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Sweet and LowdownDepois do papel principal na comédia de animação “AntZ”, Woody Allen, sendo conhecido o seu interesse pela música jazz do início do século XX, dedicou-lhe o seu filme seguinte. Este aconteceu na forma de um divertido pseudo-documentário sobre a vida de um guitarrista fictício, interpretado por Sean Penn. Com fotografia do chinês Fei Zhao e montagem de Alisa Lepselter (colaboradora de Allen até hoje), estreantes na equipa de Woody Allen, a música esteve a cargo do seu companheiro de longa data, Dick Hyman. Allen surge no filme apenas em pequenos comentários em nome próprio.

Sinopse:

Filmado como um documentário, o filme mostra-nos alguns acontecimentos marcantes da vida de Emmet Ray (Sean Pean), considerado pelo próprio, e pelos críticos, como o segundo melhor guitarrista da sua geração, logo atrás de Django Reinhardt. Esse estigma marcaria aliás Emmet, nunca se levando completamente a sério, vivendo uma vida boémia, de episódios anedóticos, nunca se dando na totalidade, quer à sua arte, à profissão, ou às mulheres como Hattie (Samantha Morton) ou Blanche (Uma Thurman), que aceitou em parte da sua vida, sem nunca as ter amado.

Análise:

É conhecida a dedicação de Woody Allen à música jazz, ele próprio um executante conceituado, com várias gravações, digressões internacionais, e muitos anos de espectáculos em Nova Iorque. Ela está por isso presente em praticamente todos os seus filmes, por vezes marcando o contexto nos quais as histórias decorrem. Mas nunca como em “Através da Noite” (a partir de um antigo argumento que fora para a gaveta, chamado “The Jazz Baby”) ela foi homenageada de forma tão directa.

Para o fazer, em “Através da Noite” Woody Allen volta à forma do pseudo-documentário (mockumentary), como fizera com “Zelig” de 1983, ou mais remotamente, com “O Inimigo Público” de 1969. Mas, e embora o filme contenha algumas pseudo-entrevistas extra-narrativa, com o próprio Woody Allen e e críticos musicais ou biógrafos como Nat Hentoff e Douglas McGrath, que têm a função de introduzir os temas, e lançar questões, “Através da Noite” distingue-se dos filmes citados por uma narrativa mais coesa e menos dependente da forma de documentário.

De facto, o filme de Allen que mais se parece com este “Através da Noite” será “Os Dias da Rádio” de 1987. Isto deve-se a que ambos os filmes são contados com uma enorme nostalgia por épocas já desaparecidas, que as faz parecer um tempo de contos de fadas, onde verdade e fantasia coexistem, e os episódios rocambolescos da vida dos personagens descritos surgem como mitos urbanos aceites como forma de embelezar esse outro tempo onde queremos crer que tudo era possível, mais inocente e único.

É essa atmosfera de mito urbano nostálgico que conduz a narrativa de “Através da Noite”, que nos dá a conhecer a história por vezes patética de Emmet Ray, o segundo melhor guitarrista do mundo do seu tempo. Ray (numa brilhante interpretação de Sean Penn, que lhe valeu uma nomeação para os Oscars), é um guitarrista que, embora tenha consciência do seu génio, e tenha um ego exagerado, nunca se leva a sério, com medo de um dia ter de competir com aquele que idolatra e teme: Django Reinhardt.

Por isso Emmet bloqueia-se e boicota-se. Está constantemente bêbedo, não consegue segurar um contrato, não se dá a ninguém, teme deixar-se apaixonar, e dedica o tempo a ver comboios, matar ratos a tiro, ou jogar bilhar. A sua vida boémia inclui para além do álcool, noitadas com prostitutas e drogas, e efémeros sonhos de grandeza, como surgir em palco cavalgando um crescente de lua.

Assim, de episódio em episódio vamos assistindo às opções mais estranhas e situações mais bizarras que definem a vida e carreira de Emmet Ray, um músico que, citando o próprio Woody Allen em “As Faces de Harry” “não funcionava bem na vida, mas funcionava bem na arte.”

