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LennySinopse:

Através de excertos dos seus números, e de uma montagem de entrevistas com aqueles que privaram com ele, como a esposa Honey (Valerie Perrine), do empresário Artie Silver (Stanley Beck), ou a sua mãe Sally Marr (Jan Miner), acompanhamos a polémica carreira do comediante Lenny Bruce (Dustin Hoffman), uma figura tão icónica quanto controversa no circuito da comédia nos anos 50 e 60, cuja forma de chocar o seu próprio público lhe trouxe problemas com a justiça.

Análise:

Sendo esta época do cinema de Hollywood profícua na caracterização da contra-cultura dos anos 60-70, não espanta que tenha sido trazido para o grande ecrã um dos ícones dessa contracultura, o polémico comediante Lenny Bruce. Com um argumento de Julian Barry a partir da sua própria peça teatral com o mesmo nome, Bob Fosse realizou o filme que se insere na sua propensão em filmar o mundo do espectáculo. Afinal, Bob Fosse, um actor, bailarino, coreógrafo com peças na Broadway, como o celebrado “Chicago”, destacou-se como realizador de musicais como “Cabaret, Adeus Berlim” (Cabaret, 1972) e “O Espectáculo Vai Começar” (All That Jazz, 1979).

Se “Lenny” quase nada tem de musical (exceptuando algumas introduções pelas bandas residentes dos clubes nocturnos, onde decorre parte da acção), há no entanto um sentido coreográfico que atravessa todo o filme. Este é sobretudo visível na cadência com que as cenas de stand-up comedy de Lenny Bruce (Dustin Hoffman) se intercalam com as narrações que nos surgem em forma de entrevista, como se de um documentário se tratasse.

O filme (completamente a preto e branco) traz-nos assim essas duas vertentes de um pseudo-documentário em torno da vida do comediante que chocou os Estados Unidos ao não respeitar as barreiras da chamada decência, abordando temas como política, religião, sexualidade e hipocrisia social, com uma linguagem violentamente rude, e quase sempre para lá do politicamente correcto.

Rude é também como se pode descrever a montagem que salta vertiginosamente entre planos e, sem aviso, de momentos de entrevista, para momentos de acção, servindo aqueles para introduzir estes, permitindo as elipses e mudanças de tema necessárias à evolução da história. Rude ainda é o modo como as entrevistas são aparentemente filmadas, em planos imprecisos, má iluminação, e cortes intermitentes, como se assistíssemos a uma montagem ainda em bruto. Tal contrasta com as sequências de acção, as quais são filmadas com uma luz saturada que dá a cada momento uma qualidade fotográfica, consentânea com procura da coreografia perfeita de Bob Fosse.

Voltando à história, assistimos ao construir e destruir da carreira de Lenny Bruce, acompanhando a forma como encontrou a sua voz artística, como passou do anonimato à fama, como desafiou os poderes instituidos, e como essa guerra o levou ao desespero. Vendo-o através dos olhos da esposa Honey Harlow Bruce (Valerie Perrine), Lenny é-nos descrito principalmente através dos seus defeitos, nomeadamente o seu ego e a sua insegurança, que o levarão a absorver-se doentiamente nos resultados da sua longa disputa com os tribunais.

Tal como a relação com Honey atinge altos e baixos, e é posta em causa pelo consumo de drogas, também a carrreira de Lenny é uma fuga para a frente, em que a persona artística supera o ser humano e acabará por o devorar.

Com compaixão e humor, Bob Fosse e Julian Barry prestam homenagem a um homem que lutou contra a hipocrisia do seu tempo, acreditou poder ajudar a mudar mentalidades, mas foi sobretudo uma vítima do seu ego. Se o fez com sinceridade, ou apenas pelo espectáculo, é algo a que o filme não procura responder, e é a questão que surge implícita nas palavras de quem ajuda a narrar a história deste homem invulgar, brilhantemente interpretado por Dustin Hoffman.

Apesar da sua linguagem forte, o filme foi extremamente bem recebido pela crítica e pelo público, tendo inclusivamente recebido seis nomeações para os Oscars (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor, Melhor Actriz, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Fotografia). Valerie Perrine seria ainda premiada em Cannes.

Produção:

Título original: Lenny; Produção: Marvin Worth Productions; Produtor Executivo: David Picker; País: EUA/; Ano: 1974; Duração: 111 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 10 de Novembro de 1974 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Bob Fosse; Produção: Marvin Worth; Argumento: Julian Barry [baseado na sua própria peça de teatro “Lenny”]; Produtor Associado: Robert Greenhut; Fotografia: Bruce Surtees (preto e branço); Design de Produção: Joel Schiller; Montagem: Alan Heim; Composição e Direcção Musical: Ralph Burns; Figurinos: Albert Wolsky; Cenários: Nicholas Romanak; Caracterização: Robert Laden.

Elenco:

Dustin Hoffman (Lenny Bruce), Valerie Perrine (Honey Bruce), Jan Miner (Sally Marr), Stanley Beck (Artie Silver), Rashel Novikoff (Tia Mema), Gary Morton (Sherman Hart), Guy Rennie (Jack Goldstein), Michele Yonge (Enfermeira), Monroe Myers (Juiz Hawaiano), John DiSanti (John Santi), Martin Begley (Juiz de San Francisco), Mark Harris (Advogado de Defesa), Richard Friedman (Promotor Público de San Francisco), Lee Sandman (Segundo Juiz de San Francisco), Jack Nagle (Reverendo Mooney), Bruce McLaughlin (Juiz de Nova Iorque), Susan Malnik (Kitty, 12 anos), Allison Goldstein (Kitty, 1 ano), Winston Lee (Criado Chinês), Bridghid Glass (Kitty, 2 anos), Joe Mencel (Jornalista no Tribunal), Beth Challis (Dono do Clube).