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EraserheadHenry Spencer é um cidadão pacato, que vive num qualquer subúrbio industrial, num apartamento que é um pequeno cubículo, sentindo a claustrofobia causada pelo que o rodeia. Ao descobrir, num excêntrico jantar de família, que a namorada está grávida, aceita casar com ela. Em sua casa o recém-nascido, de aspecto monstruosamente reptilíneo não pára de chorar, o que leva a que a esposa saia de casa de Henry. Este vive uma vida de eterno pesadelo, atormentado por sonhos, pela doença do estranho ser, e pelos seus desejos reprimidos.

Análise:

Em 1977 David Lynch escreveu, produziu e realizou a sua primeira longa-metragem, “No Céu Tudo É Perfeito” (título português retirado da canção “In Heaven”, usada no filme). Então ainda numa pequena produtora independente, Lynch foi ainda responsável por quase todos os detalhes técnicos, da montagem aos efeitos sonoros, passando pelo design e direcção artística.

Filmado a preto e branco, com fortes contrastes chiaroescuro, e decors opressivos, “No Céu Tudo É Perfeito” é uma distopia sobre uma pessoa, Henry (Jack Nance), que vive numa sociedade fortemente industrializada, onde as máquinas nunca páram de incomodar, e a sua residência é um pequeno cubículo num prédio cinzento numa zona aparentemente em ruínas.

Numa atmosfera que lembra um pouco “Metrópolis” (Metropolis, 1927) de Fritz Lang, ou “Brazil: O Outro Lado do Sonho” (Brazil, 1985) de Terry Gilliam, Henry é um ser pacato, que aceita o mundo em que vive, por mais estranho que nos pareça. A sua vida mudará no momento em que acolhe a namorada (Charlotte Stewart), e o filho de ambos, um pequeno monstro de cabeça reptilínea, que grita constantemente, num ruído fantasmagórico.

Sozinho, após a mulher o deixar, Henry vê-se incapaz de fazer o pequeno ser calar-se. Entre realidade e sonhos, Henry vai deixando que os seus dias se tornem cada vez mais retirados de pesadelos, onde a doença, transformações de corpos, intrusões da vizinha que ele deseja, e aparições dos seus sonhos, como a permanente Senhora do Radiador, que Henry gosta de ouvir cantar, preenchem todos os momentos de uma forma caótica.

Com “No Céu Tudo É Perfeito” David Lynch construiu uma história bizarra de um terror expressionista, numa atmosfera negra, repleta de simbolismo, naquilo a que o próprio autor chamou os seus medos pela paternidade. Numa referência directa a esse “medo” temos o filho de Henry, uma criatura monstruosa, deformada, mas que Henry parece aceitar como natural.

Todo o filme é construído como um contínuo pesadelo de episódios perturbadores, onde o corpo e as suas transformações é colocado em destaque, de um modo que relembra a obra de David Cronenberg. Veja-se a título de exemplo o jantar em casa dos senhores X com o trinchar das galinhas, as várias vezes em que Henry retira vísceras do interior de alguém ou de alguma coisa, ou a sequência final com a abertura das faixas que envolvem o filho de Henry.

É forte também a simbologia sexual, desde a sequência de abertura com a cabeça flutuante de Henry a expelir pela boca algo que se parece com um espermatozóide, que de seguida é visto num acto de fecundação. O próprio filho de Henry pode ser visto como tendo uma forma que relembra um espematozóide, fruto do desejo sexual, mas ao mesmo tempo o repressor desse desejo em Henry. Finalmente a cabeça flutuante de Henry será usada para fabricar lápis (ele que trabalhava numa tipografia) com borracha na ponta (eraserhead), porventura um objecto fálico.

Os restantes episódios (a senhora do radiador, a vizinha), parecem escapismos de Henry, que frequentemente deixa fantasia e realidade misturarem-se. Não espanta por isso que neles Henry veja o deu filho ser morto.

Tudo isto são elementos que fazem de “No Céu Tudo É Perfeito” um filme visceralmente perturbador, notável pela sua concepção visual e alcance dos efeitos sonoros. Dado o seu carácter simbólico e surreal, são múltiplas as reacções e interpretações que gera, sendo por isso um dos mais polémicos filmes de Lynch, mas para alguns críticos o seu melhor de sempre.

Produção:

Título original: Eraserhead; Produção: American Film Institute (AFI) / Libra Films; Produtor Executivo: David Lynch; País: EUA; Ano: 1977; Duração: 89 minutos; Distribuição: Libra Films International; Estreia: 19 Março de 1977 (Filmex Festival, EUA), 8 de Julho de 1994 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: David Lynch; Produção: David Lynch; Argumento: David Lynch; Fotografia: Herbert Cardwell, Frederick Elmes (preto e branco); Montagem: David Lynch; Design de Produção: David Lynch; Direcção Artística: David Lynch; Director de Produção: Doreen G. Small; Efeitos Especiais: Frederick Elmes, David Lynch; Efeitos Sonoros: David Lynch.

Elenco:

Jack Nance (Henry Spencer), Charlotte Stewart (Mary X), Allen Joseph (Mr. X), Jeanne Bates (Mrs. X), Judith Roberts (Vizinha), Laurel Near (Senhora no Radiador), Jack Fisk (Homem no Planeta) Jean Lange (Avó), Thomas Coulson (Rapaz), John Monez (Vagabundo), Darwin Joston (Paul), T. Max Graham [como Neil Moran] (O Patrão), Hal Landon Jr. (Operador da Máquina de Lápis), Jennifer Chambers Lynch (Rapariga).

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