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Deconstructing HarryEm 1997, Woody Allen voltava a trocar de distribuidora, estando agora ligado à Fine Line Features, uma subsidiária da New Line Cinema. Novamente sob a produção de Jean Doumanian, Allen voltava a reunir uma constelação de estrelas, para um regresso às comédias dramáticas, ao estilo dos seus maiores sucessos dos anos 80. Consigo, numa história em que cada personagem se desdobra em vários actores, estavam agora Judy Davis, Julia Louis-Dreyfus, Tobey Maguire, Robin Williams, Julie Kavner, Kirstie Alley, Mariel Hemingway, Demi Moore, Stanley Tucci, Elisabeth Shue, Billy Crystal.

Sinopse:

Harry Block (Woody Allen) é um escritor a braços com um bloqueio de inspiração. Sem conseguir ideias para um novo livro, Harry vê-se a reavaliar a sua vida atrás do encontro com algumas pessoas do passado, e uma viagem para receber um prémio honorário. Os vários incidentes relembram sempre passagens dos seus livros, onde Harry, para horror das pessoas da sua vida, as usou descaradamente como fonte para os seus personagens. Pessoas reais e personagens da sua ficção vão-lhe surgir permanentemente obrigando-o a repensar quem é.

Análise:

“As Faces de Harry” foi, no momento, talvez o mais criativo filme de Woody Allen, e certamente o mais denso desde “Maridos e Mulheres” de 1992. Depois de quatro filmes que foram comédias ligeiras, como que uma necessidade de respirar por parte do autor, dava-se aqui o retorno à comédia dramática tipicamente Alleniana, de análise de um personagem, onde os temas mais difícieis surgem mesclados em tons de comédia.

O personagem central é, como não pode deixar de ser, centrado no próprio Woody Allen (aqui Harry Block), o mesmo personagem que podia ser o de “Annie Hall”, “Manhattan”, “Recordações”, “Ana e as Suas Irmãs” ou “Maridos e Mulheres”, um intelectual da classe média-alta nova iorquina, numa crise de identidade (ou de meia idade), misantrópico, egocêntrico, constantemente neurótico, e marcado por uma série de relações amorosas falhadas.

É verdade que Allen não inova nos temas. Senão vejamos, temos o escritor bloqueado como em “Recordações” (um filme que claramente inspira este filme de 1997); o uso da psicanálise como despoletador de atitudes e relações, já explorado em “Uma Outra Mulher” e “Toda a Gente diz que Te Amo”; os conflitos de Allen com a tradição judaica, no seu declarado ateísmo; o medo da morde e da doença; a dificuldade em obter tempo com o filho, como em “Manhattan”; a atracção pela aluna, já visto em “Manhattan”, “Ana e as Suas Irmãs” e em “Maridos e Mulheres”; e a clássica infidelidade matrimonial, com a constante valorização do sexo. Como novidades de gosto duvidoso temos um certo elogio da prostituição, e o uso constante da “f-word” pela boca do protagonista.

Marcando ainda mais a exploração de terreno familiar, a segunda parte do filme é construída como um decalque de “Morangos Silvestres ” (Smultromstället, 1958) de Ingmar Bergman, um filme já bastante revisitado em “Uma Outra Mulher”. Como no filme sueco, Harry Block enceta uma viagem de carro, acompanhado de pessoas pouco improváveis (um amigo, uma prostituta e o filho raptado), para ir receber um prémio. Tal como no filme sueco, a viagem provoca uma série de memórias, e recontros com personagens imaginários, que levarão Harry a rever (literalmente) momentos do seu passado. O outro filme que serve de referência a “As Faces de Harry” é “Fellini Oito e Meio” (8½, 1963) de Federico Fellini, já usado em “Recordações”, e no qual um autor também está num bloqueio criativo.

Aquilo que de mais original o filme nos traz é o modo como essa desconstrução de Harry é feita, entre personagens reais e imaginados, histórias vividas, e pensadas, que afinal preenchem o interior de cada ser humano, nas palavras do protagonista “o modo como cada um distorce a realidade”. Se desde sempre nos fica a pergunta sobre quanto de autobiográfico temos num filme de Woody Allen (com o próprio geralmente a negar essa possibilidade), “As Faces de Harry” gritam-nos aos ouvidos que um autor usa sempre a sua vida na sua obra.

No filme, Harry é escritor e não realizador (o que parece adequar-se à sua frase “disfarçar ligeiramente o autor”), mas todos os seus livros são retatos fiéis de episódios da sua vida (com os devidos exageros para efeito cómico), a que ninguém fica indiferente, e que ninguém lhe perdoa. E é aqui que o filme ganha vida, pois cada pedaço de um livro é-nos trazido por diferentes actores (por exemplo Harry Block é-nos mostrado em três livros por: Richard Benjamin, Tobey Maguire e Stanley Tucci), o mesmo acontecendo com diferentes personagens. Alguns exemplos notáveis são a segunda mulher Helen (Kirstey Alley, na realidade, e Demi Moore na ficção de Harry) e a amante Lucy, irmã da terceira mulher (Judy Davis na realidade e Julia Louis-Dreyfus na ficção). Os desdobramentos são imensos, colocando por vezes personagens de ficção a interagir com o Harry real, num argumento artificioso, inteligentíssimo e sempre refrescante.

