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Match PointEm 2005 a carreira de Woody Allen deu um salto. O realizador deixou a sua amada Nova Iorque e filmou o primeiro dos seus filmes europeus. “Match Point” foi filmado em Londres, com dinheiro inglês, e um elenco quase exclusivamente britânico. O filme foi uma oportunidade para Allen renovar ideias, filmar de um modo fresco e moderno, baseando-se num elenco jovem, onde se destacavam Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer e Matthew Goode. O filme foi um estrondoso sucesso, tornando-se um dos mais amados da carreira de Woody Allen, e o primeiro em décadas a rivalizar em popularidade com “Annie Hall” ou “Manhattan”. O filme foi ainda o primeiro desde “Recordações”, de 1980, sem Santo Loquasto no Design de Produção. A equipa aliás, contava com vários nomes novos de origem inglesa, como director de fotografia, designer, decoradora, figurinista, todos substituindo colaboradores habituais de Woody Allen.

Sinopse:

Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) é um ex-tenista que, farto do circuito profissional, decide ganhar a vida dando aulas de ténis num clube privado. Lá conhece e torna-se amigo de Tom Hewett (Matthew Goode), que cedo o apresenta à família, que aprecia em Chris a educação, o modo como vingou vindo do nada, e o seu gosto pelas artes. Na casa de campo da família Hewett Chris conhece Nola (Scarlett Johansson), a noiva de Tom, e embora aos poucos comece a passar tempo com a irmã de Tom, Chloe (Emily Mortimer), nunca consegue esquecer Nola.

A aceitação na família Hewett leva Chris a casar com Chloe, e a começar a subir nas empresas da família. Quando, mais tarde Chris reencontra Nola, já separada de Tom, não hesita em começar uma relação com ela. A partir daí Chris terá de escolher entre a paixão quente por Nola e a vida de conforto oferecida pela família de Chloe.

Análise:

2005 marca um ano de mudança na carreira de Woody Allen. Foi o ano em que começou a sua fase europeia. Com uma reputação estável na Europa, e uma carreira em declínio nos Estados Unidos, o realizador percebeu que lhe era economicamente mais rentável filmar em cidades europeias, onde conseguia mais facilmente licenças que em Nova Iorque, teria apoios de instituições locais, e garantia a liberdade criativa que tanto prezava.

Londres foi a cidade natural para dar esse passo, onde Allen teria o apoio da BBC Films, cuja única imposição foi de que o elenco fosse maioritariamente inglês. Allen acedeu, e apenas Scarlett Johansson marcou a presença americana, num filme que fora inicialmente escrito para decorrer em Nova Iorque.

Mas “Match Point” não se distingue apenas por ser filmado em Londres e ter actores britânicos, os quais nunca tinham trabalhado com Woody Allen antes. O que distingue principalmente o filme, em relação à obra anterior de Allen, é a frescura em termos de interpretações, diálogos e modos de estar, que o torna uma bem vinda ruptura com a obra do realizador.

Em “Match Point” não temos ninguém a fazer de Woody Allen, não há personagens neuróticos e nervosos em crise de meia idade, não há artistas a tentar encontrar uma carreira, casamentos em dissolução, debates sobre a morte ou o papel da arte. É verdade que continuamos na classe alta, mas aqui os personagens vivem a arte de modo puramente lúdico. Os diálogos são frescos, dir-se-ia mesmo modernos, e não reciclados de filmes anteriores, e os comportamentos são originais com personagens nunca vistos nos filmes de Allen. É o filme onde a sexualidade é mostrada de um modo mais explícito, seja nos diálogos de sedução (que nunca resultariam nos filmes protagonizados por Allen), seja no modo mais gráfico com que as cenas de amor são filmadas (muito graças à sexualidade que transpira de cada poro de Scarlett Johansson).

Quanto ao tema, não é completamente novo. Mais uma vez Allen debruça-se sobre o papel da culpa, ou do karma humano, num mundo sem deus, nem julgamentos morais superiores. Tal tema, inspirado em “Crime e Castigo” de Dostoievsky (referenciado no filme), fora abordado em vários outros filmes, e fora o tema central de “Crimes e Escapadelas”, que para muitos é a inspiração directa de “Match Point”. Mas se em “Crimes e Escapadelas” nos interessava apenas a condição moral da pessoa que premia o hipotético botão imaginário que levaria à morte de alguém sem que alguma vez o crime lhe fosse ligado (o personagem de Martin Landau apenas assente ao telefone, nunca participa no crime), em “Match Point” Woody Allen vai muito mais longe.

