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The ConversationSinopse:

Harry Caul (Gene Hackman) dirige uma empresa de vigilância, que fazendo uso das mais modernas técnicas, e de uma equipa de especialistas, se orgulha de conseguir espiar seja em que condições for. Um dia, trabalhando na escuta de um casal (Frederic Forrest e
Cindy Williams) que caminha por uma praça movimentada da cidade, Caul vai aos poucos encontrando informação que parece indicar que haverá um assassínio em preparação. Harry terá então de decidir se aquele foi apenas mais um trabalho, que uma vez concluído deverá ser esquecido, ou se por uma vez a sua consciência irá interferir nas consequências da escuta.

Análise:

Em 1974 Francis Ford Coppola estava entre as realizações do seus dois aclamadíssimos filmes de saga “O Padrinho” (The Godfather, 1972; e The Godfather, Part II, 1974). Sendo um dos expoentes da chamada Film School Generation, Coppola era também um produtor bem sucedido, após o estabelecimento do seu estúdio e companhia American Zoetrope, com a qual ajudou alguns dos novos realizadores da sua geração (como por exemplo George Lucas). Com menor mediatismo surgia, no mesmo ano que “O Padrinho, Parte II”, este “O Vigilante”, com estreia no Festival de Cannes, onde venceria a Palma de Ouro.

“O Vigilante” traz-nos uma história que tem tudo a ver com a atmosfera Noir, neste mesmo ano recuperada de modo ainda mais evidente com “Chinatown” de Roman Polanski. Como habitual no Film Noir temos a história de um homem solitário (presa ou caçador é algo que teremos de decidir aos poucos), que vive nas margens da lei, com uma ética própria, lutando para sobreviver por entre a selva urbana e o cinismo e falta de escúpulos que esta proporciona.

Pelo seu enredo, o filme insere-se na lógica de conspiração que é então transversal na sociedade norte-americana (recorde-se que este é o ano de Watergate, que levaria à demissão do presidente Nixon), e que então parece indicar que nada é o que parece, e lutas por poder são mantidas nas costas do público, determinando relações, quedas e ascenções em jogos de xadrês incompreensíveis e que desvirtuam as verdadeiras essências da democracia e liberdade.

A história é levemente evocativa do clássico de Michelangelo Antonioni “História de Um Fotógrafo” (Blow Up, 1966), de que Coppola era fã, e o qual influenciou ainda o filme “Blow Out – Explosão” (Blow Out, 1981), de Brian De Palma, que parte de uma premissa semelhante. Nela, o anti-herói que nos guia “O Vigilante” é Harry Caul (Gene Hackman), um especialista de vigilância, cuja empresa trabalha sob contrato, sem escolher os casos, nem se preocupar com as suas consequências. Como explícito nas conversas entre Harry e Stan (John Cazale), um dos seus agentes, o importante não é o contexto do material proveniente do sistema de escutas, mas sim fazer um trabalho bem feito.

Defeito de profissão, ou característica que o levou a escolher a profissão que tem, Harry é-nos mostrado como uma pessoa altamente paranóica, que espera ser vigiada do mesmo modo que vigia os outros. Assim constrói a sua vida como uma defesa contra todas as mais modernas técnicas de vigilância. Por isso Harry não tem telefone em casa, usa sistemas múltiplos de fechaduras, não mantém documentos importantes em casa, faz um escrutínio rigoroso do correio, que prefere enviado para caixas postais anónimas, e não se deixa enredar em relações sentimentais, fugindo assim que alguma pergunta sobre a sua vida pessoal é feita.

Com tal rigor na modelação da sua vida, Harry é um ser solitário, facilmente irascível, constantemente amedrontado, e com tendências paranóicas. Vítima do seu trabalho, é a ele que se dedica de corpo e alma, como um cientista se dedica à mais excitante das ciências.

Vivendo num equilíbrio emocional mais instável do que consegue adivinhar, Harry vai perdê-lo quando ganha uma obsessão com o caso que tem em mãos. Julgando que o fruto do seu trabalho de vigilância será um assassínio, Harry sente-se responsável. Tal leva-o a tentar contactar o seu empregador (interpretado por um muito jovem Harrison Ford), que o trata sempre de forma pouco conciliadora. Aos poucos Harry não resiste em vigiar por conta própria todos os aspectos relacionados com o caso, confirmando todas as suas piores suspeitas. O resultado é o extremar da sua paranóia, no medo de ser ele agora o vigiado.

De uma forma discreta e sóbria, com uma interpretação notável de Gene Hackman, Coppola foge ao charme dos épicos “O Padrinho”, construíndo um filme que parece sujo por vezes, como o é a cidade e as profissões descritas. Em vez de procurar a grandiosidade de planos e cenas, Coppola preocupa-se com a atmosfera, os pequenos detalhes, e a interpretação de Gene Hackman, que conduz o filme com os seus silêncios e olhares, mantendo sempre em alto nível a tensão psicológica que nos oprime até à última cena.

Apesar da inteligente fotografia do filme, o director de fotografia original, Haskell Wexler, foi despedido por divergências com Francis Ford Coppola, com muitas das cenas a serem filmadas novamente por Bill Butler. De autoria de Wexler parece ter restado a brilhante sequência inicial que, partindo de um plano aéreo, aos poucos se vai detalhando, descrevendo-nos o múltiplo sistema de escutas montado numa praça da cidade.

Para além da referida Palma de Ouro em Cannes, “O Vigilante” foi nomeado para três Oscars (Melhor Filme, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Som), dois deles foram perdidos para “O Padrinho, Parte II” também de Francis Ford Coppola, o grande triunfador desse ano.

Produção:

Título original: The Conversation; Produção: The Directors Company/ The Coppola Company / American Zoetrope; País: EUA; Ano: 1974; Duração: 113 minutos; Distribuição: Paramount (A Gulf+Western Company); Estreia: 7 de Abril de 1974 (EUA), 12 de Novembro de 1975 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Francis Ford Coppola; Produção: Francis Ford Coppola; Argumento: Francis Ford Coppola; Co-Produção: Fred Roos; Produtor Associado: Mona Skager; Fotografia: Bill Butler, Haskell Wexler [não creditado] (filmado em Technicolor); Música: David Shire; Design de Produção: Dean Tavoularis; Montagem: Richard Chew; Cenários: Doug Van Koss; Figurinos: Aggie Guerard Rodgers.

Elenco:

Gene Hackman (Harry Caul), John Cazale (Stan), Allen Garfield (Bernie Moran), Frederic Forrest (Mark), Cindy Williams (Ann), Michael Higgins (Paul), Elizabeth MacRae (Meredith), Teri Garr (Amy), Harrison Ford (Martin Stett), Mark Wheeler (Recepcionista), Robert Shields (Mimo), Phoebe Alexander (Lurleen).