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Dog Day AfternoonSinopse:

Sonny Wortzik (Al Pacino) e Sal (John Cazale) tentam o assalto a um banco, mas a sua inexperiência leva a que sejam apanhados lá dentro pela chegada da polícia. A situação evolui de um simples assalto para um mediático cerco ao banco, onde os dois assaltantes mantêm reféns. O circo monta-se à porta do banco, tanto por parte da polícia, imprensa, como populares que vêem em Sonny o veículo de outras revindicações, e a situação alastra-se por cerca de doze horas, sem que se adivinhe a forma de resolver o conflito.

Análise:

Em 1977, um banco de Brooklyn, em Nova Iorque, foi assaltado e a situação degenerou-se num longo cerco de um longo dia, no qual a polícia tentava que os assaltantes libertassem os reféns que mantinham consigo no interior do banco. Essa história, relatada no artigo jornalístico de P.F. Kluge e Thomas Moore, foi a base do filme de Sidney Lumet “Um Dia de Cão”.

Retratando uma América fria, de um cinzento industrial, ruas sujas, realidades sociais demasiado contrastantes, e muito pessimismo, Sidney Lumet centra-se em Brooklyn como habitat do cidadão de “colarinho azul”, condenado a trabalhar toda uma vida e ser explorado por aqueles cujo estilo de vida ele nunca conseguirá atingir. Não falta por isso o contexto social, num momento de crise em que o desemprego espreita, e os salários são exíguos, e tantos cidadãos se sentem perdidos. Por isso, quando alguém opta pelo crime, com fins quase altruístas (no filme, pagar uma operação de outrem), não espanta completamente que consiga a simpatia dos seus próprios reféns, e parte do público em geral.

Sidney Lumet, conhecido pelo realismo social depositado nos seus filmes, bem como pela ênfase colocada na direcção de actores, consegue em “Um Dia de Cão” justificar em pleno estas reputações. Desde logo se percebe que o filme está longe de ser a simples narração de um crime ou do dia a dia de um grupo de gangsters (note-se que o filme começa a frio, com um assalto que não nos é justificado). A acção é deixada de lado (de facto apenas dois tiros são disparados em todo o filme), e substituída pela gestão das tensões acumuladas, e manipulação das emoções tanto no filme, como no espectador, algo aliás em que Lumet se revelara perito logo desde o seu primeiro filme “Doze Homens em Fúria” (12 Angry Men, 1957).

Desde os primeiros momentos o assalto mostra o seu lado anedótico: o terceiro assaltante desiste por falta de coragem; quase não há dinheiro no cofre; Sonny (Al Pacino) fica perplexo quando algumas das reféns querem ir à casa de banho; uma das reféns recebe um telefonema do marido, a quem explica do assalto, após o que pergunta a Sonny “a que horas isto acaba?”. Aos poucos percebemos o lado humano de Sonny, a sua falta de preparação, e a simpatia que tudo isso gera no grupo de reféns que ao fim de umas horas, se distrai cantando, jogando entre si, e não hesita em dar sugestões aos assaltantes como um grupo unido.

A história joga-se em dois palcos e o segundo é o que se passa no exterior do bando. Aí, em torno do enorme cerco montado pela polícia, graças a um grito de Sonny que vem lembrar às pessoas um recente caso de brutalidade policial terminado em tragédia, as pessoas vêem Sonny um libertador. Mais tarde, descobrindo-se a homossexualidade de Sonny e o seu casamento fictício com Leon (Chris Sarandon), as opiniões dividem-se. Parte da comunidade gay vê em Sonny um arauto, enquanto o povo mais conservador vê nele uma ameaça. O motivo do crime estabelece-se então como uma forma de obter dinheiro para pagar a operação de mudança de sexo de Leon.

Com constantes interferências da televisão, que chega a entrevistar Sonny em directo por telefone, toda a situação parece fora de controle, com uma mediatização exagerada que leva a polícia a ter cautelas. As constantes referências à situação social, bem como o facto de Sonny ser um veterano do Vietname ajudam a dar ao filme um papel de feroz crítica ao regime politico-social vigente, próprio da contra-cultura em que se insere.

Todo o filme ganha então um efeito de sátira, não completamente distante de “Asfalto Quente” (The Sugarland Express, 1974) de Steven Spielberg. Mas “Um Dia de Cão” é essencialmente marcado pela interpretação fulgurante de Al Pacino. Ele, que já havia trabalhado com Sidney Lumet em “Serpico” (Serpico, 1973), consegue aqui num vasto leque de estados de espírito (assertivo no início do assalto, perdido no seu decorrer, angustiado pela surpresa dos acontecimentos, exuberante ao dirigir-se ao seu público, desgastado nos telefonemas com aqueles que ama), carregar o filme às costas com um brilhantismo próprio do actor único que é, provocando em nós uma variedade de emoções, que seriam aliás, as sentidas pelas vítimas de um assalto tão sui generis.

O final, ainda que esperado, não deixa de nos provocar alguma amargura, numa história onde não há bons nem maus, e facilmente tomamos o partido dos criminosos, que são neste filme de uma enorme originalidade, profundidade e honestidade (confirmadas pelo próprio John Wortzik, o verdadeiro assaltante).

Destaque ainda para a interpretação de John Cazale, compondo um Sal minimalista, um pouco frágil, um pouco brutal, mas sempre imprevisível.

“Um Dia de Cão” foi um sucesso junto do público e da crítica, recebendo seis nomeações para os Oscars (vencendo na categoria de Melhor Argumento Adaptado), e sete para os Globos de Ouro, além de outros prémios.

Produção:

Título original: Dog Day Afternoon; Produção: Artists Entertainment Complex; País: EUA; Ano: 1975; Duração: 125 minutos; Distribuição: Warner Bros. Inc.; Estreia: 21 de Setembro de 1975 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Sidney Lumet; Produção: Martin Bregman, Martin Elfand; Argumento: Frank Pierson [baseado no artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore]; Montagem: Dede Allen; Fotografia: Victor J. Kemper (filmado em Panavision, cor por Technicolor); Design de Produção: Charles Bailey; Figurinos: Anna Hill Johnstone; Produtor Associado: Robert Greenhut; Cenários: Robert Drumheller; Direcção Artística: Doug Higgins; Caracterização: Reginald Tackley.

Elenco:

Al Pacino (Sonny Wortzik), Penelope Allen (Sylvia), Sully Boyar (Mulvaney), John Cazale (Sal), Beulah Garrick (Margaret), Carol Kane (Jenny), Sandra Kazan (Deborah), Marcia Jean Kurtz (Miriam), Amy Levitt (Maria), John Marriott (Howard), Estelle Omens (Edna), Gary Springer (Stevie), James Broderick (Sheldon), Charles Durning (Moretti), Carmine Foresta (Carmine), Lance Henriksen (Murphy), Floyd Levine (Polícia ao Telefone), Dick Anthony Williams (Motorista da Limousine), Dominic Chianese (Pai), Marcia Haufrecht (Vizinha), Judith Malina (Mãe), Susan Peretz (Angie Wortzik), Chris Sarandon (Leon Shermer), William Bogert (Locutor de TV), Ron Cummins (Repórter de TV), Jay Gerber (Sam), Philip Charles MacKenzie (Médico), Chu Chu Malave (Namorado de Maria), Lionel Pina (Rapaz da Pizza).