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One Flew over the Cuckoo's NestSinopse:

R.P. McMurphy (Jack Nicholson) é submetido a uma instituição psiquiátrica, devido ao seu comportamento errático e por vezes violento que não o deixa ter uma vida normal. No grupo de pacientes em que é integrado encontra uma série de desajustados, alguns dos quais se submeteram voluntariamente por não saberem lidar com a realidade exterior. De carácter rebelde, McMurphy vai incitar nos seus companheiros um espírito crítico que não é bem visto pelo staff, comandado pela implacável enfermeira Ratched (Louise Fletcher), que vê em McMurphy uma ameaça ao bem estar da ala que dirige.

Análise:

Adaptando o livro de Ken Kesey, que já havia originado a peça de teatro do mesmo nome, de Dale Wasserman, Miloš Forman filmou em 1975 uma história que penetra no interior de uma instituição psiquiátrica. Com todo o desconforto e incómodo que isso nos traz, essa perspectiva dá-nos a perceber que o hospital é apenas uma alegoria da sociedade do seu tempo, onde qualquer sinal de rebeldia e irreverência social são vistos como uma ameaça a uma autoridade que aparenta ser razoável, mas não se coibe de ultrapassar os limites do bom senso para se impor.

Como habitual nos anos 1970, “Voando sobre um Ninho de Cucos” é um filme que questiona os valores convencionais, e as formas que uma sociedade tem de os impor, sob os falsos pretextos de democracia e liberdade, que só são visíveis desde que não sejam questionados.

Pela mão hábil de Miloš Forman, somos transportados a um mundo aparentemente caótico, cheio de personagens estranhos, com o qual não temos nada a ver, onde nos sentimos incomodados, e do qual queremos imediatamente sair. Mas aos poucos vamos ganhando afinidades e empatia com os personagens, vamos entendendo as suas histórias, e vamos querer saber sempre um bocadinho mais, num filme que consegue ser em simultâneo cómico e comovente.

Essa é, aliás, a atitude do personagem principal, RP McMurphy (interpretado por Jack Nicholson), que chega como um rufião, de quem se desconfia que finja a insanidade apenas para não ter que trabalhar. Se ele chega como gabarolas, que se sente acima de tudo e de todos, que vê como vítimas da sua esperteza, a quem pode enganar ao jogo, aos poucos vai ele próprio ganhar interesse por aquelas histórias, e tentar fazer alguma coisa pelas pessoas que ali encontra.

É a chegada de McMurphy que traz a mudança ao local, até aí dominado por um sistema rígido (onde a terapia de electrochoque surge como uma forma de repressão), mecânico, impessoal, personificado pela enfermeira Ratched (Louise Fletcher). Com os seus modos anti-autoritários, rebeldes, e até loucos (se pensarmos em loucura no sentido de imprevisibilidade, inconformismo, espontaneidade, irresponsabilidade) McMurphy vai trazer uma nova auto-consciência a cada um dos seus companheiros de “cativeiro”. De notar que a maioria deles está internada por vontade própria, por ter medo do mundo, por ter desistido de lutar e se sentir mais confortável num ambiente protegido onde deles possam cuidar.

Por isso, o filme se torna, mais que uma crónica, uma alegoria sobre o confronto entre o medo de se enfrentar a vida, e a confortável entrega do livre arbrítrio em troca de decisões feitas e confortáveis. É ainda um confronto entre a liberdade individual, por mais louca que ela possa parecer, e as regras inhumanas impostas pelo que a maioria vê como “normal”.

Serão os loucos realmente loucos, ou apenas pessoas que desistiram de tentar ver o mundo à maneira convencional, e que desistiram de acreditar que as suas fraquezas eram humanas. É essa questão que RP McMurphy vai trazer, e com ela nada ficará como dantes. Entre os seus colegas surgirá a irreverência, a rebeldia, as questões, a liberdade, e até a morte. No final fica-nos o amargo de boca de não sabermos se triunfou a liberdade individual ou o peso cego da sociedade. Talvez a resposta dependa de como se olha para cada personagem, já que cada um é um caso diferente. Se aceitarmos isso, quem sabe o filme já nos traz um triunfo, o de pormos o indivíduo acima do colectivo.

Filmado num hospital, o filme ganha ainda mais força pela fotografia precisa de Haskell Wexler e Bill Butler, e pelas interpretações inesquecíveis de Jack Nicholson e Louise Fletcher, que o tornaram um dos mais importantes filmes dos anos 70.

Visto como o espelho de uma sociedade rebelde e desiludida, e de um estado a braços com escândalos de abusos de poder e decisões autoritárias, “Voando sobre um Ninho de Cucos” espantou ainda por arrebatar os Oscars de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento, Melhor Actor e Melhor Actriz. Tal feito fora só conseguido por “Uma Noite Aconteceu” (It Happened One Night, 1934) de Frank Capra, e viria a ser repetido apenas mais uma vez, por “O Silêncio dos Inocentes” (The Silence of the Lambs, 1991) de Jonathan Demme.

Produção:

Título original: One Flew Over the Cuckoo’s Nest; Produção: Fantasy Films; País: EUA; Ano: 1975; Duração: 128 minutos; Distribuição: United Artists (A Transamerica Company); Estreia: 19 de Novembro de 1975 (EUA), 21 de Dezembro de 1976 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Miloš Forman; Produção: Saul Zaentz, Michael Douglas; Argumento: Lawrence Hauben, Bo Goldman [baseado no livro de Ken Kesey]; Fotografia: Haskell Wexler; Fotografia Adicional: Bill Butler, William Fraker (filmado em Eastman, cor por DeLuxe); Música: Jack Nitzsche; Montagem: Richard Chew, Lynzee Klingman, Sheldon Kahn; Produtor Associado: Martin Fink; Design de Produção: Paul Sylbert; Direcção Artística: Edwin O’Donovan; Figurinos: Aggie Guerard Rodgers; Caracterização: Fred B. Phillips.

Elenco:

Jack Nicholson (R.P. McMurphy), Louise Fletcher (Enfermeira Ratched), William Redfield (Harding), Michael Berryman (Ellis), Peter Brocco (Col. Matterson), Dean R. Brooks (Dr. Spivey), Alonzo Brown (Miller), Scatman Crothers (Turkle), Mwako Cumbuka (Warren), Danny DeVito (Martini), William Duell (Sefelt), Josip Elic (Bancini), Lan Fendors (Enfermeiro Itsu), Nathan George (Washington), Ken Kenny (Beans Garfield), Mel Lambert (Mestre do Porto), Sydney Lassick (Cheswick), Kay Lee (Vigilante Nocturno), Christopher Lloyd (Taber), Dwight Marfield (Ellsworth), Ted Markland (Hap Arlich), Louisa Moritz (Rose), Philip Roth (Woolsey), Will Sampson (Chefe Bromden), Mimi Sarkisian (Enfermeira Pilbow), Vincent Schiavelli (Fredrickson), Mews Small [como Marya Small] (Candy), Delos V. Smith Jr. (Scanlon), Tin Welch (Ruckley), Brad Dourif (Billy Bibbit).