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Small Time CrooksDesta vez distribuído pela Dreamworks, Woody Allen entrava no novo milénio com mais uma comédia simples de novo produzida pela Sweetland Films de Jean Doumanian (o sétimo filme de Allen para esta companhia, cuja vice-presidente era a sua irmã Letty Aronson). Novamente com Fei Zhao na fotografia, Allen voltava a contar com as presenças de Tracey Ullman (Balas Sobre a Broadway), Michael Rapaport (Poderosa Afrodite) e Brian Markinson (Através da Noite). O filme tinha ainda Elaine May e o britânico Hugh Grant nos principais papéis.

Sinopse:

Ray Winkler (Woody Allen) é um pequeno vigarista de meia idade, que já cumpriu tempo na cadeia por assaltos frustrados, mas que continua a pensar no grande golpe que lhe dará uma vida de luxo. Quando engendra um plano de assalto a um banco através da escavação de um túnel a partir de uma loja vizinha, este requer que a esposa Frenchy (Tracey Ullman) mantenha as aparências com uma loja de biscoitos. O inesperado sucesso da loja torna-os multimilionários sem que o assalto se chegue a concretizar. O peso do dinheiro na vida do casal irá, no entando, ter efeitos funestos quando as suas ambições se tornam demasiado diferentes.

Análise:

Com “Vigaristas de Bairro” Woody Allen voltava ao campo das comédias despretensiosas, e neste caso conseguiria uma daquelas que mais se distanciava dos seus temas habituais. De facto, até o personagem interpretado por Allen tem pouco a ver com os seus habituais alter-egos, parecendo simplesmente uma versão mais velha de Virgil Starkwell do seu primeiro filme “O Inimigo Público”.

Desta vez temos um grupo de falhados de Brooklyn, cujo sentido de classe ou cultura está abaixo de zero, facto que é usado para inúmeras piadas. Para tal Allen compôs um elenco que conta sobretudo com Tracey Ullman, como Frenchy, a esposa de Ray, exuberante, expressiva, e barulhenta (é de supor que as discussões domésticas do casal sejam inspiradas no que Allen descreve como sendo as discussões dos seus pais, já ilustradas em “Os Dias da Rádio”). Juntam-se os companheiros de plano, como, Michael Rapaport, que já em “Poderosa Afrodite” fora o paradigma do bem intencionado, mas completamente imbecil (a sua química com Allen, Tony Darrow e Jon Lovitz é deliciosa), características com que a prima do casal, May (Elaine May), rivaliza perfeitamente.

Com um humor episódico, feito de muitas situações insólitas e as suas habituais frases desconcertantes (“one liners”), Woody Allen parece ter neste filme um veículo para libertar muitas ideias soltas, algo que se vinha a tornar habitual desde “As Faces de Harry”. “Vigaristas de Bairro” funciona assim como uma divertida comédia, em que o centro do humor está num grupo de pessoas sem grande inteligência, e dadas a complicar o simples com soluções sem qualquer sentido.

O filme tem ainda um outro enredo, mais Alleniano, que revolve em torno do papel da cultura na vida das pessoas. Aqui, ao contrário de quase todos os outros filmes de Woody Allen, não temos intelectuais debatendo-se com a sua afirmação enquanto tal, mas sim um casal que é quase forçado a viver entre a elite social nova-iorquina. Se Ray o nega completamente, vendo a cultura como um tédio para pessoas falsas e convencidas, já Frenchy vê nela uma oportunidade de crescer e se afirmar socialmente. Um e outro acabarão por provar ser esse um mundo de falsidade e pretensão, aparente nas ocas festas em que participam e no comportamento de pessoas como David (Hugh Grant), um negociante de arte sem grandes escrúpulos, e o condescendente mentor de Frenchy.

Com uma história simples, baseada num humor directo, por vezes com Allen de volta ao humor físico, o filme é um pouco desequilibrado, com uma segunda parte séria, a seguir sem grande sucesso uma primeira parte de humor burlesco resultando essencialmente da relação entre Allen, Rappaport, Darrow e Lovitz.

“Vigaristas de Bairro” foi bem aceite pelo público americano, sendo aliás um dos poucos filmes de Allen a partir dos anos 1990 com maiores receitas nos EUA que na Europa, a que não foi alheio o investimento da Dreamworks. O filme valeu ainda a Tracey Ullman uma nomeação para os Globos de Ouro.

Produção:

Título original: Small Time Crooks; Produção: Magnolia Productions Inc. / Sweetland Films B.V. / Jean Doumanian Productions; Produtor Executivo: J.E. Beaucaire; País: EUA; Ano: 2000; Duração: 91 minutos; Distribuição: DreamWorks SKG; Estreia: 19 de Maio de 2000 (EUA), 8 de Fevereiro de 2002 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Jean Doumanian; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin; Fotografia: Fei Zhao (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Suzanne McCabe; Directora de Produção: Mara Hade Connolly; Direcção Artística: Tom Warren; Cenários: Jessica Lanier; Efeitos Especiais: John Ottesen, Ron Ottesen; Caracterização: Rosemarie Zurlo.

Elenco:

Woody Allen (Ray Winkler), Tony Darrow (Tommy), Hugh Grant (David), George Grizzard (George Blint), Jon Lovitz (Benny), Elaine May (May), Michael Rapaport (Denny), Elaine Stritch (Chi Chi Potter), Tracey Ullman (Frenchy Winkler), Scotty Bloch (Mulher de Edgar), Brian Markinson (Polícia), Douglas McGrath (Advogado de Frenchy), Peter McRobbie (Advogado de Frenchy), Isaac Mizrahi (Cozinheiro dos Winkler), Kristine Nielsen (Emily Bailey), Larry Pine (Charles Bailey), Dana Tyler (Repórter de TV), Brian McConnachie (Paul Milton), Riccardo Bertoni (Mordomo dos Winkler), Julie Lund (Linda Rhinelander), Maurice Sonnenberg (Garth Steinway), Richard Mawe (Anthony Gwynne), Frank Wood (Oliver), Howard Erskine (Langston Potter), Marvin Chatinover (Dr. Henske).