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The Curse of the Jade ScorpionComo segundo filme de um contrato de três com a Dreamworks, que em contrapartida lhe valera a participação no filme de animação “Formiga Z” (AntZ, 1998) de Eric Darnell e Tim Johnson, Woody Allen trazia mais uma comédia, desta vez em jeito de comédia romântica, agora produzida pela sua irmã Letty Aronson, produtora dos filmes de Allen de então até hoje. Consigo estariam Helen Hunt, Charlize Theron, Dan Ackroyd, bem como vários dos actores secundários já conhecidos do público de Woody Allen como Wallace Shawn, Brian Markinson e David Ogden Stiers.

Sinopse:

C.W. Briggs (Woody Allen) é um investigador de fraudes de uma agência de seguros nos anos 1940, conhecido por fechar sempre os casos, facto que lhe é atribuído mais à sorte que ao talento. No escritório os métodos retrógrados de Briggs chocam com a nova directora Betty Ann Fitzgerald (Helen Hunt), amante secreta do patrão (Dan Ackroyd). Briggs e Betty Ann nutrem um conhecido ódio um pelo outro, mas quando numa festa, são hipnotizados pelo mágico Voltan (David Ogden Stiers), ambos começam a obedecer sem o saberem a ordens telefónicas de Voltan. Tal vai-lhes transformar a vida por entre crimes inexplicados e atracções amorosas incompreendidas por ambos.

Análise:

Em 2001 parecia certo aos fãs de Woody Allen que este se encontrava definitivamente no reino da comédia ligeira, sem quaisquer ligações aos grandes dramas allenianos que começaram com “Annie Hall” em 1977, e terminaram com “Maridos e Mulheres” em 1992.

“A Maldição do Escorpião de Jade” surge por isso como mais uma comédia despretensiosa, sem qualquer dos temas caros a Woody Allen, que não sejam o gosto pela época dourada do jazz, na qual a história decorre. E se Allen é perito na recriação das primeiras décadas do século XX, pintando-as com detalhe e o seu olhar nostálgico (veja-se “Os Dias da Rádio”, “A Rosa Púrpura do Cairo” e mesmo o mais recente “Através da Noite”), desta vez essa transposição para outra época parece gratuita e forçada, uma vez que em nada a história a justifica.

Algo que parece justificar a escolha dos anos 40, com as suas gabardinas e chapéus de feltro, é esta década ser o período áureo do Film Noir e da Screwball Comedy, sub-géneros que Allen procura emular neste seu filme. Poderá mesmo dizer-se que “A Maldição do Escorpião de Jade” é um cruzamento entre paródias a esses dois sub-géneros, que são sem dúvida caros a Woody Allen.

Começando pelo Film Noir, C.W. Briggs (Woody Allen) é um investigador de uma agência de seguros (são conhecidas as recorrentes piadas de Allen a agentes de seguros), num papel que fora o de Fred MacMurray em Pagos a Dobrar (Double Indemnity, 1942) de Billy Wilder. Como um típico anti-herói Noir, Briggs é um homem solitário, que resolve os casos à sua maneira, acabando por se imiscuir, sem o querer, num caso que põe em risco a sua liberdade. É mulherengo, e muito do humor reside na improbabilidade de, com a sua figura patética, poder ser o conquistador que constantemente alega ser.

No papel da mulher fatal temos uma interpretação inspirada de Charlize Theron, que proporciona o melhor diálogo do filme, onde como McMurray e Barbara Stanwick, ou como Bogart e Bacall, trocam palavras com Allen num diálogo de provocações, que pela mão de Allen é o mais absurdo diálogo imaginável.

Quanto ao lado Screwball Comedy, ele é trazido pela relação entre Briggs e Miss Fitzgerald (Helen Hunt), dois colegas que se odeiam, e que destilam ódio a cada palavra, com diálogos cortantes (e como não podia deixar de ser na versão alleniana, a roçar o patético), que nos fazem adivinhar que depois da guerra virá o romance.

Com uma história de crime, culpa de um hipnotizador que vai criar uma série de confusões nos personagens, “A Maldição do Escorpião de Jade” chega a ter um enredo inteligente, mas que é por vezes traído por decisões incompreensíveis. Por um lado, o papel de Dan Ackroyd é completamente desperdiçado. A química entre Allen-Hunt é desiquilibrada e nem sempre funciona. O próprio Allen surge desadequado nalgumas das suas cenas, não se revelando a escolha óbvia para a mistura de Cary Grant e Humphrey Bogart, que pretende parodiar. E por fim Allen dá-nos uma solução Deus Ex-Machina, que é porventura o seu momento mais baixo de sempre como argumentista. A própria recriação de uma época, se bem que tecnicamente irrepreensível (mais uma vez com o trabalho de câmara de Fei Zhao, e o design de Santo Loquasto), parece demasiado artificial e inorgânica.

Ainda assim, graças a uma história interessante, e a alguns diálogos inspirados, “A Maldição do Escorpião de Jade” é um filme agradável, se bem que considerado um dos piores da carreira de Woody Allen, opinião corroborada pelo próprio autor.

Produção:

Título original: The Curse of the Jade Scorpion; Produção: DreamWorks Pictures / Gravier Productions Inc. / VCL Licensing GmBH; Produtor Executivo: Stephen Tenebaum; País: EUA; Ano: 2001; Duração: 102 minutos; Distribuição: DreamWorks SKG; Estreia: 5 de Agosto de 2001 (EUA), 4 de Janeiro de de 2002 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin; Fotografia: Fei Zhao (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Suzanne McCabe; Directora de Produção: Janice Williams; Direcção Artística: Tom Warren; Cenários: Jessica Lanier; Efeitos Especiais: John Ottesen, Ronald Ottesen; Caracterização: Rosemarie Zurlo, Eva Polywka.

Elenco:

Woody Allen (CW Briggs), Dan Aykroyd (Chris Magruder), Helen Hunt (Betty Ann Fitzgerald), Brian Markinson (Al), Wallace Shawn (George Bond), David Ogden Stiers (Voltan), Charlize Theron (Laura Kensington), Elizabeth Berkley (Jill), Peter Gerety (Ned), John Schuck (Mize), John Tormey (Sam), Kaili Vernoff (Rosie), Carole Bayeux (Assistente de Voltan), Herb Lovelle (Guarda Nocturno), Carmen (Rose Kensington), Bob Dorian (Mike), Arthur J. Nascarella (Tom), Michael Mulheren (Herb Coopersmith), Peter Linari (Joe Coopersmith), Ray Garvey (Polícia na Esquadra), Dan Moran (Informador da rua).

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