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DeliveranceSinopse:

Quatro amigos (Jon Voight, Burt Reynolds, Ned Beatty e Ronny Cox) decidem passar um fim-de-semana a descer o rio Cahulawassee, na Georgia, em canoa, antes que a construção de uma barragem transforme toda aquela região. Vindos da cidade, vêem como um desafio, domar o lado mais selvagem do rio e da natureza. Mas o que não esperam é o lado selvagem dos humanos que ali habitam, e que os olham com desconfiança. O que vai surgir do confronto com os locais vai marcar as suas vidas para sempre.

Análise:

“Fim-de-Semana Alucinante” foi o filme de afirmação de John Boorman, um realizador inglês que então trabalhava em Estados Unidos, e se tornou parte da geração que ajudaria a criar a nova Hollywood dos anos 1970.

Também produzido por Boorman, a partir de um romance de James Dickey, “Fim-de-Semana Alucinante” é o encontro de dois mundos, ou mesmo duas eras em pleno século XX. O local escolhido não pode, por isso, ser mais apropriado: um rio prestes a deixar de o ser, quando uma barragem formar um grande lago sob o qual ficará toda aquela região, e o velho mundo der lugar ao progresso.

De um lado temos quatro amigos, exemplos de vida urbana, satisfeitos com as suas rotinas de cidade, empregos e famílias. Do outro a natureza ainda num estado selvagem, nas margens do rio Cahulawassee, na Georgia. No grupo destaca-se Lewis (Burt Reynolds), o líder, que quer rasgar a sua rotina, e vencer essa natureza que ele sente como um desafio. O que para os outros é uma passeata diferente, para Lewis é uma afirmação pessoal, uma filosofia de vida que quer incarnar, para se sentir em sintonia com o que de mais primário e instintivo existe no ser humano, longe dos condicionamentos da sociedade.

Mas o que de mais selvagem os quatro amigos terão de enfrentar não será apenas o rio e os seus traiçoeiros rápidos. Desde logo se percebe que chegaram a uma região pouco habituada a forasteiros. Uma região de casas isoladas, famílias de práticas suspeitas (o famoso inbreeding dos Estados Unidos, espécie de mito que acredita que em certas zonas mais remotas, os habitantes vivem incestuosamente, reproduzindo-se dentro da mesma família), e acima de tudo uma enorme desconfiança por tudo o que vem de fora.

Se essa realidade começa a insinuar-se de modo ligeiro, nos olhares desconfiados, rudez de gestos, e risos trocistas e pouco amigáveis, mais tarde ganha forma de violência declarada, quando Ed (John Voight) e Bobby (Ned Beatty), são aprisionados, e abusados sexualmente por dois locais. A partir de então a luta pela sobrevivência torna-se mais real, com dois perigos (o natural e o humano) sempre à espreita naquele ambiente hostil.

As decisões que os amigos têm de tomar, para lidar com a situação, mostram-nos também como, de repente, passámos para um outro mundo, onde não há lei, e a moral é apenas a da auto-preservação. Como é típico dos filmes deste período (ver por exemplo “Cães de Palha”, de Sam Peckinpah), somos colocados perante o dilema entre tomar a decisão que seria correcta, num mundo perfeito, no qual habitualmente acreditamos; ou, levados para além dos limites físicos e psicológicos, decidir de modo instintivo, esquecendo todas as regras da cvilização, por não nos sentirmos mais parte dela.

Essas decisões e as suas consequências resultam numa total transformação dos quatro amigos, seja física ou moral, por acidente ou provocada pelo confronto, nenhum deles será mais o mesmo.

Com uma fotografia lindíssima, que nos mostra o rio e suas margens quase como um documentário, John Boorman criou uma obra inquietante, com cenas chocantes, onde, a ritmo cada vez mais alucinante, o idílio planeado se torna um pesadelo, e em que os habitantes das comunidades isoladas da Georgia mais remota nos são mostrados como selvagens repletos de malícia e preconceito.

“Fim-de-Semana Alucinante”, foi um sucesso em termos críticos, e recebeu várias nomeações para os Oscars e os Globos de Ouro, bem como um Grammy para o tema “Dueling Banjos”, que tem um papel proeminente no início do filme. O filme representou a estreia no écrã de Ronny Cox e Ned Beatty, e foi o primeiro grande papel de Burt Reynolds.

Produção:

Título original: Deliverance; Produção: Warner Bros. / Elmer Enterprises; País: EUA; Ano: 1972; Duração: 109 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 30 de Julho de 1972 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: John Boorman; Produção: John Boorman; Argumento: James Dickey [a partir de um livro de sua autoria]; Fotografia: Vilmos Zsigmond (filmado em Panavision, Technicolor); Montagem: Tom Priestly; Direcção Artística: Fred Harpman; Director de Produção: Wallace Worsley; Efeitos Especiais: Marcel Vercoutere; Guarda-roupa: Bucky Rous; Caracterização: Michael Handcock.

Elenco:

Jon Voight (Ed), Burt Reynolds (Lewis), Ned Beatty (Bobby), Ronny Cox (Drew), Bill McKinney (Homem da Montanha), Herbert ‘Cowboy’ Coward (Homem Sem Dentes), James Dickey (Xerife Bullard), Ed Ramey (Velho), Billy Redden (Lonnie), Seamon Glass (Primeiro Griner), Randall Deal (Segundo Griner).