É aliás este o tema Alleniano mais presente em “Através da Noite”. Num filme que parece quase deslocado da restante obra do autor, por não trazer consigo os temas recorrentes de Allen (quer autor, quer personagem), Emmet Ray recupera-nos a velha dicotomia do autor enquanto homem e enquanto artista. Se já em “Balas sobre a Broadway” se fizera claramente a pergunta “é legítimo amar só o artista ou só o homem?”, temos em Emmet um homem que não se deixava amar, e que era a todos os níveis uma pessoa imppossível de amar, mas que artisticamente carregava uma paixão transcendia quem era enquanto pessoa.

De carácter episódico, o filme é marcadamente uma comédia, onde Sean Penn é o fulcro de todo o humor, como o é de toda a história. Tendo como pontos altos as interpretações musicais, e a descrição nostálgica de uma era quase mítica, com o olho para o detalhe típico de Allen quando se dedica a este período. Destacam-se ainda as bem conseguidas interpretações de Samantha Morton (a muda, que espalha encanto e delicadeza sem proferir uma palavra, e foi instruída para interpretar como Harpo Marx) e Umma Thurman (no papel da exuberante intelectual que usa os amantes para obter matéria para os seus livros).

Como ponto mais fraco, o facto de o filme se perder um pouco numa história quase sem rumo, nem desenvolvimento que não seja a observação de um personagem que comete sempre os mesmos erros.

Sendo, por estas razões, uma comédia desprensiosa e cativante (como o citado “Os Dias da Rádio”), “Através da Noite” conseguiu uma boa resposta do público, e mais duas nomeações para os Oscars (Melhor Actor – Penn, e Melhor Actriz Secundária – Morton).

A guitarra de Emmet é tocada na banda sonora pelo guitarrista Howard Alden, que foi o professor de guitarra de Sean Penn para o filme.

Produção:

Título original: Sweet and Lowdown; Produção: Magnolia Productions, Inc.; Sweetland Films B.V.; Produtor Executivo: J.E. Beaucaire; País: EUA; Ano: 1999; Duração: 95 minutos; Distribuição: Sony Pictures Classics; Estreia: 4 de Setembro de 1999 (EUA), 22 de Setembro de 2000 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Jean Doumanian; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Richard Brick; Fotografia: Fei Zhao; Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Laura Cunningham Bauer; Arranjos e Direcção Musical: Dick Hyman; Direcção Artística: Tom Warren; Cenários: Jessica Lanier; Efeitos Especiais: John Ottesen, Ron Ottesen; Caracterização: Rosemarie Zurlo, Eva Polywka.

Elenco:

Anthony LaPaglia (Al Torrio), Brian Markinson (Bill Shields), Gretchen Mol (Ellie), Samantha Morton (Hattie), Sean Penn (Emmet Ray), Uma Thurman (Blanche), James Urbaniak (Harry), John Waters (Mr. Haynes), Tony Darrow (Ben), Brad Garrett (Joe Bedloe), Vincent Guastaferro (Sid Bishop), Denis O’Hare (Jake), Molly Price (Ann), Kaili Vernoff (Gracie), Woody Allen (O próprio), Ben Duncan (O próprio), Daniel Okrent (A.J. Pickman), Dan Moran (Patrão), Constance Shulman (Hazel, Prostituta #1), Kellie Overbey (Iris, Prostituta #2), Carolyn Saxon (Phyliss), Drummond Erskine (Primeiro Sem Abrigo), Joe Ambrose (Segundo Sem Abrigo), Joseph Rigano (Stagehand), Dennis Stein (Dick Ruth, Dono do Clube), Nat Hentoff (O próprio), Katie Hamill (Mary), Carole Bayeux (Rita, Anfitriã da festa de ópio), Fred Goehner (William Weston), Douglas McGrath (O próprio), Sally Placksin (Sally Jillian), Mick O’Rourke (Assaltante), John Patrick McLaughlin (Assaltante), Chuck Lewkowicz (Polícia), Rick Mowat (Homem do pneu furado), Ted Wilkins (Dono da Estação de Serviço), Michael Sprague (Django Reinhardt).

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