Etiquetas

, , , , , , , ,

Anything ElseDepois do seu primeiro contrato com a DreamWorks ter terminado, a distribuidora continuou a apostar no realizador que via cada seu novo filme a facturar menos que o anterior. Novamente com a Gravier Productions por trás, e com um novo director de fotografia estrangeiro (desde Gordon Willis, Allen trabalhou sempre com estrangeiros), Allen escolheu Jason Biggs como versão mais nova de si próprio para uma comédia romântica, onde participavam ainda Christina Ricci, Danny DeVito, Stockard Channing e Jimmy Fallon, além do próprio Woody Allen.

Sinopse:

Jerry Falk (Jason Biggs) é um jovem escritor de material para comediantes, que um dia conhece o veterano David Dobel (Woody Allen), de quem se torna amigo e confidente. Nas suas conversas, Jerry conta como tem como principal problema nunca conseguir deixar ninguém, exemplificando com a sua história com Amanda (Christina Ricci), a namorada com quem tem uma relação difícil. Através de exemplos tirados de anedotas Dobel vai tentando convencer Jerry a acreditar mais em si, deixando o psiquiatra, a namorada e o empresário (Danny DeVito).

Análise:

Desde os anos 1990 habituámo-nos a ver o habitual papel de Woody Allen interpretado por outros actores, John Cusack (Balas sobre a Broadway), Tobey Maguire (As Faces de Harry), Kenneth Branagh (Celebridades), a que podemos talvez adicionar a própria Mia Farrow em “A Rosa Púrpura do Cairo”. Em “Anything Else” tal sorte coube a Jason Biggs, mas com uma novidade. Biggs contracena com o próprio Woody Allen.

Esta duplicidade de personagem funciona como uma conversa entre passado e presente, Jerry Falk (Biggs) é o habitual escritor preso entre conflitos criativos, medo da morte, decisões sobre a carreira e dificuldades sentimentais (ou seja, ele é Woody Allen aos 21 anos). Dobel (Allen) é uma espécie de versão mais velha de Alvy Singer de “Annie Hall”, também ele escritor de comédia, paranóico com o anti-semitismo, mas numa função de consciência de Falk, passando-lhe, insistente e anedoticamente, a sua sabedoria de vida, acumulada através de muitos anos de agruras.

A comparação entre “Anything Else” e “Annie Hall” é aliás evidente, como se Woody Allen estivesse a tentar fazer uma versão renovada, e mais juvenil da sua obra prima. Para além do facto de as profissões dos personagens principais serem as mesmas, as narrativas tocam-se noutros pontos. A cena inicial é um encontro para o qual a mulher (Amanda / Annie) chega atrasada. O modo como o par amoroso se conhece (através de um encontro com amigos) é-nos mostrado em ambos os filmes em flashback, e passa por diáologos pseudo-intelectuais de amor à primeira vista, segue-se o desinteresse sexual por parte do elemento feminino e a eventual traição.

Como principal diferença, o personagem de Amanda (Christina Ricci) é mais desinteressante e falso que o de Annie (ambas pretendentes a actriz e cantora), o que, apesar da deliciosa interpretação de Ricci, torna o enredo um pouco previsível. Entende-se no entanto a opção, pois Amanda, com os seus comportamentos exagerados (obsessão com a dieta, rejeição física de Jerry, sujeição à presença da mãe) existe apenas como ilustração de como Jerry, na sua ingenuidade disparatada, não consegue ver o óbvio, nem agir perante ele.

Acrescente-se ainda o modo de filmar as ruas de Nova Iorque (agora com um novo director de fotografia, o iraniano Darius Khondji), e as constantes interpelações de Jerry Falk falando directamente para a câmara, e temos uma consciente colagem ao universo de “Annie Hall”.

Se o filme ganha um pouco em relação aos anteriores filmes de Allen, é por conseguir ser um pouco menos unidimensional que as recentes comédias simples “Hollywood Ending”, “A Maldição do Escorpião Jade” e “Vigaristas de Bairro”, sendo aquele que no novo milénio mais se cola ao mundo habitual de Woody Allen. Perde, no entanto, por parecer um parente pobre dos filmes mais consagrados do autor.

Temos no entanto momentos inspirados, como a sátira ao psiquiatra que não fala a não ser para perguntar sobre sonhos, o empresário que trata todos os negócios como se fossem fatos (uma excelente interpretação de Danny DeVito), e muitos aforismos de Woody Allen, que têm a função de, de um modo terno, simplificarem o modo de olharmos para vida, no seu crescente existencialismo que justifica o próprio título. Este é explicado na frase do taxista que responde a todo o despejo de problemas de vida dos seus clientes com: “é como tudo o mais”.

Allen surge aliás, nesta fase da sua carreira, mais vocacionado para papéis secundários, que para aqueles que interpretou nas três comédias anteriormente citadas, nas quais pareceu sempre um pouco forçado. Como o velho conselheiro, que encontra Biggs no parque, e com quem fala de tudo e de nada, num misto de sabedoria e loucura, Allen volta a brilhar como actor, como há vários anos não conseguia. O próprio Allen terá constatado isso, e a partir de “Anything Else” só voltaria a participar como actor em dois dos seus filmes (“Scoop” e “Para Roma Com Amor”), sempre em papéis secundários.

Destaque para o cameo de Diana Krall. Já as presenças de Stockard Channing como Paula, a mãe de Amanda, e de Jimmy Fallon como anterior namorado de Amanda, são bastante desaproveitadas.

Com esse ar de parente pobre de “Annie Hall” e sem que Jason Biggs convença no papel principal (talvez por ser um papel já muito desgastado), o filme não conseguiu parar a curva descendente da popularidade de Woody Allen. É ainda assim uma melhoria em relação aos seus últimos filmes.

Produção:

Título original: Anything Else; Produção: DreamWorks Pictures / Gravier Productions Inc. / Perdido Productions; Produtor Executivo: Stephen Tenebaum; País: EUA; Ano: 2003; Duração: 108 minutos; Distribuição: DreamWorks SKG; Estreia: 27 de Agosto de 2003 (Festival de Veneza, Itália), 19 de Setembro de 2003 (EUA), 29 de Janeiro de de 2004 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin; Fotografia: Darius Khondji (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Laura Jean Shannon; Directora de Produção: Janice Williams; Direcção Artística: Tom Warren; Cenários: Regina Graves; Efeitos Especiais: John Ottesen, Ronald Ottesen; Caracterização: Lori Hicks, Nuria Sitja.

Elenco:

Woody Allen (David Dobel), Jason Biggs (Jerry Falk), Stockard Channing (Paula Chase), Danny DeVito (Harvey Wexler), Jimmy Fallon (Bob), Christina Ricci (Amanda Chase), Anthony Arkin (Cómico), David Conrad (Dr. Phil Reed), Adrian Grenier (Ray Polito), William Hill (Psiquiatra), Erica Leerhsen (Connie), Fisher Stevens (Empresário), Joseph Lyle Taylor (Bill), KaDee Strickland (Brooke), Diana Krall (A Própria), Maurice Sonnenberg (Dono do Cinema), Kenneth Edelson (Empregado de Hotel), Anthony J. Ribustello (Vândalo do Carro #1), Ray Garvey (Vândalo do Carro #2), Wynter Kullman (Emily), Zach McLarty (Ralph), Ralph Pope (Taxista).

Anúncios