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JawsSinopse:

A ilha de Amity é uma estância balnear procurada no Verão, pelas suas praias e ritmo calmo de vida. Pouco depois de Brody (Roy Scheider) tomar posse como chefe de polícia local, uma rapariga é morta por um tubarão, quando nadava à noite, e mais tarde uma criança sofre o mesmo destino. Apesar do conselho de Brody para fechar a praia as autoridades negam-e a fazê-lo, e em pleno 4 de Julho, um novo ataque à vista de todos lança o pânico. Conjuntamente com o caçador de troféus, Quint (Robert Shaw), e o oceanógrafo, Hooper (Richard Dreyfuss), Brody faz-se ao mar para dar caça a um enorme tubarão branco que assola as praias de Amity.

Análise:

Em 1975 Steven Spielberg realizava a sua terceira longa-metragem, e aquela que o tornaria um nome a ter em conta no panorama cinematográfico internacional. Para trás ficavam, além de projectos de juventude, curtas-metragens e produções para televisão, “Um Assassino pelas Costas” (Duel, 1971) e “Asfalto Quente” (The Sugarland Express, 1974) dois filmes perfeitamente inseridos na atmosfera amarga e crua da chamada Nova Era de Hollywood, o primeiro com estreia na televisão, e posteriormente passado às salas de cinema.

Na sequência do seu trabalho surgia em 1975, “O Tubarão”, um thriller com o objectivo de assustar e horrorizar os espectadores. Com produção de Richard D. Zanuck e David Brown, que apostavam na então promessa Spielberg, “O Tubarão” é uma adaptação do livro de Peter Benchley sobre um tubarão assassino de enormes dimensões e ainda maior resolução na perseguição das suas vítimas. Tornou-se de certo modo o primeiro blockbuster de Verão da história de Hollywood (estreando em cerca de 450 salas), o que só por si constituiu o princípio do fim da Nova Era de Hollywood que o próprio Spielberg ajudara a criar.

Para além da enorme receita gerada (foi o filme mais lucrativo de Hollywood até então), o filme foi o apontar de um novo caminho de negócio aos grandes estúdios, baseado em histórias sensacionais, que apelassem principalmente aos mais jovens, com forte distribuição e campanha publicitária e estabelecimento de franchises que garantissem sequelas e todo um conjunto de material comercial em torno da imagem do filme. Tal filosofia atingiria o seu zénite logo dois anos depois com “A Guerra das Estrelas” (Star Wars, 1977) de George Lucas.

Mas o filme de Spielberg tem tanta importância do ponto de vista cinematográfico como tem no modelo de negócios que viria a ajudar a criar. Tal deve-se sobretudo pelo lançamento (outros dirão relançamento) de um género e modo de filmar. Os antecedentes podem encontrar-se nos filmes catástrofe de monstros em guerra com a humanidade, como os típicos da ficção científica de série B dos anos 50, ou mais recentemente no thriller “Os Pássaros” (The Birds, 1963) de Alfred Hitchcock, em que a natureza surgia em conflito com o homem, através de uma inexplicável ameaça por parte de todo o tipo de pássaros.

Nas mãos de Spielberg, a história de “O Tubarão” perde quaisquer dimensões grotescas ou irreais, deixa de lado quaisquer explicações pseudo-científicas, e aposta num enorme realismo, que tem como resultado uma maior aproximação entre espectador e tema.

O tubarão que dá nome ao filme é apenas um predador que encontra território de caça junto a uma praia, e ao ritmo do seu regime alimentar vai atacando banhistas incautos. Com uma situação tão trivial, com que facilmente os espectadores se relacionam, Spielberg não precisa de mais que insinuações para provocar o temor e desconforto. E é isso que acontece com longos planos sobre o oceano, uma câmara subjectiva submarina, momentos de inquietação implícita das vítimas, ou simplesmente a brilhante banda sonora de John Williams que se tornou tão ou mais conhecida que o próprio filme. Com todos estes argumentos, Spielberg joga com o crescer e acumular de tensão, como se brincasse connosco a seu bel-prazer, e de facto, na primeira vez que vemos o tubarão, já passou uma hora completa de filme.

