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ChinatownSinopse:

Quando uma cliente (Diane Ladd) entra no escritório do detective J. J. Gittes (Jack Nicholson), este pensa tratar-se de mais um caso de uma esposa ciumenta em busca de provas para incriminar o marido. A investigação leva-o a perceber que algo mais se passa em torno do marido, Hollis Mulwray (Darrell Zwerling). Quando este surge morto em estranhas circunstâncias, e Gittes percebe que a mulher deste, Evelyn Mulwray (Faye Dunaway) não fora aquela que o contratara, percebe que foi usado, e que a sua investigação não está sequer no início. Embora todos lhe digam para parar, e Gittes veja a sua vida em perigo várias vezes, sabe que não desistirá enquanto não chegar à verdade.

Análise:

Em 1974 surgia aquele que é, para todos efeitos, o filme que fez renascer o género Noir. Pelas mãos de Roman Polanski (realizador já com diversos sucessos na sua carreira, que dividia o seu tempo entre Hollywood e a Europa, e que tem um curto cameo no filme) e do prolífico argumentista Robert Towne, “Chinatown” é, mais que uma homenagem ao género de culto dos anos 1940 e 1950, um Noir de mérito próprio, com todo o classicismo do género, agora renovado, a cores, e adaptado a temáticas mais modernas.

Assim, temos o habitual detective (J. J. Gittes – Jack Nicholson, com o seu típico sorriso cínico), que nos guia subjectivamente (Nicholson está presente em todas as cenas), obstinado, incorruptível, que se vê envolvido num caso que o coloca em perigo, e quanto mais indicações tem para desistir, mais elas o forçam a continuar, não por amor à verdade, mas porque não o fazer seria mau para o negócio. Temos a mulher fatal (Evelyn Mulwray – Faye Dunaway), que usa a sua sexualidade como uma arma, e caminha num misto vitimização e manipulação, usando de uma inocência natural para esconder alguns recantos da verdade. Temos a história de mistério, insinuante, que começa (quase imitando “Relíquia Macabra” de John Huston, “Enigma” de Edward Dmytryk e “À Beira do Abismo” de Howard Hawks) quando uma cliente expõe um caso, que afinal não será nada do que parece. Finalmente temos a luta do anti-herói Noir, que com métodos puramente pessoais, vai lutando contra a sociedade para atingir os seus fins.

Há mais ainda do universo Noir no filme de Polanski, como por exemplo o peso da cidade (a selva urbana onde conta apenas o darwinismo social), aqui em torno dos negócios da água, e sua influência política e económica. Outro exemplo de um tema típico do Noir é o peso do passado, tanto no caso de Evelyn (cujo passado é o cerne do mistério), como no caso de Gittis, cujo passado profissional, e sua desilusão, é uma sombra que o aflige e o conduz a essa Chinatown, elusiva, mas que justifica o nome do filme. Finalmente destaque-se a banda sonora, com os lânguidos temas jazz que trazem a atmosfera clássica do tempo que o filme ilustra.

Com tanto do que faz um Noir clássico no filme de Polanski, falta referir o peso dos anos 1970. Se na era dourada do Noir os temas eram maioriamente pessoais, ou envolvendo pequenos grupos de gangsters, em “Chinatown” algo muda. Na sequência do cinema do seu tempo, estamos perante uma consciência geral que acredita na conspiração, e na manipulação que vem de cima. Não esquecer que os assassinatos de John Kennedy (1963), Robert Kennedy e Martin Luther King Jr. (ambos em 1968), bem como o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietname e o mito crescente do poder de Edgar J. Hoover, e o escândalo de Watergate (1972) vieram lançar sobre a sociedade a ideia da permanente conspiração, vigia e controlo dos políticos em favor de interesses escondidos.

