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Straw DogsSinopse:

David Sumner (Dustin Hoffmann) é um americano que com a esposa inglesa Amy (Susan George) vem morar para o interior de Inglaterra, numa propriedade rural que o casal se dispõe a remodelar. Para David tal é a oportunidade de desenvolver o seu trabalho de investigação, longe da confusão urbana. Mas cedo se apercebe que a rudez e hábitos dos locais, que olham o casal com desprezo, provocam nele um desejo de isolamento e não ingerência. Mesmo tentando ignorar (aceitando até ao limite) as provocações e abusos, David vai ter de tomar uma posição, assumindo o confronto físico com aqueles que abomina.

Análise:

Sam Peckinpah ficou conhecido pelo seu revisionismo do mais sagrado dos géneros de Hollywood, o Western, e pelo sadismo e violência com que o tratou no grande ecrã. Os seus filmes são por isso um testemunho da inevitabilidade da violência humana como forma de expressão, e, segundo o próprio uma forma de lidar com demónios pessoais.

A partir de um livro de Gordon M. Williams, Peckinpah, filmou na Inglaterra “Cães de Palha”, o seu primeiro filme que não é um Western, mas que até podia ser, uma vez que trata de uma história nos confins da civilização (no caso a Cornualha) onde ainda se acredita na justiça por conta própria. É quase um estudo do comportamento humano, quando posto em cheque, testando os limites que farão um homem razoável saltar de um estado “civilizado” para outro, além da sua ética e moral, quando as circunstâncias o retiram da sua zona de conforto, transportando-o para onde valem apenas instintos primários de sobrevivência.

O homem estudado é, em “Cães de Palha”, David Sumner (numa brilhante interpretação de Dustin Hoffmann), um matemático que trabalha em astrofísica teórica, habituado a viver entre os seus livros e um quadro de escola, no isolamento do seu estúdio. Se a mudança da vida urbana norte-americana para o ruralismo britânico é já de si um retirar de David do seu habitat natural, mais perturbador ainda se torna a convivência com pessoas que ele não compreende, que rejeita por as sentir inferiores, e que nitidamente o tratam com desprezo e com indisfarçável chauvisnismo.

Mas David é um homem habituado a não agir, confiando no bom senso, mesmo para além do conveniente. Por isso deixou atrás de si uma fuga a tomadas de posição (os protestos e caos social anti-guerra do Vietname), que fazem a própria esposa achá-lo cobarde. É esse o seu instinto natural, e por ele vai aceitando os vários abusos: o desleixo e insubordinação dos trabalhadores que contrata (um deles ex-namorado da esposa), as provocações à esposa, e até a morte criminosa do gato, para além da violação de que nunca chega a saber. De uma forma ou de outra todos os acontecimentos são exemplos de uma masculinidade em teste.

Tal justifica o título do filme, uma referência extraída do poema V de Tao Te Ching de Lao Tse, onde cães de palha (oferendas rituais chinesas) simbolizam seres sem essência (“O universo não tem afeições humanas; Todas as coisas do mundo são para ele como um cão de palha”).

No confronto de atitudes com David temos a esposa Amy (Susan George), infantil e mimada onde ele é adulto, que nem sempre aceita o quão diferente o marido é daquele mundo rude a que ela pertencera, que exige mais dele, e o impele a agir. Há em Amy um constante desejo de que David se imponha, que procure em si sementes dessa animalidade primária, que é afinal a linguagem falada na região que agora habitam. Daí que Amy o provoque, e provoque (exibindo a sua nudez) aqueles que teme, mas em quem inveja esse modo de ser mais instintivo.

Curiosamente é por outros (o perseguido Henry Niles, interpretado por David Warner), e não pelo casal, que David vai finalmente tomar uma posição de ruptura, desafiando os locais, e impondo-se com risco para a sua própria vida. Essa sequência final é avassaladora, com o descobrir da coragem escondida de David, na resistência ao assédio dos cinco assaltantes que não hesitam em usar os meios mais cruéis para obter os seus fins. Situação a situação, quase todas vão sendo resolvidas com inúmeros requintes de violência explícita.