O discurso de aceitação do prémio Nobel de José Saramago (curiosamente apenas um ano depois deste filme) intitulava-se “De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz”. Este é o tema de “As Faces de Harry” pois é através dos vários episódios, recordando histórias, o modo como elas foram ficcionadas por si, e imaginando-se a conversar com os seus personagens, que Harry vai colocar a sua cabeça em ordem, e finalmente fazer a paz com a sua vida (exemplificada na benção ao casal amigo: Elizabeth Shue e Billy Crystal), ultrapassando os bloqueios que o atormentam. Em jeito de análise final, o protagonista chega à mais sincera auto-apreciação de que é alguém que não consegue funcionar bem na vida, mas consegue-o na arte.

Com diversas sequências imaginadas, algumas claramente alegóricas (como a divertidíssima descida ao inferno, e a célebre presença de Robin Williams como o homem desfocado que obrigava a família a usar óculos especiais para o verem como ele queria ser visto), o filme acaba por funcionar como um sonho, o que de certo modo justifica a sequência final, em que, um pouco à luz do que acontecera em “Recordações” o autor se vê homenageado por todos os seus conhecidos e personagens, esfumando-se assim quaisquer barreiras entre realidade e ficção.

Dado o seu carácter episódico, “As Faces de Harry” percorrem uma enorme diversidade de estilos a nível de fotografia (desde interiores soturnos, a um inferno de cores barrocas, dos clássicos travellings pelos passeios de Nova Iorque, aos ambientes pastorais dos arredores campestres) aqui e ali lembrando outros filmes do autor. Há um regresso à montagem de saltos abruptos dentro de uma mesma frase, já vista em “Maridos e Mulheres”, que reforça o lado documental que o filme só por vezes parece querer assumir. Exemplo são as conversas de Harry com o seu psicanalista que parecem pedaços de entrevistas para um documentário.

O filme foi nomeado para o Oscar de Melhor Argumento (a décima terceira vez até ao momento), e embora não conseguisse recuperar o público perdido, mantém-se para os críticos como um dos melhores filmes de Allen nos anos 90.

Produção:

Título original: Deconstructing Harry; Produção: Sweetland Films /Jean Doumanian Productions; Produtor Executivo: J.E. Beaucaire; País: EUA; Ano: 1997; Duração: 96 minutos; Distribuição: FineLine Features (a Time Warner Company); Estreia: 26 de Agosto de 1997 (Venice Film Festival, Itália), 12 de Dezembro de 1997 (EUA), 30 de Janeiro de 1998 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Jean Doumanian; Argumento: Woody Allen; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Suzy Benzinger; Director de Produção: Charles Darby; Direcção Artística: Tom Warren; Cenários: Elaine O’Donnell, Susan Kaufman; Efeitos Especiais: John Ottesen; Caracterização: Rosemary Zurlo, Margot Boccia.

Elenco:

Caroline Aaron (Doris, Irmã de Harry), Woody Allen (Harry Block), Kirstie Alley (Joan, segunda mulher de Harry), Bob Balaban (Richard, amigo de Harry), Richard Benjamin (Ken – Harry como personagem), Eric Bogosian (Burt, marido de Doris), Billy Crystal (Larry / O Diabo), Judy Davis (Lucy), Hazelle Goodman (Cookie, a Prostituta), Mariel Hemingway (Beth Kramer), Amy Irving (Jane, terceira mulher de Harry), Julie Kavner (Grace, mulher de Mel), Eric Lloyd (Hilly, Filho de Harry), Julia Louis-Dreyfus (Leslie, Lucy como personagem), Tobey Maguire (Harvey Stern, Harry como personagem), Demi Moore (Helen, Joan como personagem), Elisabeth Shue (Fay Sexton), Stanley Tucci (Paul Epstein, Harry como personagem), Robin Williams (Mel), Hy Anzell (Max), Scotty Bloch (Ms. Paley), Philip Bosco (Professor Clark), Robert Harper (Médico de Harry), Shifra Lerer (Dolly), Gene Saks (Pai de Harry), Stephanie Roth (Janet, Jane como personagem), Joel Leffert (Norman, marido de Leslie), Frederick Rolf (Médico de Harvey), Annette Arnold (Rosalee, mulher de Harvey), Elisabeth Kieselstein-Cord (Irmã de Rosalee), Irving Metzman (Vendedor, colega de Harvey), Sunny Chae (Lily Chang, prostituta de Harvey), Ralph Pope (Morte), Tony Darrow (Cameraman), Timothy Jerome (Realizador), Barbara Hollander (filha de Mel), Adam Rose (filho de Mel), David S. Howard (Médico de Mel), Eugene Troobnick (Professor Wiggins), Ray Aranha (Professor Aranha), Paul Giamatti (Professor Abbott), Marvin Chatinover (Professor Cole), Daniel Wolf (Professor Wolf), Waltrudis Buck (Reitor da Universidade). Ray Garvey (Polícia no Campus), Linda Perri (Polícia no Campus).

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