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Cassandra's DreamPara o seu terceiro filme inglês consecutivo, Woody Allen contou com um elenco completamente britânico, baseado em Ewan McGregor, Colin Farrell, Hayley Atwell, Tom Wilkinson e Sally Hawkins. Repetindo a temática de “Match Point”, Allen constrói um dos filmes mais negros da sua carreira. Com uma equipa próxima da dos dois filmes anteriores (repescando o director de fotografia de “Melinda e Melinda”), Allen não contava agora com o apoio da BBC, nem de outros grandes estúdios, o que retirou espaço de manobra ao filme, atrasando a sua estreia.

Sinopse:

Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são dois irmãos de uma família de classe média-baixa, constantemente a braços com problemas financeiros, descontentes com as suas vidas e empregos, e sonhando com uma mudança de vida que nunca chega. Com a visita do tio Howard (Tom Wilkinson), um multimilionário que é o modelo da família, Ian e Terry atrevem-se a pedir ajuda financeira que os retire das suas vidas. Só que o tio pede ajuda em troca, e esta é algo que os dois irmãos nunca esperariam ter que vir a fazer.

Análise:

Para muitos “O Sonho de Cassandra” não é mais que a repetição do tema que serviu de base a “Crimes e Escapadelas” de 1989, e “Match Point” de 2005. Como neles, Woody Allen pergunta-nos se, num universo sem Deus, nem juizes morais transcendentes, podemos passar impunes pelos nossos crimes, o que nos impede de fazer o mal em vez do bem? É de novo a temática de “Crime e Castigo” de Dostoievsky, contada ao modo de Woody Allen.

Tanto em “Crimes e Escapadelas” como em “Match Point” assistimos a uma história de alguém que se decide pelo crime, colhe os seus frutos, e terá de viver com uma culpa que mais ninguém conhece. O personagem de Martin Landau, no primeiro destes filmes dirá: “Racionalizamos, negamos, ou não conseguiríamos viver”, já o personagem de Jonathan Rhys Meyers no segundo filme dirá: “Aprendemos a varrer a culpa para debaixo do tapete, senão ela dominava-nos”. “O Sonho de Cassandra” mostra-nos o outro lado destas afirmações, o que acontece quando não se é bem sucedido em lidar com a culpa.

Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são empurrados para um crime que não querem cometer, que desafia tudo aquilo em que acreditam. Mas fazem-no a troco de concretizar os seus sonhos, na esperança de que uma vez mudada a sua vida, o passado permaneça o passado. Tal não virá a acontecer, unicamente devido às suas consciências (em particular a de Terry), uma vez que o crime não lhes será nunca atribuído.

O filme é por isso marcado pela sombra da culpa, que surge como juiz supremo condenando Terry a uma pena insuportável de carregar, ditada simplesmente pela sua consciência. Tal peso torna o filme um dos mais negros da carreira de Woody Allen, que constrói uma história sem um pingo de humor, ou uma réstea de optimismo.

Por uma vez Woody Allen deixa os seus personagens típicos (a elite cultural nova-iorquina, ou mais recentemente a aristocracia inglesa), concentrando-se numa família de baixa condição económica, falando na gíria inglesa da baixa sociedade, sem usar do snobismo, cinismo e tiradas sarcásticas que ajudam a identificar os filmes de Allen, e abusando de diálogos nem sempre consequentes. Talvez essa mudança, que é apesar de tudo uma inovação, tenha descaracterizado o filme. Isto aliado a um tema demasiado negro, filmado com rigor, mas sem um brilho especial, ajudou a que o filme fosse um fracasso.

Salvam-se as interpretações de Ewan McGregor, como o sensato dos irmãos, Colin Farrell, como o irmão perturbado e sempre à beira do colapso nervoso, sempre bem secundados pela experiência de Tom Wilkinson e a frescura de Sally Hawkins. Destaque para a presença de Hayley Atwell no seu primeiro papel para o cinema, confirmando a propensão de Allen em lançar actores que mais tarde serão famosos.

“O Sonho de Cassandra” é ainda singular na carreira de Woody Allen, por usar uma banda sonora composta exclusivamente para o efeito (lembre-se que habitualmente as bandas sonoras de Woody Allen são feitas de standards de jazz ou música clássica), o que anteriormente só tinha acontecido com o musical “Toda a Gente Diz que Te Amo”. Coube a Philip Glass compôr a música que amplifica ainda mais a atmosfera negra do filme.

Sem o apoio de nenhum estúdio importante, “O Sonho de Cassandra” acabou por correr o circuito de festivais durante 2007, sendo a sua estreia comercial empurrada para Janeiro de 2008, o que retirou capacidade de afirmação ao filme, que foi por isso um fracasso de bilheteira. Entre os críticos o filme gerou opiniões paradoxais, sendo para alguns um dos melhores do autor, para outros um dos piores.

Produção:

Título original: Cassandra’s Dream: Produção: Wild Bunch / Virtual Studios / Iberville Productions; Produtores Executivos: Vincent Maraval, Brahim Chioua, Daniel Wührmann; País: Reino Unido/França/EUA; Ano: 2007; Duração: 104 minutos; Distribuição: TFM Distribution (França), The Weinstein Company (EUA); Estreia: 18 de Junho de 2007 (Espanha); 2 de Setembro de 2007 (Festival de Veneza, Itália), 11 de Setembro de 2007 (Toronto International Film Festival, Canadá), 8 de Outubro de 2007 (Mill Valley Film Festival, EUA), 10 de Janeiro de 2008 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenebaum, Gareth Wiley; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin, Nicky Kentish Barnes; Fotografia: Vilmos Zsigmond (filmado em Panavision, cor por Technicolor); Design de Produção: Maria Djurkovic; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Jill Taylor; Música: Philip Glass; Direcção Artística: Nick Palmer; Cenários: Tatiana Macdonald; Efeitos Especiais: Effects Associated Limited; Caracterização: Sallie Jaye, Sharon Martin.

Elenco:

Hayley Atwell (Angela), Colin Farrell (Terry), Sally Hawkins (Kate), Ewan McGregor (Ian), Tom Wilkinson (Howard), John Benfield (Pai), Philip Davis (Martin Burns), Peter-Hugo Daly (Boat Owner), Clare Higgins (Mãe), Ashley Madekwe (Lucy), Andrew Howard (Jerry), Stephen Noonan (Mel), Dan Carter (Fred), Richard Lintern (Realizador), Jennifer Higham (Helen), Lee Whitlock (Mike), Michael Harm (Agente Imobiliário), Emily Gilchrist (Dora), George Richmond (Bernard), Tamzin Outhwaite (Rapariga com Burns), Cate Fowler (Mãe de Angela), David Horovitch (Pai de Angela), Matt Bardock (Dono do Jaguar), Jim Carter (Patrão da Garagem), Richard Graham (Detective), Ross Boatman (Detective).

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