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Everyone Says I Love YouUm ano depois de “Poderosa Afrodite”, Woody Allen apresentava mais uma comédia ligeira, desta vez contendo duas novidades. Era o seu primeiro musical, e repartia-se por cenas em Nova Iorque, Veneza e Paris. Era talvez o reconhecimento de Allen de que o seu público europeu se estava a tornar mais importante que o americano. Novamente com o repetente Alan Alda, Allen usava mais uma constelação de estrelas para abrilhantar uma história feita de pequenas histórias. Destaque para a presença de Drew Barrymore, Lukas Haas, Goldie Hawn, Natasha Lyonne, Edward Norton, Julia Roberts e Tim Roth.

Sinopse:

Através do olhar e narração de DJ (Natasha Lynnone), acompanhamos as peripécias da sua família ao longo de um ano. DJ vive com a mãe, Steffi (Goldie Hawn), e o padrasto, Bob (Alan Alda), e os meio-irmãos. Estes são: Skylar (Drew Barrymore), noiva de Holden (Edward Norton), mas à beira de o deixar pelo ex-prisioneiro Charles Ferry (Tim Roth); Scott (Lukas Haas), que de repente se tornou um republicano conservador para desgosto do pai; e Lane (Gaby Hoffmann) e Laura (Natalie Portman), duas irmãs que fazem tudo juntas, até se apaixonarem pelo mesmo rapaz.

Pelo meio DJ tem ainda tempo de colocar o pai, Joe (Woody Allen), um escritor que vive em Paris, no rasto de Von (Julia Roberts), pois espia as sessões de psicanálise desta, e pode ensinar o pai como a conquistar.

Análise:

“Toda a Gente Diz que te Amo” tornou-se o quarto filme consecutivo de Woody Allen no campo da comédia ligeira, desta vez atrevendo-se mesmo ao impensável: um musical.

Novamente reunindo um elenco notável, onde ao já habitual Alan Alda se juntavam agora Goldie Hawn, Julia Roberts, Drew Barrymore, Edward Norton e Tim Roth (para além da novata Natalie Portman num pequeno papel), a história traz algumas reminiscências de “Os Dias da Rádio” por, tal como nesse filme, ser construída sobre uma narração em off, e nos apresentar uma série de histórias em torno da mesma família, por vezes desligadas entre si, como pequenos episódios de cariz anedótico.

Também como em “Os Dias da Rádio”, a nostalgia domina “Toda a Gente Diz que te Amo”, seja porque a narração de DJ (Natasha Lynnone) aponta nesse sentido (o olhar adocicado para um ano da vida daquela família), quer porque várias relações da história estão repletas dessa nostalgia, em particular a que une os ex-esposos Joe (Woody Allen) e Steffi (Goldie Hawn), que concordam ser melhores amigos do que foram cônjuges, mas mantêm uma levíssima chama desse antigo amor aceso, que lhes continua a aquecer o coração.

Com um início focando o par romântico clássico, aqui desempenhado por Edward Norton e Drew Barrymore (e que resulta num triângulo ridículo com o criminoso Charlie Perry, num excelente desempenho de Tim Roth), parte da história revolve em torno de Joe, e dos seus romances falhados. Woody Allen volta a ser o nervoso neurótico gesticulante, e em constantes crises amorosas. Mas em “Toda a Gente Diz que te Amo”, mais que um modo de criar um personagem que nos toque ou faça pensar, é apenas um pretexto para a comédia, na forma como, com a ajuda da filha DJ, Joe conquista Von (Julia Roberts).

Embora o filme seja uma comédia directa (sem nada de novo em relação aos anteriores), ele apresenta todos os temas típicos do autor. Assim temos, como sempre, a psicanálise, de onde DJ consegue saber todos os gostos de Von para ensinar o pai a conquistá-la; temos o famoso uso das conversas intelectuais como técnica de engate (é com citações de enciclopédia sobre Tintoretto que Joe capta o interesse de Von); e discussões filosóficas sobre o sentido da vida, presentes na conversa no velório do avô. Como novidade temos referências directas à política norte-americana, com Scott (Lukas Haas), um dos filhos de Bob (Alan Alda) e Steffi a revelar-se republicano conservador, apenas porque um embolismo está a retirar-lhe oxigénio do cérebro. No entanto, em nenhum momento estes temas tentam tornar o filme mais denso, desde logo se percebendo que são apenas subterfúgios para a comédia.