Em “Chinatown” esse poder escondido é representado por Noah Cross (John Huston, curiosamente um dos pais do Noir). Noah é o primeiro a referir diversas vezes ser intocável, pois o seu dinheiro pode comprar a polícia, os políticos, e formar opiniões. A partir desse momento “Chinatown” deixa de ser uma cavalgada por interesses pessoais, e passa a ser uma tentativa de desmascarar uma conspiração que afecta todo um estado. Gittes luta então contra a polícia, contra os políticos, contra departamentos estatais, e contra um lobby de agricultores, com o objectivo de dar a verdade ao povo de Los Angeles sobre o que está a ser feito com a sua água.

Como se não bastasse a crítica à corrupção política e institucional (de salientar que o filme espelha alguns factos reais sobre as chamadas Guerras da Água, de Los Angeles, dos anos 1930, tendo no seu centro a polémica figura do industrial William Mulholland), Polanski atreve-se ainda a lançar o incesto para cima da mesa, o que dá contornos mais ácidos a alguns dos personagens. Finalmente, como típico dos anos 1970, o final trágico, sem nos dar a conclusão desejada, soterra-nos de pessimismo, com o total triunfo do mal.

Com interpretações notáveis de Jack Nicholson e Faye Dunaway (ambos nomeados para os Oscars), “Chinatown” é tanto um exercício de estilo, como uma homenagem a um género aparentemente desaparecido, como ainda um veículo para lançar um olhar cáustico a uma sociedade onde o dinheiro e influência política corrompem principalmente quem está nos lugares chave do poder. Roman Polanski consegue um filme com argumento excelente, um ritmo seguro e estimulante, e uma atmosfera perfeita.

“Chinatown” recebeu 11 nomeações para os Oscars, tendo ganho apenas do de Melhor Argumento. Seria mais premiado nos Globos de Ouro (Melhor Filme, Realização, Argumento e Actor). O filme teve ainda uma sequela “O Caso da Mulher Infiel” (The Two Jakes, 1990), protagonizado e realizado por Jack Nicholson, novamente com argumento de Robert Towne.

Produção:

Título original: Chinatown; Produção: Long Road Productions; País: EUA; Ano: 1974; Duração: 130 minutos; Distribuição: Paramount (A Gulf+Western Company); Estreia: 20 de Junho de 1974 (EUA), 18 de Dezembro de 1974 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Roman Polanski; Produção: Robert Evans; Argumento: Robert Towne; Fotografia: John A. Alonzo (filmado em Panavision); Produtor Associado: C.O. Erickson; Música: Jerry Goldsmith; Figurinos: Anthea Sylbert; Montagem: Sam O’Steen; Design de Produção: Richard Sylbert; Direcção Artística: W. Stewart Campbell; Cenários: Gabe Resh, Robert Resh, Ruby R. Levit; Efeitos Especiais: Logan Frazee; Caracterização: Hank Edds, Lee Harman.

Elenco:

Jack Nicholson (J.J. Gittes), Faye Dunaway (Evelyn Mulwray), John Huston (Noah Cross), Perry Lopez (Escobar), John Hillerman (Yelburton), Darrell Zwerling (Hollis Mulwray), Diane Ladd (Ida Sessions), Roy Jenson (Mulvihill), Roman Polanski (Homem com a Faca), Richard Bakalyan (Loach), Joe Mantell (Walsh), Bruce Glover (Duffy), Nandu Hinds (Sophie), James O’Reare (Advogado), James Hong (Mordomo de Evelyn), Beulah Quo (Criada), Jerry Fujikawa (Jardineiro), Belinda Palmer (Katherine), Roy Roberts (Prefeito Bagby), George Justin (Barbeiro), Fritzi Burr (Secretária de Mulwray), Charles Knapp (Médico Legista), Federico Roberto (Mordomo de Cross), Allan Warnick (Bibliotecário), John Holland (Agricultor no Vale), Jesse Vint (Agricultor no Vale), Jim Burk (Agricultor no Vale), Denny Arnold (Agricultor no Vale), Burt Young (Curly), Elizabeth Harding (Mulher de Curly), John Rogers (Mr. Palmer), Cecil Elliott (Emma Dill), Paul Jenkins (Polícia), Lee de Broux (Polícia), Bob Golden (Polícia).