Por um lado, o facto de ocupar todo o filme com uma história, e não duas (como em “Crimes e Escapadelas”), permite-lhe desenvolvê-la com mais detalhe e precisão. Por outro, há muito mais por trás da culpa relacionada com o crime. Em primeiro lugar, logo desde o monólogo inicial, Allen, pela voz do protagonista Chris (Jonathan Rhys Meyers) chama-nos a atenção para o papel da sorte, com uma inspirada analogia desportiva, filmada nesse momento ainda inocente, com uma bola de ténis que bate na rede, e repetida num momento em que a inocência já se perdeu, quando o furto de um roubo bate num gradeamento metálico. Allen, que sempre destacou o papel da sorte (principalmente no funcionamento de relações amorosas), resolve aqui ir mais longe, e colocá-la como fulcro dos acontecimentos, num mundo sem deus, nem forças exteriores que nos guiem. Sintomática é a frase final aquando do nascimento de um bebé “Não é preciso que ele seja excelente, basta que tenha sorte.”

O papel da sorte, caprichosa e traiçoeira, guia o filme, desde a entrada fortuita de Chris na família de Tom (Matthew Goode) e Chloe (Emily Mortimer), que lhe proporciona o luxo com que sempre sonhou, até aos encontros, também fortuitos com Nola (Scarlett Johansson) que poderão deitar tudo a perder. Esta sorte (ou falta dela) é explorada até à exaustão, nos detalhes que podem desvendar um crime, ou inocentar o seu autor.

O anel que, qual bola de ténis, bate na grade e volta para trás é-nos indicado como paralelo do azar do tenista que vê a bola voltar para o seu campo. A genialidade de Allen faz desse momento de “azar” um golpe de sorte que nos ilude completamente, num caminho de suspense tão sinuoso que orgulharia o mestre Hitchcock.

Se foi dito atrás que este é o filme de Allen onde a sensualidade é mais explicitamente usada, é também o seu filme onde o suspense desempenha um papel mais crucial. E mesmo que pensemos que este não é um terreno alleniano, a cena do crime, e todos os detalhes da sua planificação e perpretação fazem inveja aos maiores mestres do thriller.

Sem uma cena gratuita, “Match Point” é ainda um exemplo de diálogos concisos, ideias frescas, e planos eficazes onde sentimos que nenhuma imagem ou palavra são supérfluas, algo que vinha faltando nos filmes mais recentes de Allen. Sublinhe-se o modo como os estados de espírito de Chris são filmados (muitas vezes mantendo-o enquadrado quando os restantes personagens falam fora de campo), e contraste-se com a necessidade de todos os personagens nos gritarem os seus sentimentos em “Anything Else” ou “Melinda e Melinda” e entende-se o quanto Allen evoluiu nestes anos.

Embora alguns critiquem Allen por não saber filmar Londres como filma Nova Iorque (é natural que não consiga a mesma ligação emocional), há como que uma mudança de palete, que contribui também para o refrescar do filme.

Em suma temos um filme em tons de tragédia (note-se o papel da música trágica das árias de ópera sempre presentes), que é diferente de “Crimes e Escapadelas”, se bem que repetindo a conclusão moral, mas onde Allen filma um thriller sensual, pleno de originalidade, com personagens e interpretações inspiradas. Jonathan Rhys Meyers e Scarlett Johansson são perfeitos nos seus papéis, o primeiro frio, calculista, mas cheio de fraquezas humanas, a segunda, quente, emotiva, de uma sensualidade real e não estereotipada.

Allen considerou “Match Point” como talvez o melhor filme que já fez, e o filme foi o regresso de Allen à nomeação para Oscar de Melhor Argumento Original.

Produção:

Título original: Match Point: Produção: DreamWorks Pictures / BBC Films / Thema Production SA / Jada Productions / Kudo Films Limited; Produtor Executivo: Stephen Tenebaum; País: Reino Unido/Luxemburgo; Ano: 2005; Duração: 124 minutos; Distribuição: Icon Film Distribution (Reino Unido), DreamWorks SKG (EUA); Estreia: 12 de Maio de 2005 (Festival de Cannes, França), 28 de Dezembro de 2005 (EUA), 208 de Janeiro de 2006 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Gareth Wiley, Lucy Darwin; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin, Nicky Kentish Barnes; Fotografia: Remi Adefarasin (filmado em Technicolor); Design de Produção: Jim Clay; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Jill Taylor; Direcção Artística: Diane Dancklefsen, Jan Spoczynski; Cenários: Caroline Smith; Caracterização: Sallie Jaye, Carmel Jackson; Efeitos Especiais: Effects Associated Limited.

Elenco:

Brian Cox (Alec Hewett), Matthew Goode (Tom Hewett), Scarlett Johansson (Nola Rice), Emily Mortimer (Chloe Hewett Wilton), Jonathan Rhys Meyers (Chris Wilton), Penelope Wilton (Eleanor Hewett), Ewen Bremner (Inspector Dowd), James Nesbitt (Detective Banner), Rupert Penry-Jones (Henry), Alexander Armstrong (Mr. Townsend), Paul Kaye (Vendedor Imobiliário), Simon Kunz (Rod Carver), Geoffrey Streatfield (Alan Sinclair), Miranda Raison (Heather), Rose Keegan (Carol), Zoe Telford (Samantha), Margaret Tyzack (Mrs. Eastby), Selina Cadell (Margaret), Georgina Chapman (Colega de Nola), Colin Salmon (Ian), Steve Pemberton (Detective Parry).

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