzky; Design de Produção: Carol Spier; Música: Howard Shore, Ornette Coleman; Montagem: Ronald Sanders; Figurinos: Denise Cronenberg; Efeitos Especiais e Criaturas: Chris Walas; Direcção de Produção: Marilyn Stonehouse; Direcção Artística: James McAteer; Cenários: Elinor Rose Galbraith; Caracterização: Christine Hart.

Elenco:

Peter Weller (Bill Lee), Judy Davis (Joan Frost / Joan Lee), Ian Holm (Tom Frost), Julian Sands (Yves Cloquet), Roy Scheider (Dr. Benway), Monique Mercure (Fadela), Nicholas Campbell (Hank), Michael Zelniker (Martin), Robert A. Silverman (Hans), Joseph Scoren [como Joseph Scorsiani] (Kiki), Peter Boretski (Vozes de Insectos / Exterminador #2), Yuval Daniel (Hafid), John Friesen (Hauser), Sean McCann (O’Brien), Howard Jerome (A.J. Cohen), Michael Caruana (Penhorista), Kurt Reis (Exterminador #1), Louis Ferreira [como Justin Louis] (Exterminador #3), Julian Richings (Exterminador #4), Jim Yip (O Chinês), Claude Aflalo (Ferreiro), Laurent Hazout (Rapaz da Interzone) Joseph Di Mambro [como Joe Dimambro] (Rapaz da Interzone).

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