O filme choca por essas cenas, e todas aquelas em que há violência gráfica, com pormenores de sadismo não muito em voga no cinema de então. Entre as sequências chocantes deve salientar-se a violação de Amy (onde a perceptível ambiguidade de Amy causou enorme polémica), que, pelo seu detalhe e explanação, conferem à cena um realismo que não pode deixar de nos perturbar. No entanto, e embora as cenas explícitas sejam sempre aquelas que mais ficam na memória, o filme cria habilmente uma tensão surda em inúmeros momentos, que vai sempre crescendo, funcionando como um prelúdio para o clímax final.

Com o seu uso de planos aparentemente grosseiros, cortes bruscos, câmara de movimentos erráticos, e grandes planos de uma proximidade exagerada, Peckinpah dá-nos uma linguagem realista que confere a cada cena um acrescido efeito de perturbação sobre o espectador.

Herói ou vilão? É a pergunta para quem quer descrever David Sumner, um pacifista que parece encontrar-se no momento em que pode exteriorizar toda a raiva acumulada dentro de si. David procede a um verdadeiro massacre, ainda que em legítima defesa, tornando-se em tudo o que ele despreza. Por isso, no final, ele surge satisfeito e aliviado, talvez por saber agora mais alguma coisa sobre si, e por descobrir que afinal é mais humano (no sentido mais animal da palavra) do que julgara.

Como habitual nos filmes dos anos 1970, essa ambiguidade é o cerne da história, privando-nos sempre de um final feliz, ou de uma moral pré-determinada, simples de entender. Por isso, à pergunta anterior é pertinente acrescentar: “E nós, que desejámos também aquele banho de sangue para nos satisfazermos, quem somos afinal?”

Como curiosidade acrescente-se que “Cães de Palha” foi talvez o filme que mais contribuiu para criar o súb-género de invasões domésticas, que continua a proliferar no cinema de terror e suspense.

Um remake do filme de Peckinpah surgiu 40 anos mais tarde, também intitulado “Cães de Palha” (Straw Dogs, 2011) com realização de Rod Lurie, e com James Marsden e Kate Bosworth nos principais papéis.

Produção:

Título original: Straw Dogs; Produção: ABC Pictures Corp. / Talent Associates Films, Ltd. / Amerbroco Films, Ltd.; País: EUA/Reino Unido; Ano: 1971; Duração: 118 minutos; Distribuição: British Film Institute (BFI) (Reino Unido); Estreia: 3 de Novembro de 1971 (Reino Unido), 27 de Abril de 1973 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sam Peckinpah; Produção: Daniel Melnick; Argumento: David Zelag Goodman, Sam Peckinpah [a partir do livro “The Siege of Trencher’s Farm” de Gordon M. Williams]; Música: Jerry Fielding; Consultora de Design de Produção: Julia Trevelyan Oman; Fotografia: John Coquillon; Design de Produção: Ray Simm; Direcção Artística: Ken Bridgeman; Cenários: Peter James; Caracterização: Harry Frampton; Figurinos: Tiny Nicholls; Efeitos Especiais: John Richardson; Montagem: Roger Spottiswoode, Paul Davies, Tony Lawson.

Elenco:

Dustin Hoffman (David Sumner), Susan George (Amy Sumner), Peter Vaughan (Tom Hedden), T.P. McKenna (Major John Scott), Del Henney (Charlie Venner), Jim Norton (Chris Cawsey), Donald Webster (Riddaway), Ken Hutchison (Norman Scutt), Len Jones (Bobby Hedden), Sally Thomsett (Janice Hedden), Robert Keegan (Harry Ware), Peter Arne (John Niles), Cherina Schaer (Louise Hood), Colin Welland (Reverendo Barney Hood), David Warner (Henry Niles).