Para além deste aspecto de thriller, o filme triunfa por ser muito mais. Destaca-se o seu papel de crítica ao conflito entre os interesses económico-políticos e o bem estar geral, quando o prefeito da comunidade teimosamente insiste em não fechar as praias, até ser demasiado tarde. Trata-se de um tema inserido na desconfiança generalizada nas instituições típica do cinema americano dos anos 1970.

A um outro nível, o filme é ainda (a partir do seu segundo acto) uma história de companheirismo, e de como três pessoas com diferentes trajectórias de vida podem constituir uma equipa. Roy Scheider (o agente da autoridade), Robert Shaw (o caçador) e Richard Dreyfuss (o cientista) dão-nos, com convincentes interpretações, três lados de uma só moeda, três aspectos do que faz o ser humano, a razão e sensatez (Scheider), o aventureirismo e orgulho (Shaw), a curiosidade e gosto de descoberta (Dreyfuss). É a sua interacção que conduz a história, e que, um pouco ao jeito dos livros “Moby Dick” de Herman Melville e “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway, a eleva de uma corriqueira caça a uma afirmação do papel do homem num mundo animal para o qual, apesar do seu avanço tecnológico, nem sempre está dotado.

Por outro lado o tubarão pode ainda ser visto como um alegoria de todas as ameaças externas e desconhecidas a pairar sobre uma pessoa, comunidade ou mesmo país (no caso os EUA). Essa ambiguidade subconsciente é sem dúvida parte da sedução que ainda hoje mantém o filme actual.

Com o tema (que se revelaria bem Spielberguiano) do companheirismo e amizade entre irmãos de armas, não é de espantar que no final sejam os dois elementos altruístas, e de certo modo inocentes, a sobreviver, enquanto o elemento do trio que desde cedo se revela cínico e interesseiro, a perecer. Também neste moralismo velado Spielberg se começava a afastar da sua era, recuperando valores tradicionais da era de ouro de Hollywood, que seriam bem explícitos nos seus filmes seguintes.

“O Tubarão” entrava assim para a história do cinema, não apenas pelo lucro trazido, mas principalmente pelo seu valor cinematográfico, pelo novo patamar trazido ao cinema de suspense, e pelo número de filmes que inspiraria. Fosse com inimigos humanos, animais ou sobrenaturais, proliferariam a partir daí os filmes baseados nas mortes sensacionais (e de preferência macabras) perpretadas por um assassino misterioso que assola uma comunidade ou grupo de amigos. Infelizmente, poucas vezes tais filmes estiveram ao nível de “O Tubarão” de Spielberg, a começar pelas três sequelas ao próprio filme, nenhuma delas com participação de Steven Spielberg ou do escritor Peter Benchley.

O filme de Spielberg venceria os Oscars de Melhor Banda Sonora Original, Melhor Som e Melhor Montagem, sendo ainda nomeado para o Oscar de Melhor Filme. Quanto ao realizador… estava apenas a iniciar uma carreira que inclui alguns dos maiores sucessos comerciais da história do cinema.

Produção:

Título original: Jaws; Produção: Zanuck/Brown Productions; País: EUA; Ano: 1975; Duração: 124 minutos; Distribuição: Universal (An MCA Company); Estreia: 20 de Junho de 1975 (EUA), 25 de Março de 1977 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Steven Spielberg; Produção: Richard D. Zanuck, David Brown; Argumento: Peter Benchley, Carl Gottlieb [baseado no livro de Peter Benchley]; Fotografia: Bill Butler (filmado em Panavision, cor por Technicolor); Montagem: Verna Fields; Música: John Williams; Design de Produção: Joseph Alves Jr.; Efeitos Especiais: Robert A. Mattey; Director de Produção: William S. Gilmore Jr.; Cenários: John M. Dwyer.

Elenco:

Roy Scheider (Brody), Robert Shaw (Quint), Richard Dreyfuss (Hooper), Lorraine Gary (Ellen Brody), Murray Hamilton (Vaughn), Carl Gottlieb (Meadows), Jeffrey Kramer (Hendricks), Susan Backlinie (Chrissie), Jonathan Filley (Cassidy), Ted Grossman (Vítima do Estuário), Chris Rebello (Michael Brody), Jay Mello (Sean Brody), Lee Fierro (Mrs. Kintner), Jeffrey Voorhees (Alex Kintner), Craig Kingsbury (Ben Gardner), Robert Nevin (Médico), Peter Benchley (Repórter).