E temos sobretudo a homenagem ao cinema, tanto presente na sequência final, na festa de homenagem a Groucho Marx (que em vários filmes de Allen é citado como um dos seus heróis, e o próprio título do filme vem de uma canção do filme dos irmãos Marx “Horse Feathers”), como fundamentalmente na própria decisão de fazer o filme um musical, usando, claro, a sua música preferida: clássicos do jazz.

É verdade quem nem todas as cenas resultam pelo melhor, há vozes que não nasceram para cantar, e Woody Allen não sabe dançar, como é visível na cena final com Goldie Hawn. Mas o carácter deliberadamente tosco de algumas cenas musicais apenas reforça o efeito cómico. O que surpreende e nos faz rir é tanto o inapropriado de algumas canções (Alan Alda a cantar “I’ll never love again”, porque a filha cancelou o noivado, é exemplo disso), como o inesperado de algumas das sequências de dança, brilhantes pelo bizarro que apresentam. Destaque para a dança do hospital, a dos fantasmas, e claro, as acrobacias impossíveis de Goldie Hawn na referida cena final.

De não menosprezar é a homenagem prestada a Nova Iorque, tendo o filme uma enorme variedade de postais ilustrados, que nos mostram a beleza da cidade narrada por DJ (ou pelos olhos de Allen, com quem a narração se confunde). A volatilidade da beleza, e as transformações ao longo de um ano são aliás simbolizadas pela própria DJ, que não só começa cada descrição dizendo ser aquela a melhor época da cidade, como está permanentemente a descobrir o grande amor da sua vida. Será esse um sintoma de que também Woody Allen sofre da nostalgia de uma juventude onde tudo passa depressa, e tudo tem um valor exagerado?

Produção:

Título original: Everyone Says I Love You; Produção: Miramax Films / Sweetland Films / Jean Doumanian Productions; Produtores Executivos: Jean Doumanian, J. E. Beaucaire; País: EUA; Ano: 1996; Duração: 101 minutos; Distribuição: Miramax Films; Estreia: 6 de Dezembro de 1996 (EUA), 23 de Maio de 1997 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Co-Produtora: Helen Robin; Directores de Produção: Lucia Comelli (Veneza), Michele Virgilio (Veneza), Suzanne Wiesenfeld (Paris); Coreografia: Graciela Daniele; Orquestração e Direcção Musical: Dick Hyman; Direcção Artística: Tom Warren (Nova Iorque), Cinzia Sleiter (Veneza, Paris); Cenários: Elaine O’Donnell; Caracterização: Fern Buchner, Rosemary Zurlo; Efeitos Visuais: William Kruzykowski.

Elenco:

Alan Alda (Bob), Woody Allen (Joe), Drew Barrymore (Skylar), Lukas Haas (Scott), Gaby Hoffmann (Lane), Goldie Hawn (Steffi), Natasha Lyonne (DJ), Edward Norton (Holden), Natalie Portman (Laura), Julia Roberts (Von), Tim Roth (Charles Ferry), David Ogden Stiers (Pai de Holden), Scotty Bloch (Mãe de Holden), Patrick Cranshaw (Avô), Billy Crudup (Ken), Trude Klein (Frieda), Robert Knepper (Greg), Tommie Baxter (Velhinha), Itzhak Perlman (O Próprio), Navah Perlman (Pianista), Barbara Hollander (Claire), John Griffin (Jeffrey Vandermost), Waltrudis Buck (Psicanalista), Frederick Rolf (Empregado do Le Cirque), Timothy Jerome (Médico da sala de Raios X), Daisy Prince (Enfermeira), Linda Kuriloff [como Linda Maurel-Sithole (Enfermeira), Andrea Piedimonte (Alberto), Robert Khakh (Taxista).

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